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terça-feira, agosto 22, 2006

118. A voz

A multidão que circulava na rua oprimia-a e fazia com que o pânico surgisse de mansinho mas tão voraz como qualquer furacão.
Há horas que caminhava sem rumo pelas velhas calçadas da cidade, sem conseguir que o cansaço a invadisse e a fizesse esquecer da imagem aterradora que presenciara.

Dividida entre o pavor e o dever perante a lei, voltou a fixar as águas calmas do Tejo e invejou-lhe a sorte. Naquele instante dava tudo para se transformar em água, vento, pluma, num nada infinito mas belo… mágico, alegre e inexplicavelmente vivo.

De repente, a emoção ou talvez a ausência dela fizeram-na estagnar entre a ilusão e o real, muito para lá do que é ditado pela razão, enquanto o ribombar de trovões, se ouviu ao longe.
Deslizou por entre a avalanche humana e sentiu-lhe a frieza húmida, compacta… intensa, com que muito subtilmente começava a familiarizar-se.
O seu peito sangrava. Os seus olhos turvavam-se. Isolada na sua solidão de caminheiro andante… errante… ninguém a fitava, a tocava… nem ela!
Por mais que tentasse evitar, nada impediu que o seu espírito recuperasse, em pequenos flashes, o momento e sentisse o contorno do que tinha sido… desvanecer-se como poeira levada pelo vento.
Pudesse ela apagar aquele dia do registo da sua vida e seria como descobrir o paraíso.

- Vai embora… o teu lugar já não é aqui! – Clara estremeceu ao ouvir aquela voz.
- Não… - exclamou exausta – O meu lugar será sempre aqui!!
- Porque tu queres?! Encara a realidade, tu es…
Tapou os ouvidos repetindo desesperada:
- Não, não, não… Tu não sabes nada de nada… Eu sei.
- Não sabes ou melhor… não queres saber. Ficar vai ser pior para ti! – O tom não tinha uma única nota de ameaça, apenas de pena e desconsolo.
Cansada daquele diálogo sem sentido procurou focar um ponto indefinido algures na outra margem sem qualquer sucesso. Quis chorar mas a única coisa que conseguiu foi emitir um som indescritível.
- Deixa-me em paz! Não preciso de ti! És tu quem tem que ir embora…
- Para que tu possas fingir que naquele quarto ninguém morreu da forma mais violenta que alguma vez imaginaste?!
- Cala-te!!! Eu não tenho nada a ver com isso… - gritou.
- Não?! Tens a certeza?! Não há nada que possas fazer para alterar o que aconteceu!!
- Não aconteceu nada!!
- Não?! Olha para as pessoas! Alguém olha para ti?! Gritaste-me… alguém se voltou para olhar?! Enquanto caminhavas pelo Rossio, quantas pessoas esbarraram em ti sem sentir mais do que um arrepio?!
- Isso não significa nada… - o medo começou a dominá-la!
- Tens a certeza?! – Perguntou-lhe baixinho.
- Eu não…
- …morri?! Morreste… pelos motivos errados mas foi isso que aconteceu! Não tiveste culpa…
- …culpa?! – Repetiu-se. – Alguém morreu, há um culpado mas nenhumas das duas pessoas sou eu.
- Clara, não faças isso.
- Cala-te!! Tenho que ir à polícia. – Ergueu-se do banco de rompante.
- De nada te adianta, não te poderão ver nem ouvir! Por muito que não queiras admitir, o Bruno assassinou-te.
- Não!! Ele não faria isso…
- Por ciúme, por cobardia, por saber que tu o irias denunciar na empresa, que seria preso pelo desfalque e o mais provável seria finalmente voltares para quem sempre amaste… Achas que não o faria?! Claro que sim, tanto que foi o que fez!
- Eu não posso ter morrido… Não...
Naquele momento Clara sentiu-se fraca como se toda a sua força tivesse desaparecido.
- Eu não posso ter morrido… - golpeou com os punhos fechados o granito gelado do banco sem sentir qualquer dor.
As imagens continuavam a aparecer-lhe em catadupa. Os salpicos de sangue na parede, o corpo, ainda quente, tombado sobre a cama, contorcido e esfaqueado, e o olhar já sem vida esbugalhado e suplicante. Quase podia sentir aquele cheiro, abafado e decadente, a morte. A roupa, o quarto, a pequena estatueta, as molduras em cima da cómoda… tudo lhe era tão familiar. Bruno, Carlos, a empresa, a auditoria, as discussões, as ameaças… Sim!! Por muito que fosse cruel enfrentar a realidade, no momento em que começava a libertar-se, a tentar ser feliz, Bruno tinha-se transformado no seu carrasco e tinha-lhe arrancado o que de mais valioso tinha: a vida!
- Morri… Eu morri…?! - Murmurou.
- Mas um dia terás oportunidade de voltar… só o amor é para sempre, a morte não!
- Achas…?! O amor?!
- O verdadeiro…!! Acredita em mim!! O amor... é a única coisa que é mais forte que tudo, seja lá o que for este "tudo"!

Por fim, Clara, pode sentir o aconchego da noite a chegar... aquele que só se sente quando se acredita que está um novo dia para chegar!

- Adeus...
- Até já!

segunda-feira, maio 22, 2006

114. E pronto!!




A casa é amarela, se calhar até é branca encardida pelo tempo mas pronto… o céu está mais azul do que nunca e o sol mais forte que em qualquer outro dia. O que mais se poderia dizer do fim de tarde em que Marta se aventurou pela avenida, sem horário a cumprir nem destino definido?!

Marta tinha pouco mais de vinte anos, o cabelo longo, ondulado e castanho, os olhos amendoados e a tez escurecida pelas muitas horas passadas na praia da Baforeira, porque sim e porque é sempre “bem”. Vivia numa dos degradantes bairros da Reboleira mas quem a via, baseando-se na aparência com que se exibia diariamente, certamente que a imaginaria num dos condomínios privados da linha de Cascais ou até do centro de Lisboa. Jamais acreditaria que dividia o seu quarto com duas primas e a “casa” com os pais, os tios, os primos e os avós. O trabalho como secretária valia-lhe uma remuneração que sustentaria uma família mas isso não lhe chegava. Talvez por isso não era raro vê-la submergir nas ruas do Bairro Alto, meter conversa com os estrangeiros a quem calorosamente surripiava um par de notas a troco de calor humano. Talvez o fizesse por prazer ou talvez fosse uma forma de compensar o amor que nunca encontrara, a paixão que tardava. Marta era assim e pronto!! Explicar para quê?! Gostava do sexo descomprometido, do dinheiro que recebia, de frequentar os hotéis mais caros de Lisboa e os bares mais “In”. Se a família desconfiava do que se passava nas noites em que se ausentava também ninguém comentava e como poderia se a promiscuidade começava em casa

Desde cedo percebera que não tinha um lar dito “normal”.

Tinha 10 anos quando pela primeira vez soube o que era estar menstruada. Assustada recorreu à mãe que enigmaticamente lhe explicara que passara a ser uma mulher e que havia coisas que deveria aprender sobre homens e mulheres.
Uma semana depois de acordar com o sangue a escorrer-lhe pelas pernas estranhou quando o pai a chamou à sala. As crianças nunca entravam lá quando os adultos se reuniam depois do jantar. Iam dormir, não faziam perguntas e pronto… quanto muito ouviam os gemidos, as respirações alteradas, riam-se no silêncio do quarto e perguntavam umas às outras o que estariam a fazer os “crescidos”.

Nesse dia o tio sentou-a no colo e cada um dos presentes dedicou-lhe uma atenção especial. Sem compreender porquê explicaram-lhe o que significavam as alterações que o seu corpo tinha sofrido e que deveria preparar-se para descobrir um prazer diferente daquele que sentia quando brincava com as bonecas, ouvia música ou lia um livro.

Depois disso tudo tinha acontecido de forma surreal… Avaliaram o seu corpo como um pedaço de carne pendurado no talho, tocaram-lhe o peito pequeno e roliço e esfregaram os dedos grossos no seu sexo até ficar inchado. Só pareceram satisfeitos quando a ouviram soltar um pequeno gemido. Ao contrário do que pensaram não era de prazer mas de dor… uma dor que ia além do físico que atingiu o clímax quando o tio a penetrou lentamente, diante dos risos e olhares irónicos de cada um deles. Sentira vergonha, dela, do seu corpo e de pertencer àquela família.

Com o tempo habituara-se àqueles rituais e aprendera a ter e dar prazer mas perdera completamente a esperança de descobrir um amor como o dos livros e filmes românticos que lhe enchiam a mente de sonhos.

Cresceu e pronto!

Viciou-se em prazeres carnais, apurou a imagem e passou a viver uma vida dupla e excitante onde os valores morais não existiam.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

107. Os laços e as sombras ( VII )

- Era só o que me faltava, mas a burra sou eu!! Escolho-os a dedo!! – o acre das palavras ecoou para lá dos lábios.

O coração batia descompassado quando o ar frio da noite lhe crivou o corpo de incómodos arrepios. Apetecia-lhe caminhar, perder-se pelos passeios e aventurar-se na noite. Em vez de se dirigir para casa sujeitou-se ao acaso pela calçada deserta. Precisava espairecer e acalmar-se.

- Quem me manda ser otária? – o velho hábito de falar sozinha voltara em força. – Há-os para todos os gostos, de todos os tipos, uns mais desprezíveis que outros, mas todos, do alto da sua presunção, se julgam os maiores.
O telemóvel vibrou no interior do bolso da gabardina.
- Idiotas!! Calham-me sempre os piores. – suspirou sarcástica - Cordeirinhos?! Qual quê?! Despem a pele e não passam de imbecis.

As mãos tremiam-lhe quando segurou o pequeno aparelho. Estava sem paciência para falar com quem quer que fosse mas ao ver que era a mãe foi a razão que prevaleceu. Preocupá-la era a última coisa que desejava.

- Sim, mãe!?
- Olá, filha. Por onde anda a minha menina?!
- Estive no café do tio mas não me apeteceu ir já para casa. Acho que vou jantar no D. Rodrigo.
- Está tudo bem, querida?
- Está. Não te preocupes. Só estou chateada porque o Afonso apareceu no café. – após uma breve pausa continuou. – Mãe, segunda-feira vou à câmara. Está na hora de voltar ao trabalho.
- Tu é que sabes. Só quero que sejas feliz mas pensa bem. Não te esqueças que ainda não recuperaste completamente.
- Os zumbidos e as dores de cabeça já quase desapareceram. O resto só com o tempo… portanto não vejo porquê adiar mais.
- Tu é que sabes. – a voz da mãe soava apreensiva. A filha estava a tentar encontrar uma desculpa para não pensar no Camboja, em Afonso e na Matilde. – Não venhas tarde, está bem?!
- Está. Um beijinho grande e… mãe, gosto muito de ti e do pai.
- Eu sei. Nós também gostamos muito de ti.
Aconchegou o cachecol ao pescoço e enfrentou o silêncio citando baixinho um velho poema que lera algures.

- O silêncio é pó!
Pó que se abeira dos dias,
Se infiltra no coração,
Que como o ódio o corrói!
Não há música,
Não há vida,
Não há sonho,
Só o negrume, cerrado e frio!

O silêncio é pó!
Pó que não se vê,
Se insinua subtilmente...
Quanto muito, se pressente,
Na ponta do pensamento,
Na onda do momento...
Que não se vive
Que não se desfruta,
Que não se imagina, sequer!
Só se ignora, intenso e revelador!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!


Já um sorriso se ensaiava no seu rosto quando o telemóvel voltou a perturbar-lhe os pensamentos. Catarina deteve-se de olhos esbugalhados a olhar para o pequeno écran, ao mesmo tempo que lutava contra o súbito pavor que a assaltara. O seu semblante estava branco como a cal.

- Isto não me está a acontecer!

Negou-se a ouvir aquela voz mas isso não impedia que o desconforto persistisse.
A noite afigurava-se cada vez mais sombria e nenhuma vivalma se avistava. Notou com estranheza que até o vento parecia ter cessado e sem forças para combater a sensação de estar a ser vigiada olhou em redor. Nada. Estava a ficar paranóica. Quase podia jurar que alguém a observava.

- Ohhhhh. – exclamou quando um gato vádio saltou do caixote de lixo.

Acelerou o passo, já faltava pouco para chegar.

- O silêncio é pó?!
Pó que te arrasta.
Pó que te afasta...
(Dos risos, da euforia, da magia...)
Que te transforma em fantasma
Como uma imagem irreal num plasma.
Pó!!

O silêncio é pó?!
Pó... que não tacteias
Mas que se infiltra nas tuas veias...
É ele que te reveste de um negro opressor,
Que te suga a essência e te aniquila!
Pó!!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!

Pó!!


Um carro passou a alta velocidade, no mesmo instante que ouviu a porta de um outro a ser fechada vigorosamente.
Passou-lhe despercebido o vulto que se aproximou por trás dela, por entre as árvores do parque de estacionamento, junto ao restaurante.
O negrume debruçou-se sobre ela sem que se lhe visse o rosto e tudo o que pode notar foi a sombra a descer sobre si.

(Continua...)

Capítulos anteriores:
I II III IV V VI

sexta-feira, dezembro 16, 2005

106. Os laços e as sombras ( VI )

A taça fumegante de chocolate tinha acabado de ser colocada em cima da velha mesa de carvalho quando, cativa do calor que emanava, deixou que os dedos esguios tacteassem o barro.

- Que bom!! – suspirou.

A humidade pairava no ar, não tão densa como aquela que a impedia de respirar quando, no fim da tarde, se sentava no alpendre do bungalow onde vivera durante dois meses. Imaginou que regressava a Siem Reap.
As recordações chegavam-lhe numa catadupa de imagens, que de tão sobrepostas a confundiam. Procurou aclarar a memória e, muito embora o esforço se tenha revelado infrutífero, comprazia-a a doce sensação de ter sido muito feliz Então, porque tinha regressado mais cedo?!

- Porquê?! – o tom era irónico e mordaz – Estafermo!!

Os pensamentos ainda se atropelavam quando o viu entrar.
À meia-luz do canto onde se encontrava quase se percebiam as chispas que iluminaram, repentinamente, os olhos amendoados. A longa melena escondia-lhe a expressão transtornada e os lábios comprimidos.
Contemplou-o enquanto se aproximava por entre as mesas geometricamente dispostas e, contrariada, teve que admitir que o bom gosto de Afonso não o tinha abandonado. Sempre admirara a sua preferência por roupa de corte simples e cores pouco chamativas. O blusão bege contrastava com o castanho das calças e a camisola verde seco deixava antever o branco da t-shirt que usava rente ao corpo; o que contrabalançado com o moreno da pele, o cabelo escuro e os olhos verdes como esmeraldas, a impediam de ignorar a sensualidade que transpirava. Respirou profundamente e inebriou-a um suave odor a lavanda, plantas aromáticas e a madeiras exóticas. Conhecia muito bem aquela fragrância e, mais ainda, a pessoa que habitualmente a usava.

A presença daquele homem insultava-a e exacerbava as emoções que prometera, em vão, controlar.

- Tu!! Como te atreves!?

Amargo e trocista, o riso ecoou no mais profundo das suas entranhas.

- E porque não?! O lugar é público. – disse-lhe enquanto arrastava a cadeira e se sentava. – Não pensaste que poderias fugir tão facilmente, pois não?!

A dor estampada no rosto de Catarina atingiu-o como se um punhal se cravasse na pele.

- Desculpa... Gostava de falar contigo e juntos tentarmos resolver isto.

A revolta mais que a surpresa dominou-a e quando conseguiu falar, o som era gutural como o ribombar dos trovões.

- Não tens nada, absolutamente nada, para falar comigo. – quase sem tomar fôlego continuou. – Se tivesses vergonha, nem sequer estavas aqui.
- Enganaste, minha cara! – a paciência chegara ao limite. - Há assuntos que temos que esclarecer... e não penses que a tua agressividade me assusta, muito pelo contrário, diverte-me. Ficas patética com esse ar de donzela ofendida.

O silêncio pairou sobre eles durante o que pareceu uma eternidade.

- Não te imaginava tão cobarde. – acrescentou.

Catarina ergueu-se de rompante denunciando a intenção de se retirar mas Afonso foi mais rápido e segurou-lhe o braço delicado.

- Senta-te e não me obrigues a fazer algo de que me arrependa! – o tom cortante produziu nela o efeito contrário ao pretendido e, sacudindo violentamente o braço, libertou-se.
- Tu, também não me metes medo!!

Afonso viu-a rodopiar sobre si própria e sair pela porta, altiva e furiosa, quase a correr como se fugisse do diabo em pessoa.
Mais tarde ou mais cedo teria de aceitar conversar com ele. Não poderia esconder-se a toda vida.

- Tem que ter paciência com a menina.
- Mais do que aquela que tenho tido, Sr. João?! – o desânimo e a indignação eram evidentes.
- Os últimos meses não foram pêra doce e ela ainda não se tinha recuperado do primeiro golpe já o segundo lhe era servido a frio e o terceiro estava na fornalha.
- Sabe... não nego que sou culpado mas não do que ela me acusa. Se tivesse um pingo de consciência admitiria que se continuasse no Camboja o pior poderia acontecer. – suspirou como que a ganhar alento. – Uma semana antes de voltar, só por sorte não ficou à mercê de uma quadrilha ligada ao tráfico humano.
- Ela contou-me mas acha que foi só um susto.
- Um susto?! – escarneceu.
- Sim.
- Então digo-lhe mais… Foi bem mais que isso: foi um aviso! Com aquela gente não se brinca. O miúdo que nos alertou foi assassinado como se fosse um cão vadio, sem dó nem piedade e, mesmo eu, vi-me obrigado a viver na sombra até concluir o trabalho. Ela não tem noção...
- Pode até ser, mas...
- ... mas?! Não. Não há explicação para não me querer ouvir.
- Não pense assim. Está magoada, é o que é! Já viu o que ela passou?! Sonhou tanto com a pesquisa e foi o que foi... Depois o acidente que não recorda e como se não bastasse sente-se responsável pela morte daquela mulher. Já para não falar de quando o Afonso se encantou pela Matilde.
- Quanto a isso pouco posso fazer. – encolheu os ombros. – Foi uma estupidez, eu sei, mas pode estar certo de que não sou como o Vasco.
- Oh!! Esse passou por aqui há duas semanas. Vá lá, parece ter tomado rumo. – perante o arquear de sobrancelhas de Afonso, concluiu. – Está outra vez com aquela moça com quem namorou há uns anos e a coisa parece que vai pegar de vez.
- Não lhe perguntou por ela?!
- Perguntou mas não quer dizer nada. – limpou as mãos e, sem saber o que dizer, acrescentou - Acho que nunca pretendeu magoá-la mas a vida dá tantas voltas. O diabo anda sempre à espreita. Mas não se preocupe que a menina gosta é de si.
- Acha?!
- Quer um conselho? Não desista!

Afonso voltou a encolher os ombros enquanto passava a mão pelo cabelo em desalinho.

- Espero que sim, espero que sim, sr. João.

Era em momentos como aquele que o pobre homem se sentia velho e cansado. Não havia modo de perceber os jovens. Antigamente com 30 anos, tinha-se um trabalho de sol a sol e uma família a quem proteger. Era verdade que o orçamento deixava a desejar mas era-se feliz. Catarina tinha 32 anos, Afonso mais dois, ambos tinham vingado na vida, um a dar aulas numa universidade e o outro a trabalhar na câmara. O que lhes faltava?! Se calhar, acreditar na vozita do coração e enfrentar com coragem as dificuldades?! Aprender a lutar pelo que queriam e a dialogar?! Enfim, sabia lá ele... ou eles!

(Continua...)

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quinta-feira, dezembro 01, 2005

105. Os laços e as sombras ( V )

- Porcaria de trânsito! - o desabafo fundiu-se com a música vibrante que o rádio emitia e que em nada atenuava a ira que o consumia.

Os carros avançavam lentamente e os minutos não paravam de se acumular, irritando-o cada vez mais.

- Maldita seja! – explodiu.

Nas últimas vinte e quatro horas, o seu semblante adquirira um novo rasgo de arrogância, agressivo quase tenaz, que fazia com que os outros condutores não se atrevessem a mais que um fortuito olhar.

A mulher do carro ao lado observou-o. Tinha um perfil marcante: o nariz aquilino, o queixo bem desenhado e os olhos de uma tonalidade clara, talvez verdes, contrastantes com o cabelo negro. O resultado final revelava-se invulgarmente bonito. Só os lábios, contorcidos numa linha tão azeda como o fel, faziam com que qualquer pensamento mais romântico esmorecesse à semelhança de uma flor sem água ou oxigénio. A expressão daquele homem arrepiou-a. Parecia uma bomba-relógio.

O trânsito avançou, compassado, durante alguns quilómetros mas com o aproximar das portagens não tardou a que Afonso suspirasse com enfado. Detestava conduzir naquelas condições. Era impossível ficar indiferente àquele caos.

As másculas mãos crisparam-se, mais ainda, quando um Volvo se atravessou à sua frente e o obrigou a travar bruscamente.

- Otário, vê por onde andas. – gritara-lhe quase sem se dar por isso.

Com os nervos em franja olhou o relógio. Pouco passava das cinco horas e não chegaria se não, na melhor das hipóteses, dali a uma hora.

Regressara mais cedo que o previsto influenciado pelo telefonema, pouco amistoso, que recebera na véspera.
As palavras ainda ecoavam no interior do seu cérebro:

- És um traste. Como é que pude pensar que eras diferente…
- Deixa-me explicar-te. – pedira interrompendo-a.
- Explicar o quê?!?! Não há nada que justifique o que fizeste.
- Há!! Tu sabes disso, portanto não te armes em menina mimada e põe a mão na consciência.
- Como tu fazes...?! Não sejas hipócrita. Eu estava viva, não estava?!
- Estavas, mas todos pensámos...
- ... que nunca recuperaria!? Eu sei! O facto é que estou aqui e não quero mais chantagens psicológicas.
- Estás a ser ridícula...
- Isso é o que tu és quando me mandas flores, escreves bilhetinhos lamechas e pensas que me vais engrupir nos teus joguinhos sórdidos. Esquece. Esquece que eu existo... de uma vez por todas!

O telefone fora bruscamente desligado e Afonso ficara estático, assombrado com a descoberta de que, também ela, não era tão doce como imaginara.
O conflito que se gerara no seu íntimo levou a que cancelasse a palestra na universidade e regressasse a Portugal três dias antes do previsto.
Ali, impotente, cercado por uma imensidão de carros, arrependeu-se. Poderia ter adiado o confronto, ganhar tempo e permitir-lhe arrefecer as ideias. Mas não! Tivera que atravessar a fronteira debaixo de chuva cerrada, pisar no acelerador e esperar que quando chegasse ela estivesse no café do sr. João. Não se sentia com predisposição para lhe bater à porta de casa. Preferia conversar com ela num local minimamente neutro.

A ansiedade dominava-o quase tanto como o exasperava o trânsito, o descontrolo emocional que ela demonstrara e a sensação absurda de culpa.

A cancela foi levantada. Lisboa já se avistava no horizonte.

(Continua...)

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I II III IV V

terça-feira, novembro 29, 2005

104. Os laços e as sombras ( IV )


- Hoje ninguém sai de casa.
- Está um frio terrível, menina. É o que é! - exclamou o atarracado dono do café enquanto a servia - Só se está bem no quentinho. Tu é que és jovem e tens sangue na guelra... caso contrário também não estavas aqui.
- Obrigada, Sr. João. – disse enquanto aproximava a chávena. - Se calhar devia ter ficado em casa, mas desde que saí do hospital, só estou bem é na rua.

O homem, senhor dos seus sessenta anos, olhou-a carinhosamente.

- Sr. João?! Fui despromovido?!
- Desculpe... – Catarina sorriu – Tio João.

Ele e a esposa tinham nascido no seio de, pequenas e tradicionais, famílias de Trás-os-Montes e os parentes por lá continuavam. Quando vieram viver para Lisboa, os tempos eram outros. Tempos difíceis em que lhes valeu a amizade de um jovem casal, filho da terra que haviam deixado para trás: os pais de Catarina. Se não fossem eles, até fome teriam passado.
João da Rega, como era conhecido, nunca poderia esquecer o que lhes devia. Não era dinheiro mas um bem mais precioso.
O elo perdurara ao longo dos anos e, ainda hoje, eram indiscutivelmente as únicas pessoas, em Lisboa, a quem poderiam chamar amigos.
A pequenita nascera alguns anos depois da intempestiva e aventureira cruzada até à cidade, numa altura em que ele e a esposa já tinham aceitado o destino e o facto de não poderem ter filhos. A afeição que lhe dedicaram era de tal forma que, apesar de entre eles não existir qualquer vínculo sanguíneo, era inconcebível não a considerarem uma sobrinha muito querida.
Quando a vira há uns meses, entre a vida e morte, o coração comprimiu-se e muitas lágrimas derramou com Mariana, a esposa, junto ao leito do hospital.
Chocara-o saber que depois do acidente pouco se recordava da vida que tinha até então ou, até, das pessoas que conhecia.

A voz melodiosa interrompeu-lhe o curso dos pensamentos:

- Não ligue, tio. Esta minha cabeça ainda não voltou ao lugar mas há-de voltar. – piscou-lhe o olho bem-humorado.
- Claro que sim, querida. É só uma questão de tempo e paciência.

João da Rega afastou-se enquanto sorria. A esperança é a última a morrer.

(Continua...)

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I II III IV

terça-feira, novembro 01, 2005

97. Os laços e as sombras ( III )

- Não podes recusar! – Repetira-lhe Matilde

Perante o ar aparentemente indiferente de Catarina insistiu:

- Quantas vezes te ouvi dizer que se a oportunidade surgisse não a recusarias. Há quantos anos esperavas por isto?!

Encolheu os ombros e rodopiando sobre si própria olhou pela vidraça da janela.
O dia amanhecera estranhamente calmo, sem que pudesse adivinhar o emaranhado de indecisões que a levariam quase à exaustão, horas mais tarde.
Se o convite tivesse surgido há um ou dois meses teria aceite sem hesitar mas, naquele espaço de tempo, muita água correra debaixo da imponente ponte pombalina.
A copa das árvores balançava, suavemente, abrigando do sol meia-dúzia de barulhentos
pardais, animados frequentadores do parque.
Suspirou e encolheu os ombros, remetendo-se a um pesado silêncio.
Sentia-se numa encruzilhada e tinha por hábito escolher o trilho mais hostil. Os desafios sempre tinham sido sedutoramente estimulantes e este apresentava-se grande de mais para ser recusado. Essa era a verdade.
Aceitá-lo revelar-se-ia no concretizar de um sonho.

O convite surgira pela mão de um conhecido de longa data, também ele sociólogo.
Afonso fizera o doutoramento na Universidade de Salamanca e, pelo que sabia ficara, desde então ligado a vários projectos de investigação.
Apaixonado e empolgado, com este último que lhe fora proposto, não hesitara em avançar. No entanto, consciente de que seria impossível realizá-lo sozinho, ocorrera-lhe, ser ela, a assistente ideal.
Conhecia o seu percurso académico e o profissional, até as ambições e, mais do que isso, adivinhara que a personalidade aparentemente serena e doce escondia a determinação e a coragem necessária para arriscar e com ele abraçar o desafio. Será que se enganara?!
Uma semana antes de lhe mencionar uma única frase sobre o assunto, já o seu nome tinha sido proposto à equipa de catedráticos responsável pelo departamento e aceite. Restara-lhe, então, convencê-la.

Estudar o pós-guerra no Camboja, a influência que a trágica guerra do Vietnã tivera sobre a população e a reconstrução da própria sociedade... era aliciante.
Do pouco que sabia, o país tinha sido no passado um importante império khmer. A edificação da magnífica cidadela de Angkor Ton datava do apogeu desse período e seria precisamente lá, onde se verificava o expoente máximo do turismo cambojano que iniciariam a pesquisa.

Nos últimos dias tentara absorver o máximo de conhecimento sobre o território que se lhe afigurava demasiado hostil para ser real. A sede de saber impelia-a a assistir incontáveis filmes e documentários, a ler qualquer registo histórico do que era passado e presente e até a realizar inúmeras pesquisas na internet.
A imagem das minas terrestres sobrevoava a sua mente ininterruptamente.
Quantos anos demorariam ainda para que não restava uma única?! Cinquenta... sessenta?! Acreditava-se que seria um longo e interminável século.
Suspirou enquanto recuperava fragmentos do que lera sobre o assunto. A guerra... o genocídio, as minas... a opressão e, agora, a precária estabilidade política, condenavam aquele povo irremediavelmente a níveis horripilantes de pobreza.
Dos onze milhões de habitantes, oitenta por cento estavam em zonas rurais e dedicavam-se à agricultura. Acreditava que seriam estes, a grande massa populacional, que estava em perigo iminente e também aqueles que ditavam os tão preocupantes níveis de analfabetismo e turismo sexual.

Afonso alertara-a para os perigos que correriam se não se restringissem a cumprir a orientação dos guias e para a ofensiva realidade com que se defrontariam.
Adultos e crianças mutilados eram vistos por toda a parte e mesmo passado tantos anos o peso da opressão ainda era sentido. Os turistas limitavam-se a percorrer as bonitas cidades de Siem Reap e Phnom Penh, a capital. O perigo espreitava a cada passada dada para lá das cidades e das estradas. Por mais fascinantes que se afigurassem as florestas tropicais havia que resistir à tentação. Qualquer passo em falso poderia ser fatal.

- Vamos beber um café?! – sorriu timidamente à expectante Matilde.

- Vamos... mas promete-me que não tomas nenhuma decisão precipitada.

- Prometo. Nunca o faço. – a voz de Catarina assumiu um tom grave e ambíguo.

- Também não penses de mais! – retorquiu-lhe efusivamente a amiga.

O bom humor imperava apesar de pairar no ar uma inflamada tensão.

A mente de Catarina fervilhava de ideias e imagens. Os pais, os amigos, o gato... até a bicicleta, a praia, o carro, ou o café da manhã junto ao Tejo a fizeram sentir uma antecipada sensação de saudade.
Noventa dias... afinal, seriam apenas três meses num país distante... com uma realidade que a atingia e sensibilizava como nenhum outro.

Algo nas suas entranhas vibrou.
Por mais que lutasse contra si própria sabia que não tinha como recusar e, ante esta sentença que o seu espírito lhe ditava, a latente força interior foi expelida sobre a forma de destemidas palavras:

- Sabes que mais?! Vou aceitar!

A partir daquele momento tudo ocorreu num ápice. Poucos dias depois a licença sem vencimento tinha sido entregue e aceite, a viagem estava reservada e informadas as pessoas que lhe eram mais queridas.

Catarina e Afonso haveriam de pisar o solo cambojano e, constatar a mística influência das monções, nos seus temperamentos habitualmente controlados.
Para já, a euforia que os contagiara era mais intensa que o habitual; ao ponto dos próprios amigos não lhe conseguirem ficar indiferentes.

O dia da despedida aproximava-se. Dali a dois dias entrariam no avião e nenhum livro, revista ou documentário os preparara para o que viveriam.

No dia anterior tinham saído com amigos comuns. Teria sido uma noite como tantas não fosse o clima de excitação e o facto de Catarina ter visto de relance Vasco.
Surpreendera a sua presença no preciso momento em que se ausentava.
A nostalgia que então sentiu contrastou com a alegria do momento.
Assaltou-a uma miscelânea de emoções e chocou-a olhar para ele como se não passasse de uma personagem de um qualquer filme ou um vulto numa fotografia desfocada.
Há meses que nada sabia de Vasco ou Juliana, nem sequer lhes tinha dedicado mais do que, um ou outro, esporádico segundo.

Olhou a linha do horizonte, sentada na areia dourada, sacudiu a densa melena que lhe envolvia o rosto e quedou-se imóvel a aguardar os pensamentos que se seguiriam.

Quase sentia pena de Juliana a quem a vida, os desgostos e a frustração transformaram de forma tão negativa. Acreditava que a sua essência não seria tão má como aparentava mas a falta de princípios era demasiado marcante para ser ignorada.
Suspirou tomando consciência de que aquela mulher nunca mudaria e jamais seria verdadeiramente feliz.
E Vasco?!
Sorriu...
Muito demoraria até que aquele menino em corpo de homem se apercebesse que o mundo existia para lá do seu meio-metro quadrado mas o dia chegaria.
Esperava que fosse feliz tanto quanto ela o seria.
A nenhum dos dois guardava rancor mas do amor que, no passado, lhes dedicara também nada restava.
O tempo encarregara-se de lhe demonstrar que nada acontece por acaso...

Semicerrou os olhos e inspirou o ar puro, extasiada com o cheiro a mar, a vida, a esperança...
As recordações esfumaram-se como que levadas pelas ondas de espuma branca e no seu íntimo algo estremecia... docemente. O passado expirava.

Cercava-a uma tranquilidade sem limite quando a pressentiu que alguém se aproximava. Ergueu o rosto vagarosamente...

Há anos que se conheciam mas naquele instante parecia-lhe que o via pela primeira vez: Os traços exóticos do rosto, o andar pausado, o cheiro inebriante da água de colónia e aquela vincada personalidade...
A inesperada consciência do homem que era provocou-lhe uma estranha e embriagante excitação. Tão possante quanto tentadora!

- Afonso...

Sorriram... Nenhum dos dois poderia continuar a esconder aquela certeza que brotava do mais profundo das suas almas: Depois daquela viagem aguardava-os um novo e sensual rumo...

A centelha do amor principiara a renascer das cinzas...

(Continua...)

quarta-feira, outubro 26, 2005

96. Os laços e as sombras ( II )

O fim-de-semana findava como começara: lá fora a chuva teimava em cair.
Displicentemente recostado no confortável sofá, Vasco, susteve o fumo compacto, no calor dos pulmões cansados, permitindo que a nicotina o inebriasse. Olhou atentamente o cigarro e repetiu-se uma vez mais... tinha que parar de fumar.
O exagero tinha um motivo e ele não o ignorava.
O tabaco entorpecia-lhe os sentidos e ajudava-o a abstrair daquela sensação, de vazio e culpa, que não insistia em não o abandonar mesmo depois de...

Suspirou.

Porque insistia a sua mente em recordar a doçura, o cândido carinho, intenso e desprendido, daqueles olhos, daquele rosto e daquele corpo?!
Naquela manhã quando acordara o seu primeiro pensamento fora para ela, tão impulsivo e avassalador que, a sua respiração ficara entrecortada, o coração batera mais forte e a nostalgia não se coibiu de o abraçar devolvendo-lhe rastos de emoções bem menos deprimentes.
Na verdade fora um erro!! Um erro arriscar e, um erro fugir depois de o ter feito. Mais ainda, não ser forte o suficiente para resistir a instintos primitivos e básicos, traí-la e expulsá-la da sua vida sem que tivesse coragem para abrir o coração...

Depois dela mais nada... teria aquele mágico sabor a sonho e a vida.
Como tardara em perceber isso. E agora...?! Agora ela fugira-lhe por entre os dedos, tal qual areia ou água. Talvez para outros braços... Seria possível?!

Recordou-a. A rebeldia sensual que tanto a caracterizava atingiu-o como um soco no estômago vazio.
Angustiava-o saber que, afinal, perdera muito mais do que antes previra ou pressentira.
Juliana era apenas, um corpo longe de ser belo, um afago roubado na contagem imprecisa do tempo e da noite, numa daquelas horas em que, mais que emoções, é o destilar do álcool que o move.

Sacudiu a cabeça. Quem escolheria uma pedra de carvão se pudesse ter um diamante?! Apenas ele...

Rodopiou o copo entre as mãos.
O cigarro há muito que fora apagado no cinzeiro repleto de beatas.

Remoer o passado não mudaria o rumo dos acontecimentos, não a faria regressar ou o levaria até ela.

A culpa estava intrincada em cada poro da sua pele e envergonhava-se da cobardia que o manifestara.
Queria amadurecer, abandonar aquela irresponsável conduta de quem se deixa guiar em nome de um ego que de nada... se convertia em nada!
Queria libertar-se das amarras do que ficara perdido lá atrás, nos anos em que transformara a ilusão no seu porto de abrigo e fazer renascer das cinzas a esperança. No entanto, como se pode vencer o desânimo de quem não se atreveu a lutar e viveu as histórias que não leu mas que ouviu contar?!
Catarina... poderia ser apenas um nome sem rosto, sem alma nem coração... todavia era uma força viva que continuava a impregná-lo de emoções e sentimentos que não ousava nomear, por mais evidentes que fossem.
Suspirou. Talvez o tempo esbatesse a noção exacta do que se negara a aceitar... e ofuscasse a deprimente sensação de perda. Talvez acalmasse o coração e lhe devolvesse o ânimo... Talvez!
Semicerrou os olhos e quedou-se imóvel a contemplar um ponto indefinido da sala, numa espera monótona e incongruente com o mais profundo dos seus desejos. Que passassem os segundos, os minutos, as horas... que se apagasse a memória e se danasse tudo. Inclusive ele.

O Big Ben marcou o compasso. Passaram mais que horas... semanas... meses...
Rodeou-se de amigos para quem era uma espécie de rei. Vieram os primeiros e espontâneos risos, noites loucas em que o ritual se mantinha, sem que uma vez que fosse inibisse o corpo de se deixar seduzir pelo vulgar jogo de Juliana, e quase... quase acreditou estar a salvo daquela aura mágica, tão rara quanto uma pedra preciosa, que um dia o abraçara com verdade, com carinho... com amor...

O frio atenuara-se e, mesmo quando o negrume descia sobre a cidade, a temperatura era amena.
Aqui e ali, começava a observar-se a movimentação de pequenos grupos.
Naquela noite, reunira-se com os amigos de sempre num dos bares que ladeava a praia... O tédio da rotina instaurada e da vida sem qualquer delineado objectivo era insustentável. Esgotadas as forças já não tinha como continuar a ignorá-lo.
Olhou os rostos conhecidos que o cercavam. Sentiu-se como se os visse pela primeira vez ou se de repente as máscaras tivessem ruído. Enojou-o o que encontrou. Uma ou outra excepção era tudo o que lhe restava.
Ergueu-se da impessoal e desconfortável cadeira e encaminhou-se até ao bar.
Foi quando a viu...
O vestido branco moldado ao corpo bem torneado, o cabelo solto sobre os ombros protegidos pelo leve tecido de algodão e o rosto... O rosto tão doce e sereno como o recordava.
À distância bebeu-lhe o sorriso e as palavras que não ouvia mas adivinhava pelo, lento e sensual, movimento dos lábios.

Um arrepio percorreu-lhe o corpo... Catarina...

Por breves instantes recuou no tempo. Imaginou-se a envolvê-la nos braços e a sentir o inebriante calor do beijo que tantas vezes fora partilhado... Quase sentiu as suas mãos a estreitar a delicada cintura e a sua respiração cálida, tão suave como uma carícia. Reviu-se a protegê-la dos olhares menos inocentes e a olhá-la com admiração.

Cerrou os olhos, impressionado com o rumo dos seus pensamentos, extasiado com o mar de emoções que o assaltavam e prostravam sobre terra a convicção de que nada restava...

Não... !!
O passado era passado...

Afastou-se sem que ela pressentisse a sua presença e, sem sequer questionar a sua atitude, encaminhou-se para a rua...
Fugir não era uma opção mas o recurso para sanar aquele mal que, tão ferozmente, o ameaçava.

Vasco vivia do ego das pequenas e fúteis conquistas, dos “amigos” que como abutres se abeiravam dele, das amarras ao passado em que sofrera e ao conforto de uma vida fácil onde bastava querer para ter.
Não passava de uma criança carente, sedenta de atenção, num corpo de homem. Um rei... sem reino, refugiado num castelo sem alicerces, construído no meio de nenhures.

Que poderia ele oferecer a alguém como ela?! Não a traíra já mesmo no calor da paixão? Ou teria sido apenas um desafio... que depois soubera não vencido?!

Há mistérios que o coração e a mente não poderão, jamais, descortinar.


(Continua? Talvez...)

terça-feira, outubro 25, 2005

95. Os laços e as sombras ( I )




Um riso cristalino ecoou pelo vale enquanto pequenas gotas de suor deslizaram pelos contornos do rosto feminino. A roupa leve colava-se ao corpo moldando-se a cada curva delicada e sedutora...
Deitada na relva fresca que ladeia o pequeno riacho, Catarina, contemplou as nuvens que calmamente passavam; imaginou que se transformara numa e deixou que o pensamento flutuasse ao sabor do vento.
A caminhada matutina deveria ter esgotado toda a sua energia mas, ao invés disso, parecia ter actuado sobre si de forma revigorante.
Inspirou o ar puro e de um único movimento ergueu-se. Sentia, no seu íntimo, uma paz, doce e serena... como se tudo nela estivesse em profunda harmonia com a natureza que a cercava. O chilrear dos pássaros, o som de água a cair... o próprio vento... tudo a fascinava. Até o trilho que se estendia à sua frente, íngreme e irregular.
Sorriu-lhe, como se de um humano se tratasse, desafiando-o a fazê-la desistir.

Pé ante pé, a jovial jornada foi retomada.

O suspiro veio, involuntário e quase inaudível.

Por fim poderia permitir que a recém-terminada relação com Vasco lhe voltasse à lembrança. Estranhamente, tudo se afigurava como uma ténue recordação, breve e desfocada. Gostar dele tinha sido uma novidade, na vida de reclusão que tinha há anos. Saboreara esse sentimento com prazer e alegria. Agora sabia...!! Continuava a ter essa mágica capacidade de sentir!!
Com o fim prematuro do episódio os amigos esperaram lágrimas, revolta... tristeza mas nada disso viera. Tudo era alegria, serenidade e encanto. Ninguém jamais entenderia aquele ímpar estado de espírito! Só ela, a quem parecia tão fácil e banal controlar o coração. Vezes havia em que se questionava porque assim era. Porque se sentia sufocar a cada despertar... quando estendia a mão e aquele corpo quente a abraçava?! Porque se sentia enfraquecer a cada olhar partilhado?! A cada palavra dita?! A cada encontro?! Teria, realmente, gostado dele?! Gostaria ainda?! Quantas perguntas sem resposta com as quais não se preocupava, simplesmente porque não lhe apetecia desperdiçar o tempo em considerações que não a fariam evoluir!!
A verdade é que, para ela, o amor não passava de uma ilusão criada pelo homem para justificar a necessidade de não estar só! Para ela, a felicidade estava em momentos como aquele em que, tal como uma criança, corria pela vereda ladeada de giestas e urzes... Tudo o resto deturpava-lhe a visão... oprimia-a e tornava-a infeliz!
Sorriu... comparando-se a um felino que desfalece quando enjaulado! Ela era assim! Um ser que buscava prazer nas pequenas coisas da vida e amor nos olhares embevecidos da família e dos amigos. Isso bastava-lhe! Por enquanto...

Avistou o açude a uns metros de distância e quando, por fim, se aproximou da orla daquele, pequeno e paradisíaco, recanto não resistiu.
O lugar era isolado e perfeito para se aventurar a refrescar a pele húmida.
Como uma lebre, astuta e atenta, perscrutou o silêncio sussurrante da natureza. Despiu a roupa e submergiu na água cristalina.

Há muito que não se sentia tão livre... e tão feliz.
Inesperadamente, do mais profundo da sua essência, como que a contradizê-la, surgiu a imagem de Vasco e Juliana. Juntos...
Como pudera ser tão tonta?! Traída pela segunda vez por aquela mulher a quem chamara de amiga... ?!

Emergiu energicamente da água para, tal qual um exímio ser aquático, voltar a submergir.

Que se danassem todos!! Ela estava bem e se alguém perdera não fora ela. A força daquele pensamento esgotou-lhe o fôlego e, num único impulso, voltou à tona da água. Durante largos minutos quedou-se a boiar limitando-se a esvaziar o pensamento e deixar que o instinto a guiasse.

Esfriara. Chegara o momento de deixar de imaginar que de nuvem se transformara em peixe.
Infelizmente, tinha que voltar ao mundinho de sempre... onde as pessoas são por vezes demasiado egoístas, mesquinhas e... muito pouco inteligentes.
O rosto contorceu-se numa careta divertida, ao mesmo tempo que, se delineou um sorriso cínico nos lábios, habitualmente ternos. A vida era assim... que podia fazer!?

Pela segunda vez o mesmo pensamento voltou... Que se danassem todos!

Meia-hora depois, era com pesar, que retomava a caminhada e abandonava o cantinho de céu em que desfrutara a mágica sensação de não existir mais nada... que não ela e a natureza.

Regressava, exausta mas convicta de que dos dias sem data guardara, o melhor, a noção exacta de que passara por eles sem mácula.
Mais tarde ou mais cedo, a vida... ou os sonhos, ou tão-somente o destino, haveria de a recompensar das horas em que se esquecera de sorrir.

Mais tarde ou mais cedo... Um dia, talvez, já a espreitar o horizonte...

(Continua?! Talvez...)

sábado, maio 14, 2005

85. (Re)encontros



O dia finda quando Matilde se resolve a delinear as primeiras palavras... A carta é escrita ao sabor da emoção e, ainda que possa parecer fruto de um fugaz devaneio, o amor que a consome é eterno...

A ti...

Sentada na velha esplanada, de frente para o mar, sinto a voraz energia que dele emana... a mesma que flui através de mim e me envolve numa doce teia de deslumbre.
Inspiro. O cheiro salgado a algas entranha-se no meu corpo enquanto a leve brisa sacode os caracóis que me emolduram o rosto. Um ou outro fio castanho, mais atrevido, turva-me a vista enquanto te encaro. Descrevo-te o momento sem que me possa manter indiferente à tua presença. Fascinas-me. Inebrias-me com a sensualidade com que me brindas. Neste meu cantinho, que não passa de meio metro quadrado de paraíso, consinto-te a carícia! Surpreendes-te! Eu sei! Há quantos anos me recolhi nesta concha e me converti num bivalve racional?! Tantos que já não têm conto. E agora tu... só tu... recém reencontrado, consegues o milagre de me fazer sair das paredes que considero um confortável refúgio.
Tens razão em te admirar com o meu regresso... Quantas vezes nos teremos cruzado, no último ano e meio, que me tivesses assim... debaixo da tua mirada, exposta e feliz?! Uma, duas... não mais do que isso!
A força do teu olhar ilumina-me a alma e fazes com que volte a ter consciência da essência feminina e humana que me abraça.
De repente, voltaste a ser o amante que não tenho, o companheiro que não desejo... De repente, fazes que com que sorria estarrecida com esta sensação de plena liberdade.
Olho as pessoas que na praia jogam, conversam, lêem ou dormitam. Ainda que não percebas porquê diverte-me fazê-lo. Sentes-te traído. Amuas e nem sequer consegues admitir que deveria ser eu a sentir-me assim.
Rabisco numa folha os teus traços e, silenciosamente, prometo-te que pelo menos durante alguns meses te farei companhia. Não mais do que isso... Não quero?! Não... Tu não o permitirás.
Apercebo-me que um casal de idosos me olha de forma estranha, sem compreender porque entre dois ou três suspiros o sorriso de pura felicidade se alarga. Também eles são apanhados desprevenidos pois não te vêem como eu! Provavelmente, pensaram que me assaltam pensamentos menos puros ou dirigidos a alguém menos especial.
Lês o que escrevo... sorris e acusas-me de gostar de jogos de palavras. Será?! Provavelmente terás razão. Mas gosto mais de ti, do teu calor e da tua presença.
Espero que me saibas perdoar a ausência de tantos meses. Perdoas?! Eu sei que sim!
Prometo-te que de agora em diante me verás mais vezes com excepção daqueles dias em que te esconderás atrás das nuvens sem que por um ínfimo espaço de tempo me permitas ver o ar da tua graça.
Juntos iremos partilhar muitas manhãs, outras tantas tardes e, inclusive, haverá dias em que, momentos antes de desapareceres no horizonte, te permitirei beijar-me a fronte... mais uma vez.
Por hoje, despeço-me de ti. Deixo-te na companhia das dezenas que invadiram a praia... e do mar que acaricias, ternamente, enquanto te lanço um último olhar!

Até breve, querido!

Matilde


A pequena folha de papel ainda está depositada sobre a mesa quando o seu vulto deixa de se avistar e se encaminha para lá das dunas...

Gonçalo senta-se, estende a mão... a mente regista cada uma das emoções enquanto um arrepio lhe percorre o corpo. Ao ler aquelas palavras, sente-se como se estivesse a invadir a privacidade de dois amantes. Quem as escreveu era uma incógnita indecifrável, no entanto comprazeu-o compor a imagem feminina da sua autora. Por momentos, imaginou que aquela missiva lhe era dedicada... e quase sentiu a doçura daquele terno olhar.

Como é bom sonhar!

terça-feira, maio 10, 2005

84. Enigma Continuação

O dia amanhecera solarengo e agradável mas no fim da tarde pequeninas nuvens surgiram no horizonte. O sino da igreja anunciava as dezanove horas quanto um leve aguaceiro a surpreendeu... Faltava uma hora para se encontrar com João.
Abalada pelos sucessivos e misteriosos telefonemas sentira-se pressionada a revelar-lhe a sua conduta pouco ou nada correcta. Não havia como fugir ao confronto.

Mil e um pensamentos invadiram a sua mente e todos a inquietavam ainda mais. Ele não iria perceber... nem aceitar mas a culpa era, exclusivamente, dela.

Três horas depois, Catarina, percebia que não se enganara. João não só não conseguiu compreender o que a levara a traí-lo como a acusara de ser egoísta, mesquinha, cínica e muito... muito pequenina. A discussão fora acalorada, a mágoa instalara-se e nenhum dos dois conseguiu encarar o outro. O relacionamento que mantinham há tantos anos terminara de forma brusca...

Os dias que se seguiram foram para ela os mais difíceis... tudo a entediava e, por uma ou duas vezes, cometera erros crassos no trabalho. Ao fim de uma semana admitiu finalmente que precisava de descansar e se afastar da rotina durante um par de dias.
A verdade é que nunca chegara a considerar a hipótese de vir a arrepender-se tão violentamente de tudo. Amava-o mais do que nunca...
Naquele Sábado o sol voltou a invadir cada recanto da cidade. Obrigou-se a sair de casa. Quando chegou à praia poucos eram os que por lá se aventuravam. Aquele lugar fora o palco de muitos dos momentos felizes que partilharam. O preferido dele... deles. Ali sentia-o tão próximo de si que se fechasse os olhos quase o poderia tocar.

Ao longe avistou dois vultos abraçados. Inexplicavelmente não conseguia afastar o olhar... Os contornos das suas silhuetas pareceram-lhe de tal forma familiares que ao conseguir distinguir-lhes os traços quase não se surpreendeu. João e Inês...

Agora percebia...

Catarina poderia até imaginar que compreendia mas, na verdade, nada sabia sobre o enredo que os amantes tinham engenhado.
Inês era uma bela mulher e João há muito que não lhe resistia... mas sendo o pai de Catarina o seu chefe não poderia simplesmente terminar o relacionamento e admitir o seu deslize... Era cobarde?! Sim! Ele sabia.
Juntos, ele e Inês, arquitectaram um plano por forma a abstraírem-se de qualquer suspeita e culpa.
Sabia que Carlos se apaixonara pela sua namorada e só não se aproximara dela por respeito... Bastara-lhe revelar ao amigo o seu romance para que este se insinuasse. A carência afectiva dela fizera o resto.
Naquela noite fora muito fácil esgueirar-se pela casa: Inês entretinha Catarina na cozinha, Joana tagarelava sem parar com Carlos e, ele, com o pretexto de ter de lavar as mãos acabou por ficar sozinho. Disfarçar a voz também tinha sido muito simples... sempre lhe disseram que imitava os outros muitíssimo bem. Viesse quem viesse ninguém poderia negar que tinha sido um óptimo actor.
Estava feliz?! Não tanto como tinha suposto...

sexta-feira, maio 06, 2005

83. Enigma Continuação

A esplanada estava quase vazia apesar do sol convidar a meia hora descontraída, no café do CCB. Catarina aproveitara o fim da tarde para espairecer. Fazia-lhe companhia o último livro de Dan Brown, "Anjos & Demónios". O título lembrava-lhe os últimos acontecimentos... aqueles que tinham povoado a sua vida de seres horrendos. Há duas semanas que era assim... desde o maldito jantar.
Quantas vezes se questionara...?! Quantas vezes se perdera em suposições e imaginou os mais mirabolantes enredos. Só sabia que Carlos e Joana não tinham sido os autores do delito.
Carlos, mediante a sua recusa em terminar a relação com João, confessara que aquele amor clandestino tinha perdido a magia. Na verdade desejava poder sair à luz do dia de mão dada e viver a vida a dois de forma plena. Esse não era o objectivo dela. Ele sabia... tal como lhe era inegável que chegara o momento de se afastarem.
Joana, por seu lado, que há muito ambicionava arranjar um trabalho melhor, surpreendera-a com a notícia de que fora seleccionada para gerir um dos departamentos da dependência espanhola. Catarina ignorava, por completo, que a amiga era licenciada em Gestão de Recursos Humanos. Ficou feliz por ela ao mesmo tempo que se sentiu invadida por um sentimento de culpa...
Restavam João e Inês... A dor da desconfiança consumiam-na e cada vez que o telemóvel tocava o pânico apoderava-se dela. Qual dos dois teria o diário?!

quarta-feira, maio 04, 2005

82. Enigma




Catarina contempla, da janela do seu quarto, o pôr-do-sol. Uma estranha nostalgia abate-se sobre ela enquanto se relembra dos últimos dias... Não compreende a insatisfação que a tem dominado.
Namora com João desde a adolescência mas há muito que a velha magia se esfumou. Talvez por isso tenha cedido à tentação e desfrute de forma tão intensa dos momentos que passa na companhia de Carlos. Na realidade, são eles que quebram a monotonia da sua vida. É urgente resolver o imbróglio dos seus sentimentos mas aquela situação afigura-se-lhe muito cómoda. Enfrentar a família e os amigos, terminar o namoro, é uma possibilidade que, para já, afasta.
A paixão terminara, acomodara-se! Mas quantos relacionamentos não sobrevivem à base de amizade?! Não fosse a desconfiança de Joana e tudo seria perfeito. Ás vezes surpreendia-se a duvidar da sua amizade. Carlos advertira-a, por mais do que uma vez, de que a posição que ocupava na empresa atraía muitas invejas e aproveitadores. Seria possível que Joana recorresse, de forma consciente, à amizade que as unia para obter regalias?!
Enfim!! De uma coisa estava certa... da sinceridade de João e da plena confiança que ele depositava nela. Se por um lado a enternecia saber disso por outro fazia com que se sentisse, ainda mais, culpada. Desabafara com Inês as suas preocupações e surpreendera-a a repreensão da amiga. Chamara-a de egoísta, fria, calculista. Era assim...?! Uma mulher demasiado convencida de si própria que conseguira sem esforço o que muitos não ousavam, sequer, almejar?! Ou seria que em Inês ainda existia o velho ressentimento de ter sido preterida por João?!
Abanou a cabeça como se procurasse afastar toda a insegurança e energia negativa que estava a tomar conta dela. Naquela noite iriam jantar juntos, ali em casa. O melhor que tinha a fazer era tomar um reconfortante banho, colocar o seu sorriso mais resplandecente e dar-se por feliz de ser quem era.

A música envolvia a atmosfera da sala, o jantar já se dera por terminado e a casa voltara a estar vazia. Por momentos, desejara que a noite se alongasse... Pela primeira vez em muitos meses, voltara a olhar para o namorado com adoração. Tinha sentido a frustração a tolher-lhe os sentidos quando, também ele, saíra sorrateiramente como se em casa o aguardasse algo mais emocionante que os seus murmúrios, habitualmente, desprovidos de emoção. A solidão da calada da noite atingiu-a com a ferocidade de um murro no estômago vazio.
Meia hora depois de terem saído recebera o primeiro telefonema...

- Eu sei de tudo... – a voz soara-lhe abafada e metálica.

Um calafrio percorreu-lhe a coluna quando o pensamento ganhou forma. A desconfiança minou-lhe a parca segurança e trémula dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta adivinhando-a vazia... o diário desaparecera. Cinco pessoas estiveram naquela casa desde a última vez que ali o deixara. Se não tinha sido ela a dar-lhe sumiço restavam-lhe quatro hipóteses... João... Inês... Carlos... e Joana.
A dúvida instalou-se.

- Eu sei de tudo... como consegues?! – novo telefonema... a mesma voz.
- ...de tudo?! De tudo o quê?! – respondera-lhe aparentando uma calma que não sentia.
- De tudo! Como consegues?! – replicaram do outro lado.
- Não há nada para saber...
- Não?! Tens a certeza?! Tens tido noites muito animadas... tórridas, diria!
- Vai à... – gritou-lhe enquanto a chamada foi subitamente interrompida.

O que significava tudo aquilo?!

Recordou-se de João, da forma inesperada como alterara os planos e lhe dissera que não ficaria com ela aquela noite; de Carlos que um dia antes lhe pedira para ser frontal com o amigo e terminar a relação... e Inês, não a censurara?! Não lhe dissera que estava a ser vulgar, imoral e não merecia a pessoa que tinha do seu lado?! Restava Joana... a fútil colega de trabalho, a quem interessavam apenas belos penteados e trapinhos de última moda. A mesma... que naquela tarde lhe “exigira” que a promovesse a sua secretária. Claro, em nome da amizade que as unia.
Qual deles traíra a sua confiança e invadira o espaço intimo do seu quarto para lhe roubar o pequeno caderno... onde depositava os seus mais secretos devaneios?!

quinta-feira, abril 14, 2005

74. Crise...



O olhar queda-se imóvel sobre a encruzilhada de letras e linhas impressas no jornal, enquanto no seu íntimo a revolta ganha forma. Suspira e quase desiste de fixar os insolentes anúncios de emprego.
Há meses que abre o jornal expectante mas nada de novo é publicado naquelas cinzentas páginas. Ordenados base, altos lucros, condições aliciantes e possibilidade de carreira... a esses mal presta atenção. Para quê se são palavras escolhidas a dedo para esconder degradantes situações de trabalho precário?!
Afasta por fim os olhos esverdeados do papel salpicado de caracteres e observa os rostos sisudos dos que a rodeiam. Um casal discute baixinho... um senhor, de idade avançada, debruça-se sobre um livro de páginas amarelecidas e, mais além, dois jovens desabafam sobre a incompetência deste, a inércia daquele... Inês encolhe-se no desconforto da cadeira de madeira e, abstraindo-se da realidade dos dias que correm, imagina-se a trabalhar no departamento de formação de uma qualquer empresa. Ali fica, envolvida em sonhos, um quarto de hora quando sobressaltada se apercebe que lhe perguntam as horas. O interpelador era o leitor compenetrado daquele livro que já vira melhores dias...
13:50... Quase sem se aperceber o tempo passara. Tinha que regressar ao trabalho... sem a esperança de melhores dias!
Inês é uma, entre muitas, das pessoas que neste país se debatem com a insatisfação profissional, sem conseguir antever um rasgo de luz. Não fosse o reconfortante carinho de amigos e familiares a sua vida seria simplesmente frustrante. Assim... é no amor, na amizade, na verdade e na lealdade que encontra o mote dos seus dias! Talvez por isso se considere afortunada...
Diz-se que o país está em crise económica... mas a ela parece-lhe que a crise vai além disso. Foi acompanhada por este pensamento que alcançou a porta do prédio onde trabalha... e bem a tempo de ver o Dr. Carlos afastar o olhar de uma criança, suja e esfomeada, que se lhe dirigiu.
No seu silêncio descontente insurgiu-se perante semelhante atitude. Sem coragem de subir as escadas e, também ela, ignorar o tímido pedido da menina perguntou-lhe:
- Tens fome?
- Tenho... hoje só comi uma sopa que o senhor do “Tacho” me deu.
Entraram as duas no café que ficava ali mesmo ao lado. Era cliente habitual daquele pequenino estabelecimento e o Sr. João quando a viu sorriu...
- Não diga mais nada... que eu já sei o que me vai pedir.
- Obrigada, Sr. João. Eu ás seis pago-lhe.
- Vá descansada.
Um sorriso espontâneo abeirou-se dos seus lábios enquanto subiu apressadamente as escadas. Estava atrasada cinco minutos mas feliz...
A crise económica não explica a frigidez do coração nem o latente egoísmo de algumas, demasiadas, pessoas!

sábado, abril 09, 2005

73. "Só o amor é real"
Brian L. Weiss



A “primeira” vez que te vi foi no aeroporto de Lisboa. Faltavam trinta minutos para embarcar, rumo a um destino onde poderia finalmente descansar, e esquecer o projecto fracassado devido à incompetência do gestor de marketing.
Trazias contigo um pequeno volume, embrulhado num bonito papel com sorridentes ursinhos. A forma cuidadosa com que o seguravas enternecer-me. Na altura, recordo-me, imaginei-te no papel de pai. Inconscientemente, soube que serias, um daqueles, atento, amigo, carinhoso, paciente... dedicado! Simpatizei contigo.
Demasiado embrenhada nestas deambulações mentais não me apercebi que a diminuta carteira que trazia comigo escorregara colo para o chão. Recolheste-a. Encontrei o teu olhar e senti-me como se tivesse sofrido uma descarga eléctrica. Agradeci. Procurei sem querer uma aliança na tua mão esquerda, que não encontrei. Sorri e observei-te a caminhar em direcção ás portas de embarque.
Pensava que “nunca mais” te veria mas isso não me incomodava. Talvez soubesse que numa outra vida nos acabaríamos por encontrar. Não foi preciso esperar tanto. Quis o destino que o nosso avião fosse o mesmo e determinou a sorte que o teu lugar fosse junto ao meu. Foi deste modo que me foi possível saber que ias visitar a tua irmã. O Gonçalo tinha nascido há uma semana.
Como qualquer tio “babado” não resistiras a pedir alguns dias de férias. Confessaste-me que te pesava a consciência porque deixaras a meio um qualquer relatório.
A ansiedade dominava o teu espírito. Em breve irias conhecer o teu primeiro sobrinho. Ficarias “uma semana” em Nice. Eu também. Eu regressaria no Domingo e tu no Sábado. Não trocámos números de telefone e nada previa que nos voltássemos a cruzar. Qual não foi o meu espanto quando te vi, naquele Domingo, junto à zona de “check-in”. Tinhas adiado a tua viagem de regresso um dia e timidamente confessaste que tinha sido por mim.
O contacto manteve-se. Uma sólida amizade nasceu e quando nenhum dos dois conseguia já negar o inegável... dez meses depois da viagem a terras francófonas, pediste-me para casar contigo. Aceitei.
Hoje, doze anos depois, quatro desde que percebi a razão daquela intrigante sensação de sempre te ter conhecido, voltei a ler o livro que me permitiu compreender. “Só o amor é real”, escrito por Brian L. Weiss, recordas-te?! Não teria sido necessário lê-lo para saber que sempre estivemos destinados a partilhar a vida mas ajudou-me a decifrar o elo inquebrável que nos une.
Ás vezes, perguntas-me se sou feliz. Muito, respondo. Tanto que não existem palavras que possam descrever a dimensão desta felicidade.
Sabes... mais do que na vida, acredito no poder do amor e nos desígnios do destino.
Creio que nunca te disse, mas antes de te conhecer inúmeras vezes me questionava como seria amar alguém ou encontrar aquela que seria a minha alma gémea. Sentia-me como se estivesse, pacientemente, à espera... Conscientemente, não sabia do quê ou de quem. No entanto, algures nas entranhas do meu ser sei que era por ti que aguardava... O complemento mágico da minha essência estava em ti.
Porque te escrevo esta carta, querido?! Porque por mais que te repita que te amo nunca serão as vezes suficientes para retratar o amor que te tenho!

Amo-te! Hoje mais do que ontem... menos do que amanhã!

Com amor,

Ana


Ana tem hoje 44 anos, mais de metade da sua vida dedicou-a a estudar e trabalhar. Até conhecer João não tinha outra motivação que não fosse ter uma confortável estabilidade económica. Os dias eram incrivelmente vazios e desprovidos de emoção. Aos 31 anos apaixonou-se por ele, quatro anos mais velho e tão “workaholic” como ela. Juntos descobriram a magia e o poder do amor, delinearam um novo projecto de vida e descobriram que é possível ser-se, verdadeiramente, feliz.
O que é verdade?! O que é mentira!? Só o amor que os une é real!
Têm um filho de oito anos. Um menino a quem se dedicam com um amor infinito. Idealizam e concretizam cada dia como se fosse parte integrante de um sonho... e têm no livro de Brian L. Weiss a “prova” de que os seus passos estão eternamente unidos.
Ana e João ousaram ouvir a voz do coração!

sexta-feira, março 04, 2005

56. Momentos



O feminino cruzar de pernas captou a sua atenção quando, ao olhar o pequeno espaço do restaurante, a avistou a dois metros da mesa que ocupava. O queixo erguido, as costas direitas, o cabelo sedoso a envolver-lhe os contornos do rosto... A sensualidade brotava, de cada um dos poros, daquele corpo e, suscitava-lhe imagens que em nada seriam consideradas castas.

Sacudiu, levemente, a cabeça numa frustrada tentativa de se concentrar na tagarelice enfadonha do consultor imobiliário. Um homem atarracado, a beirar os 50 anos, que não primava pelo bom gosto, a julgar pelo comentário brejeiro que dedicara à empregada. A sua voz era fastidiosa.

Aborrecia-o a insistência com que elevava a mão macilenta ao nó seboso da gravata azul turquesa, como que, a certificar-se da constância do seu desarranjo.
Em nada o interessava o discurso incoerente com que era brindado. Mais ainda, porque a sua atenção era, a cada instante, atraída pelos contornos insinuantes da silhueta feminina.

Sentiu um inesperado calor percorrer-lhe o corpo quando os seus olhos se cruzaram. Era incrivelmente bonita.

Consciente de era necessário recuperar a compostura, aclarou a voz.

- Desculpe… dá-me licença, só um instante…?! – atalhou.

Ergueu-se, lentamente, da cadeira perdido, uma vez mais, em contemplações...

A água morna escorria pelo lavatório ao mesmo tempo que examinava o homem reflectido no espelho... Há quanto tempo não se sentia assim? Completamente envolto numa teia de ansiedade, excitação e uma subtil mas letal sedução...
Sorriu. Involuntariamente, suspirou... e, mesmo sem se voltar, pressentiu o vulto prostrado atrás de si...

Rodou sobre si mesmo.

Duas passadas determinadas anularam a distância... entre dois seres que no inesperado da situação se entregaram a um, espontâneo e mágico, momento.

Mesmo que quisesse, não conseguiria disfarçar o enigmático sorriso desenhado no seu rosto quando se acercou da mesa.

Aguardava-o, ainda, meia hora de uma conversa entediante e desprovida de qualquer nexo. No entanto, o enfado já o não fustigava… O inconfundível perfume feminino, absorvido pela sua pele, levou a imaginação a soltar-se, em mares tantas vezes navegados. Inconscientemente, deslizou os dedos pelos lábios ao mesmo tempo que se recordou do pequeno bilhete que ela lhe deixara. Discretamente, abriu-o... juntou as letras enquanto o palpitar do seu coração se acentuou...

Espero-te!
Quarto 212
Hotel Green Park


Envolvido pelo clima apaixonante, do mistério e da sedução, dominou-o um estado de espírito caracterizado, mais do que por prazeres carnais, por sentimentos renovados a cada segundo que passava.

Relembou a imagem gravada, a partir do último olhar que lhe lançou, ao vê-la entrar no carro, estacionado a pouco mais de dois metros da porta do restaurante...
Olhou, disfarçadamente, o relógio. Tinham passado 10 minutos e o penoso almoço chegara ao fim.

Pouco depois, não muito longe daquele restaurante, a porta impessoal, de um quarto onde milhares terão dormido, é aberta... lá dentro a luxúria do corpo feminino aguarda-o... saudosa... carente... ansiosa...

Uma voz, quente e doce, ecoa no silencio do quarto:

- Feliz aniversário!

Ri-se, deleitado com a surpresa:

- Conta-me lá... o que fizeste hoje ao meu filho?

Deixei-o com a minha mãe... Afinal, não é todos os dias que comemoramos 10 anos... de casamento!

Cessaram as palavras... o tempo era outro... em que falar era desnecessário!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

51. Gaivota Branca... de amor e verdade!



Num raro rasgo de lucidez, Atílio, contempla o doce deslizar do Tejo. Recorda longínquos tempos em que, realmente, estivera vivo. Sorri. O compasso de outrora devolve-lhe a nocção exacta de estar suspenso entre dois mundos, sem que fizesse parte de nenhum, e ainda assim, era feliz. Sabia-o!

É da janela do quarto, onde o quiseram encarcerar aqueles que duvidam da imortalidade do espírito, que o assaltam as lembranças. Os risos eram então risos, os abraços... abraços e o amor tão real como a fome que começava a fazer com que o seu estômago se contraísse.

Dali a instantes soariam as 13 horas, entoadas por algum velho sino de igrejas das redondezas. As mesmas que, tantas vezes, visitara com Joana, aquela que o aguardava para lá das nuvens que se avistavam ao longe, na linha do horizonte... e que, de uma outra dimensão onde pouco interessava a carcaça que servia de abrigo à alma, vigiava cada um dos seus curtos passos.

Há dois anos que partira. Pelo menos, assim lhe repetiam sucessivamente! Como se ele não se recordasse da visão do caixão a descer ás entranhas obscuras da terra! O que eles não sabiam, era que só a matéria jazia algures, num cemitério. A alma, essa, elevara-se e visitava-o, de tempos a tempos, sob o disfarce de um corpo frágil de gaivota, imaculadamente branca.

Nesses dias quedava-se ali, de braços no parapeito a falar-lhe baixinho. Afagava-lhe as penas sedosas e confessava-lhe que, afinal, a espera se revelava longa... Não estava cansado de viver mas sim de a não ter do seu lado... ao adormecer, ao despertar, a cada uma das longas horas que ia contabilizando!

Mais forte que tudo, que a própria vida ou a tenebrosa morte, o sentimento imperava! Tinha sido assim aos vinte anos, quando partilharam o primeiro olhar, e era assim aos setenta, quando ansiavam que as suas sinas se reunissem novamente... e os fundisse numa só alma de amor e verdade!

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

47. Emoções!

O sol vai invadindo os recantos, da superfície terrestre, enquanto o comboio desliza sobre os carris.

O jornal ficou por comprar, as notícias por ler… O início da manhã foi caracterizado por uma invulgar azáfama. Dali a horas, 9 ou talvez 10, os seus progenitores entrarão pela porta. Invadirão, docemente, o pequeno espaço do T1 e sentirá, novamente, aquela alegria pueril envolver-lhe cada poro, cada célula, cada ínfima parte do meu corpo.

Este fim de semana descuidará a habitual rotina, prescindirá daqueles momentos que tanto preza, mas será recompensada, pelo carinho e amor recebido a cada instante.
Esquecida será a instabilidade do país, a hipocrisia da campanha eleitoral, o trabalho precário. Não haverão livros a ler, textos a escrever, notícias a devorar… caminhadas a realizar ou cafés solitários a tomar, enquanto se contempla a beleza mágica do Tejo, no fim da tarde.

Haverão, sim, instantes em que prevalecerá o amor, os risos, o aconchego de ter as pessoas que mais ama junto a si! Até a memória esbatida de um ou outro momento, em que o seu coração bate descompassado, será suplantada pela felicidade de poder encarnar esse seu lado, sensível e puro, de filha "babada", aplicada dona de casa, exímia cozinheira…

Há noite, mais que o eco da sua voz, serão os timbres suaves do pai e da mãe que se ouvirão e ao adormecer saberá que é feliz…

Ana em nenhum destes momentos sentirá a ausência de Filipe, para quem os dias há muito deixaram de despontar.

Ao contrário do que se possa pensar, não se refere a memória nostálgica de uma triste história.

Durante anos contaram com o apoio, incondicionável, um do outro. Viveram, intensamente, o amor que os consumia, numa plenitude tal que quando a morte os separou nenhum adeus havia a sussurrar. O silêncio sepulcral foi, tão somente, quebrado pelo murmúrio, abafado e grave, doce e profundo, sensível e mágico das suas vozes: Até breve…

Tão breve como o é… a vida!

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

40. Breve história de amor e de mar.

Os últimos dias de Inverno trazem consigo o calor de meia dúzia de raios solares que convidam a deambulações... passeios, caminhadas...
Ivone cede perante o irresistível apelo do mar e retorna à praia... a mesma que durante anos visitara, devotadamente, sempre que o trabalho o permitira
Sentada na areia húmida o pensamento perde-se para lá da rebentação das ondas... Inspira o ar fresco da manhã e, enquanto o vento lhe acaricia a nuca, fecha os olhos. A mente flutua. Recua no tempo. Por momentos, mais envolvida numa doce demência dos sentidos do que na própria recordação, volta a sentir a cálida mão tocar a sua... o fôlego, quente e ritmado, a acercar-se do rosto e a doçura dos lábios de encontro à sua pele.
Por breves instantes, a sua alma abandona o corpo e junta-se à dele partilhando os carinhos de que há muito tem saudades.
A manhã avança neste enredo de sentimentos telepaticamente revelados... de um mundo para o outro. No entanto, o olhar, aparentemente prostrado sobre o azul do mar, nada vê além dos contornos ternos daquele rosto masculino.
A intensidade do que a envolve é indescritível! Sustém a respiração... como se temesse que o leve movimento do seu peito fosse quebrar o encanto do momento.... e levar para longínquas paragens aquele ser tão amado.
O poder dos sentimentos aliado ao da imaginação assume proporções nunca previstas, jamais determinadas! A realidade, essa, está à espreita... preparada para a subtrair do mundo dos fantasmas, numa qualquer hora incerta em que a sua sanidade mental seja colocada em risco.
O sorriso que se desenha nos seus lábios vai-se desvanecendo quando a mente recupera aquela última tarde...
Quantos anos teria?!
Vinte e oito ou vinte e nove... Não mais que isso!
A escassos centímetros, lá estava ele! O sorriso franco e palavras espontâneas.
- Sabes... gosto de ti! – e, abrindo tanto os braços quanto lhe era possível, elevara o tom de voz – Assim!
Um amor puro e distinto abraçava-os com uma força sobrenatural. Mágica... criando um elo que os anos não haveriam de quebrar. A vida ou a morte, a alegria ou a tristeza... ou o que fosse, nunca seriam elementos suficientemente fortes para os afastar! Nem mesmo quando o mar, espectador atento de inúmeros momentos de partilha, modificasse o rumo das suas sinas e sugasse a Rodrigo o último sopro de vida.
Infelizmente, bastara uma fracção de segundos maquiavélicos... um desviar de olhos... um esvair de pensamentos momentâneo... para que fosse pelas águas traiçoeiras arrancado do mundo dos vivos...
Os momentos de outrora transformaram-se em fragmentos da memória mas o amor manteve-se omnipresente.
Ivone mesmo agora, ali sentada, continua a ouvir no silêncio da sua dor... o eco da confissão:

- Sabes...gosto de ti! Mãe...! Assim... MUITO!

quinta-feira, janeiro 27, 2005

37. Ilusões reais ou reais ilusões?!




Porque se hão-de desprender os sonhos da realidade, se a vida que se lhe afigura é um enredo de ilusões distintas e mágicas?! Nelas acredita com a certeza convicta de que são materializadas no quotidiano dos seus dias e, ainda que o contar das últimas horas tenha sido o mais vil dos tormentos, sabe que nada daquilo existiu a não ser para si...

A confusão dos seus pensamentos assalta-o, na esquina escura da avenida, mas nada o impede de continuar a divagar que a vida é um agridoce sonho, não um simples logro do destino... ou o pesadelo desmedido de contas a pagar, discussões a ter ou de stress a envolvê-lo. A vida... a sua vida é, afinal, o produto fiel da sua capacidade de crer ou querer! Deste modo, acredita que o despontar do novo dia lhe trará a clareza de pensamento e o discernimento, preciso e objectivo, para acreditar que será feliz mais do que possa ser naquele instante.

Ana ou pelo menos o seu espírito estará viva e feliz algures num mundo que não será necessariamente o seu... As lágrimas que lhe brotaram segundos antes, quando terá entrado na sala vazia do hospital e murmurou num triste lamento a sua despedida... não foram mais do que, a sua imaginação a erguer-se do mais profundo da sua alma, a recordação de uma história lida algures num outro existir. O velório que vislumbrou seria, tão somente, uma ténue fracção de um momento de promessas e confissões imediatamente antes do reencontro...

Sim! Dali a momentos voltaria a ouvir os seus risos, a sentir o toque cálido da sua pele e a sentir a doçura da sua respiração! Mesmo que fosse necessário saltar de mundo em mundo até finalmente reencontrar o aconchego dos seus braços e a profundidade do seu sentir!

A caminhada terminara. A porta de casa fora aberta e cerrada calmamente. O bater do seu coração acelerava-se. Como sempre que a tinha diante de si...

- olá, amor!

Ficara por desvendar o desfecho do enredo de uma história vivida num outro mundo... mas tão real como o beijo que agora Duarte depositava nos lábios quentes de Ana! Pelo menos assim o opinaria ele! O mais comum e infeliz dos mortais talvez apenas entrevisse o vazio das paredes que o aguardava por detrás da porta maciça...


Nada é ilusão... ou sonho... ou impossível se estivermos convictos da nossa capacidade de acreditar... mais que nas coisas ou nos outros seres... mas em nós próprios e na dimensão do nosso AMOR!

(o que apelidamos de fruto da demência pode ser apenas o reflexo exacto de uma realidade que não vemos porque nela não acreditamos...)