quinta-feira, dezembro 01, 2005

105. Os laços e as sombras ( V )

- Porcaria de trânsito! - o desabafo fundiu-se com a música vibrante que o rádio emitia e que em nada atenuava a ira que o consumia.

Os carros avançavam lentamente e os minutos não paravam de se acumular, irritando-o cada vez mais.

- Maldita seja! – explodiu.

Nas últimas vinte e quatro horas, o seu semblante adquirira um novo rasgo de arrogância, agressivo quase tenaz, que fazia com que os outros condutores não se atrevessem a mais que um fortuito olhar.

A mulher do carro ao lado observou-o. Tinha um perfil marcante: o nariz aquilino, o queixo bem desenhado e os olhos de uma tonalidade clara, talvez verdes, contrastantes com o cabelo negro. O resultado final revelava-se invulgarmente bonito. Só os lábios, contorcidos numa linha tão azeda como o fel, faziam com que qualquer pensamento mais romântico esmorecesse à semelhança de uma flor sem água ou oxigénio. A expressão daquele homem arrepiou-a. Parecia uma bomba-relógio.

O trânsito avançou, compassado, durante alguns quilómetros mas com o aproximar das portagens não tardou a que Afonso suspirasse com enfado. Detestava conduzir naquelas condições. Era impossível ficar indiferente àquele caos.

As másculas mãos crisparam-se, mais ainda, quando um Volvo se atravessou à sua frente e o obrigou a travar bruscamente.

- Otário, vê por onde andas. – gritara-lhe quase sem se dar por isso.

Com os nervos em franja olhou o relógio. Pouco passava das cinco horas e não chegaria se não, na melhor das hipóteses, dali a uma hora.

Regressara mais cedo que o previsto influenciado pelo telefonema, pouco amistoso, que recebera na véspera.
As palavras ainda ecoavam no interior do seu cérebro:

- És um traste. Como é que pude pensar que eras diferente…
- Deixa-me explicar-te. – pedira interrompendo-a.
- Explicar o quê?!?! Não há nada que justifique o que fizeste.
- Há!! Tu sabes disso, portanto não te armes em menina mimada e põe a mão na consciência.
- Como tu fazes...?! Não sejas hipócrita. Eu estava viva, não estava?!
- Estavas, mas todos pensámos...
- ... que nunca recuperaria!? Eu sei! O facto é que estou aqui e não quero mais chantagens psicológicas.
- Estás a ser ridícula...
- Isso é o que tu és quando me mandas flores, escreves bilhetinhos lamechas e pensas que me vais engrupir nos teus joguinhos sórdidos. Esquece. Esquece que eu existo... de uma vez por todas!

O telefone fora bruscamente desligado e Afonso ficara estático, assombrado com a descoberta de que, também ela, não era tão doce como imaginara.
O conflito que se gerara no seu íntimo levou a que cancelasse a palestra na universidade e regressasse a Portugal três dias antes do previsto.
Ali, impotente, cercado por uma imensidão de carros, arrependeu-se. Poderia ter adiado o confronto, ganhar tempo e permitir-lhe arrefecer as ideias. Mas não! Tivera que atravessar a fronteira debaixo de chuva cerrada, pisar no acelerador e esperar que quando chegasse ela estivesse no café do sr. João. Não se sentia com predisposição para lhe bater à porta de casa. Preferia conversar com ela num local minimamente neutro.

A ansiedade dominava-o quase tanto como o exasperava o trânsito, o descontrolo emocional que ela demonstrara e a sensação absurda de culpa.

A cancela foi levantada. Lisboa já se avistava no horizonte.

(Continua...)

Capítulos anteriores:
I II III IV V

18 comentários:

Luís disse...

Ó valha-me deus, então agora até o Afonso se andou a portar menos bem! Confesso que não entendo estes homens que a Maria desencanta para protagonistas dos seus contos. Então se a Catarina esteve internada e à beira da morte não era dever do AMOR da sua vida estar sempre presente e ao lado da cama, a acompanhar todos os pormenores de modo a saber ao certo a evolução da situação clínica? Como pode ele ter presumido um desfecho errado? Como pode ele tê-la abandonado numa fase tão dramática? Eu proponho à Maria que a partir de agora me deixe ser eu a escolher um homem para a Catarina! Porque, ao contrário do que as mulheres dizem, nem todos são iguais…

Agora vamos ficar à espera da continuação… será que a Catarina perdoa ao Afonso, ou será que a centelha do AMOR se extinguiu de novo? Poderá o Vasco regressar, depois dos anos que precisou para perceber que o mundo é muito mais que o metro quadrado à sua volta? Um novo homem entrará na vida dela? Decidirá ela desistir do AMOR e ingressar num convento de freiras? Temos de esperar…

Seja como for, o EE já está por mim destinado à procura da felicidade para a minha querida amiga Catarina, e que, já agora, pelo meio também faça muito feliz a Maria.

Beijinho e parabens

Maria disse...

:)
Luís, é melhor aguardarmos pelo desenrolar do enredo. Nem tudo o que luz é ouro. ;) E mais não digo!!
As respostas vão surgir com o tempo.
Quanto à Maria... está de boa saúde, de sorriso nos lábios e fascinada por mais esta história!

Beijinhos,
MAria

Daniel Aladiah disse...

Querida Maria Nunes
Acompanhando esta interessante história...
Um beijo
Daniel

AS disse...

Isto promete Maria!... Estou a gostar da história...

Um beijo e bom fim de semana

lena disse...

Maria fiquei presa à história, que vai acontecer à Cataria e ao Afonso?
vou ficar à espera de novidades, a históra promete sim.

beijinhos meus


lena

cbRicardo disse...

Ola!
A tua escrita tem o condão da expectativa, da vontade de virar a folha! Fico à espera!
Bjinho Maria

Achador disse...

Muito bom. Tempo suspenso num desfiar de azuis com bolas de carvão sopradas por folhas dentro de um saco de plástico enfiado numa carteira amarela que tem escrito nas dobras o nome de um cão que morreu a ler poesia.

João.

batista filho disse...

... que venha o seguimento!

Tino disse...

Miguinha fofa,eu quero isto em papel!Já se trata aqui de uma história a sério,lê-la no monitor já começa a ser complicado!!! :) Se eu pudesse bem que te oferecia mais 12 horitas por dia para teres tempo para tudo...ehehehe um beijinho fofinho para ti! :)

Maria disse...

Daniel,
agradeço a atenção dedicada a esta história que não passa de um teste a mim própria.
Até agora limitava-me a escrever pequenos textos... Resolvi arriscar e elaborar um enredo mais longo e espero que mais rico.

Um beijinho
Maria

Maria disse...

Frog,
espero que a história continue a prometer.
Este fim-de-semana mais um novo capítulo vai surgir e outros se seguirão.

Um beijinho e bom fim-de-semana.

Maria disse...

Lena,
antes de se saber o que vai acontecer à Catarina e ao Afonso "muita água vai correr debaixo da ponte".
:) Já escrevi mais três capítulos e do desfecho nem sombra. Porquê?! Porque a vida é "tramada" e, por vezes, dá voltas e mais voltas.

:) Para já até espero que a história continue a prometer pois estou a gostar de a escrever.

Um beijinho e obrigada

Maria disse...

Cbricardo,
lamentavelmente esta semana o tempo pareceu voar e não consegui editar o texto seguinte.

Espero que gostes do que se segue e que amanhã já estará por aqui.

Obrigada pelo elogio.

Um beijinho

Maria disse...

João,
obrigada.
Espero que continues a gostar.

Um beijinho

Maria disse...

batista filho,
não fosse a hora tão tardia e seria "já a seguir" mas terá que ficar para amanhã.

Beijinho

Maria disse...

Tino,
bem que precisava de mais 12 horitas.
Escusas de me ralhar mas hoje já passava das 21 horas quando sai do instituto.
A próxima semanita tem que ser mais branda para recuperar o tempito.
Está descansado que já tenho a história em papel para o menino. Aliás, não a história completa mas os primeiros cinco textos. :)

Beijito grande

lena disse...

passei para te deixar um olá, sei que é complicado gerir o tempo, ou nem sei se é ele que nos comanda a nós

beijinhos menina das palavras

lena

Maria disse...

Lena,
hoje, finalmente, creio ter conseguido vencer a luta contra o tempo... Será?! :) Espero que sim... pois já tenho vários capítulos escritos e está na hora de actualizar o meu cantito.

Obrigada pelo olá e pelo beijinho.
Beijinhos também para ti.

Maria