120. Tarde ou Cedo

A lua desce para lá da imensidão
E o sol esmoreceu no fim de nenhures…
Naquele último segundo de paixão!
É tarde… ou cedo de mais!!
Entras na roda viva e tão depressa sais…
Que no corrupio da pressa
As palavras ficaram suspensas
Porque morreram antes de nascerem
E as horas são segundos
Que não quebram o que pensas
Ou teimas em pensar…!!
Não… não me encontras ao virar da esquina,
Na dobra fina da esquadria,
Porque me escondo na sombra
E se por um acaso me sentes a respiração
Protege-me a tua falível sensação…
De ser vento ou aragem,
Quiçá ilusão ou miragem!
Dia após dia, noite após noite,
Eu sei, estou aqui…
Tão perto e tão longe,
Acessível ao estender da mão que retrais…
Eu… que perdida no meio do sonho e da realidade,
Quero mais, muito mais do que podes dar,
Do que posso oferecer!
Desço a calçada, atravesso a rua,
Levo a alma nua,
Um meio sorriso a brincar nos lábios…
Um suspiro a soltar-se do peito!
Esta tarde, ao romper das trevas,
Voltei a esgueirar-me entre os fantasmas
E a divertir-me neste jogo…
Em que perdes tu e perco eu,
Consciente de que vêm e vão os anos,
Arde, intenso e vivaz, o fogo…
Mas… já tanto me faz…
Despedi-me há tanto, tanto que esqueci…
O sabor, o aroma…
Agora quero ir,
Anseio mais que fugir, partir…
Descobrir o lado de cá ou de lá,
Na certeza que é efémero o momento
Que aqui vivo…
Porque outros caminhos nos juntarão
Quando não nos dominar o peso da recordação!
A lua, o sol… para lá do fim, o princípio!
Maria Silva Nunes

