terça-feira, agosto 22, 2006

118. A voz

A multidão que circulava na rua oprimia-a e fazia com que o pânico surgisse de mansinho mas tão voraz como qualquer furacão.
Há horas que caminhava sem rumo pelas velhas calçadas da cidade, sem conseguir que o cansaço a invadisse e a fizesse esquecer da imagem aterradora que presenciara.

Dividida entre o pavor e o dever perante a lei, voltou a fixar as águas calmas do Tejo e invejou-lhe a sorte. Naquele instante dava tudo para se transformar em água, vento, pluma, num nada infinito mas belo… mágico, alegre e inexplicavelmente vivo.

De repente, a emoção ou talvez a ausência dela fizeram-na estagnar entre a ilusão e o real, muito para lá do que é ditado pela razão, enquanto o ribombar de trovões, se ouviu ao longe.
Deslizou por entre a avalanche humana e sentiu-lhe a frieza húmida, compacta… intensa, com que muito subtilmente começava a familiarizar-se.
O seu peito sangrava. Os seus olhos turvavam-se. Isolada na sua solidão de caminheiro andante… errante… ninguém a fitava, a tocava… nem ela!
Por mais que tentasse evitar, nada impediu que o seu espírito recuperasse, em pequenos flashes, o momento e sentisse o contorno do que tinha sido… desvanecer-se como poeira levada pelo vento.
Pudesse ela apagar aquele dia do registo da sua vida e seria como descobrir o paraíso.

- Vai embora… o teu lugar já não é aqui! – Clara estremeceu ao ouvir aquela voz.
- Não… - exclamou exausta – O meu lugar será sempre aqui!!
- Porque tu queres?! Encara a realidade, tu es…
Tapou os ouvidos repetindo desesperada:
- Não, não, não… Tu não sabes nada de nada… Eu sei.
- Não sabes ou melhor… não queres saber. Ficar vai ser pior para ti! – O tom não tinha uma única nota de ameaça, apenas de pena e desconsolo.
Cansada daquele diálogo sem sentido procurou focar um ponto indefinido algures na outra margem sem qualquer sucesso. Quis chorar mas a única coisa que conseguiu foi emitir um som indescritível.
- Deixa-me em paz! Não preciso de ti! És tu quem tem que ir embora…
- Para que tu possas fingir que naquele quarto ninguém morreu da forma mais violenta que alguma vez imaginaste?!
- Cala-te!!! Eu não tenho nada a ver com isso… - gritou.
- Não?! Tens a certeza?! Não há nada que possas fazer para alterar o que aconteceu!!
- Não aconteceu nada!!
- Não?! Olha para as pessoas! Alguém olha para ti?! Gritaste-me… alguém se voltou para olhar?! Enquanto caminhavas pelo Rossio, quantas pessoas esbarraram em ti sem sentir mais do que um arrepio?!
- Isso não significa nada… - o medo começou a dominá-la!
- Tens a certeza?! – Perguntou-lhe baixinho.
- Eu não…
- …morri?! Morreste… pelos motivos errados mas foi isso que aconteceu! Não tiveste culpa…
- …culpa?! – Repetiu-se. – Alguém morreu, há um culpado mas nenhumas das duas pessoas sou eu.
- Clara, não faças isso.
- Cala-te!! Tenho que ir à polícia. – Ergueu-se do banco de rompante.
- De nada te adianta, não te poderão ver nem ouvir! Por muito que não queiras admitir, o Bruno assassinou-te.
- Não!! Ele não faria isso…
- Por ciúme, por cobardia, por saber que tu o irias denunciar na empresa, que seria preso pelo desfalque e o mais provável seria finalmente voltares para quem sempre amaste… Achas que não o faria?! Claro que sim, tanto que foi o que fez!
- Eu não posso ter morrido… Não...
Naquele momento Clara sentiu-se fraca como se toda a sua força tivesse desaparecido.
- Eu não posso ter morrido… - golpeou com os punhos fechados o granito gelado do banco sem sentir qualquer dor.
As imagens continuavam a aparecer-lhe em catadupa. Os salpicos de sangue na parede, o corpo, ainda quente, tombado sobre a cama, contorcido e esfaqueado, e o olhar já sem vida esbugalhado e suplicante. Quase podia sentir aquele cheiro, abafado e decadente, a morte. A roupa, o quarto, a pequena estatueta, as molduras em cima da cómoda… tudo lhe era tão familiar. Bruno, Carlos, a empresa, a auditoria, as discussões, as ameaças… Sim!! Por muito que fosse cruel enfrentar a realidade, no momento em que começava a libertar-se, a tentar ser feliz, Bruno tinha-se transformado no seu carrasco e tinha-lhe arrancado o que de mais valioso tinha: a vida!
- Morri… Eu morri…?! - Murmurou.
- Mas um dia terás oportunidade de voltar… só o amor é para sempre, a morte não!
- Achas…?! O amor?!
- O verdadeiro…!! Acredita em mim!! O amor... é a única coisa que é mais forte que tudo, seja lá o que for este "tudo"!

Por fim, Clara, pode sentir o aconchego da noite a chegar... aquele que só se sente quando se acredita que está um novo dia para chegar!

- Adeus...
- Até já!

7 comentários:

Daniel Aladiah disse...

Querida Maria Nunes
De acordo quanto à qualidade de vida... quanto ao amor, ele, o verdadeiro, existe sempre, em tudo e todos, mas nós somos limitados e precisamos aqui de escolher pessoas a quem nos dedicar mais... Porventura, teremos a sorte de encontrar (ou melhor, construir!) um amor eterno...
Um beijo
Daniel

João Mãos de Tesoura disse...

Bonito monólogo, com muitas interpretações possíveis!
Que se lixe o Bruno, ó Maria, e mortes do coração vão e vêm! Life goes on!
Beijos

Paz Kardo disse...

Olho para os teus textos e não posso deixar de te convidar mais uma vez a participares no projecto das colectâneas em http://www.iranima.net

Atendendo à tua versatilidade, por que não participares também nos desafios Letras com Traços. Consulta os regulamentos no site.

Participa e contribui com toda essa riqueza que existe dentro de ti.

Beijinhos Maria...

Pedro Aparício disse...

Tou a ver que uma romancista promissora surge da geração blog...

Duarte Temtem disse...

Só agora tomei conhecimento deste blogue. Os meus parabéns, escreves muito bem.
Não acredito que o amor seja para sempre mas isso não tira mérito nenhum à sua escrita.
Na verdade, por mais que se deixe a alma no que se escreve, ninguém me garante tu mesma acredites nisso.
Mais uma vez, os meus parabéns.

AF disse...

do segundo - Impacto para aqui: http://www.cadernos-amf.blogspot.com

MJ disse...

Lindo o texto. transmite algo que pode ser indescritível.
Foi um grande impacto para primeiro vez que passo pro aqui. Gostei imenso.
Parabéns