terça-feira, agosto 22, 2006

118. A voz

A multidão que circulava na rua oprimia-a e fazia com que o pânico surgisse de mansinho mas tão voraz como qualquer furacão.
Há horas que caminhava sem rumo pelas velhas calçadas da cidade, sem conseguir que o cansaço a invadisse e a fizesse esquecer da imagem aterradora que presenciara.

Dividida entre o pavor e o dever perante a lei, voltou a fixar as águas calmas do Tejo e invejou-lhe a sorte. Naquele instante dava tudo para se transformar em água, vento, pluma, num nada infinito mas belo… mágico, alegre e inexplicavelmente vivo.

De repente, a emoção ou talvez a ausência dela fizeram-na estagnar entre a ilusão e o real, muito para lá do que é ditado pela razão, enquanto o ribombar de trovões, se ouviu ao longe.
Deslizou por entre a avalanche humana e sentiu-lhe a frieza húmida, compacta… intensa, com que muito subtilmente começava a familiarizar-se.
O seu peito sangrava. Os seus olhos turvavam-se. Isolada na sua solidão de caminheiro andante… errante… ninguém a fitava, a tocava… nem ela!
Por mais que tentasse evitar, nada impediu que o seu espírito recuperasse, em pequenos flashes, o momento e sentisse o contorno do que tinha sido… desvanecer-se como poeira levada pelo vento.
Pudesse ela apagar aquele dia do registo da sua vida e seria como descobrir o paraíso.

- Vai embora… o teu lugar já não é aqui! – Clara estremeceu ao ouvir aquela voz.
- Não… - exclamou exausta – O meu lugar será sempre aqui!!
- Porque tu queres?! Encara a realidade, tu es…
Tapou os ouvidos repetindo desesperada:
- Não, não, não… Tu não sabes nada de nada… Eu sei.
- Não sabes ou melhor… não queres saber. Ficar vai ser pior para ti! – O tom não tinha uma única nota de ameaça, apenas de pena e desconsolo.
Cansada daquele diálogo sem sentido procurou focar um ponto indefinido algures na outra margem sem qualquer sucesso. Quis chorar mas a única coisa que conseguiu foi emitir um som indescritível.
- Deixa-me em paz! Não preciso de ti! És tu quem tem que ir embora…
- Para que tu possas fingir que naquele quarto ninguém morreu da forma mais violenta que alguma vez imaginaste?!
- Cala-te!!! Eu não tenho nada a ver com isso… - gritou.
- Não?! Tens a certeza?! Não há nada que possas fazer para alterar o que aconteceu!!
- Não aconteceu nada!!
- Não?! Olha para as pessoas! Alguém olha para ti?! Gritaste-me… alguém se voltou para olhar?! Enquanto caminhavas pelo Rossio, quantas pessoas esbarraram em ti sem sentir mais do que um arrepio?!
- Isso não significa nada… - o medo começou a dominá-la!
- Tens a certeza?! – Perguntou-lhe baixinho.
- Eu não…
- …morri?! Morreste… pelos motivos errados mas foi isso que aconteceu! Não tiveste culpa…
- …culpa?! – Repetiu-se. – Alguém morreu, há um culpado mas nenhumas das duas pessoas sou eu.
- Clara, não faças isso.
- Cala-te!! Tenho que ir à polícia. – Ergueu-se do banco de rompante.
- De nada te adianta, não te poderão ver nem ouvir! Por muito que não queiras admitir, o Bruno assassinou-te.
- Não!! Ele não faria isso…
- Por ciúme, por cobardia, por saber que tu o irias denunciar na empresa, que seria preso pelo desfalque e o mais provável seria finalmente voltares para quem sempre amaste… Achas que não o faria?! Claro que sim, tanto que foi o que fez!
- Eu não posso ter morrido… Não...
Naquele momento Clara sentiu-se fraca como se toda a sua força tivesse desaparecido.
- Eu não posso ter morrido… - golpeou com os punhos fechados o granito gelado do banco sem sentir qualquer dor.
As imagens continuavam a aparecer-lhe em catadupa. Os salpicos de sangue na parede, o corpo, ainda quente, tombado sobre a cama, contorcido e esfaqueado, e o olhar já sem vida esbugalhado e suplicante. Quase podia sentir aquele cheiro, abafado e decadente, a morte. A roupa, o quarto, a pequena estatueta, as molduras em cima da cómoda… tudo lhe era tão familiar. Bruno, Carlos, a empresa, a auditoria, as discussões, as ameaças… Sim!! Por muito que fosse cruel enfrentar a realidade, no momento em que começava a libertar-se, a tentar ser feliz, Bruno tinha-se transformado no seu carrasco e tinha-lhe arrancado o que de mais valioso tinha: a vida!
- Morri… Eu morri…?! - Murmurou.
- Mas um dia terás oportunidade de voltar… só o amor é para sempre, a morte não!
- Achas…?! O amor?!
- O verdadeiro…!! Acredita em mim!! O amor... é a única coisa que é mais forte que tudo, seja lá o que for este "tudo"!

Por fim, Clara, pode sentir o aconchego da noite a chegar... aquele que só se sente quando se acredita que está um novo dia para chegar!

- Adeus...
- Até já!

quinta-feira, julho 27, 2006

117. Considerações...

O momento é dedicado a algo tão básico como devaneios trazidos pelo quotidiano de um país que muitos apelidam de barco à deriva. Certo ou não, a verdade é que as remunerações auferidas para uma enorme percentagem da população estão além do desejado ou do suficiente para garantir uma qualidade de vida desejável.

Hoje, debruço-me sobre a velha questão: O que é qualidade de vida?! Será ter uma casa nova, um bom carro, vestir os trapinhos da moda, correr todo o santo dia, sem ter prazer com a actividade profissional desenvolvida, ou tempo para respirar?!
Mais grave sem tempo para estar com os que amamos e descansar o suficiente para não nos assemelharmos a cadáveres ambulantes?!

É verdade que sou apelidada de workaholic por meia-dúzia de pessoas, que saio tarde do trabalho e só depois de sentir que cumpri a missão, mas há contornos na minha vida pessoal que não gosto de descurar, como é o caso da família e dos amigos.

Recentemente fiz uma breve tentativa de conjugar dois empregos, um em regime de full-time e outro part-time, como obviamente só poderia ser. Inicialmente, afigurou-se simples, pelo menos até perceber que não tinha como contornar a questão de trabalhar todos os sábados, de tarde.
Vi-me, então a braços com algumas questões interessantes, já que passaria a dispor de um orçamento muito mais atractivo mas teria que prescindir das viagens a Castelo Branco e dos fins-de-semana com a família, de jantar convenientemente, de ler, escrever ou qualquer outra actividade que me desse prazer, para além de não conseguir manter a habitual produtividade atendendo a que estava excluída qualquer possibilidade de ficar além do horário para concluir este ou aquele processo.
O nível de stress a que me vi sujeita impedia-me de descontrair e uma hora antes de sair do primeiro emprego já a cabeça parecia o palco de uma furiosa tempestade, o corpo se contorcia em cãibras e o sorriso se tornava menos frequente. Em resumo, prefiro a ginástica mensal de gerir um orçamento limitado a perder o que considero elementos importantes da verdadeira qualidade de vida.

Tudo isto é discutível, baseado apenas na minha vivência pessoal, na visão que tenho da vida, e no facto de que um segundo emprego não se destinava a garantir bens de primeira necessidade, mas lanço um desafio... O que é para vocês qualidade de vida?!

segunda-feira, julho 17, 2006

116. Bicho raro!!

Fotografia: Maria Nunes

Há por aí
Quem diga que o amor
É bicho raro…

Há por aí
Quem lhe chame paixão,
Desejo ou alento…
Mas que sabem os loucos
Que não veêm mais que um corpo
Esbelto, suado, sofrêgo,
Uma máquina de orgasmos
Que lhes tira o folêgo?!

Há por aí
Quem sobreviva de espasmos,
Vibrações e ilusões,
Sem conhecer
Mais do que o bicho “mau”…
O bicho “mau”
Que não é sentimento
Mas, afinal, momento,
Fruto de instinto animal!

Há por aí
Quem diga que o amor
É bicho raro…

Há por aí…
Quem não perceba
Como é caro,
Como é sarro
Para se coçar,
Chamar nomes feios
A simples devaneios!!

Há por aí
Quem diga que o amor
É bicho raro…

E talvez o seja…
Bicho… Bicho raro!!

quinta-feira, julho 13, 2006

115. Sei... não sei... Sonhei...


O canto da garça
É o eco da tua voz...
Quando ao fim da tarde
Embacias o ar com a tua graça
E me deixas mudo.
E se hoje recordo,
E se hoje não posso,
Houve um dia em que não foi assim,
Mas tu deixaste-me partir
Ou se calhar quiseste fugir.

Refrão:
Já não sei,
Talvez nem queira saber
O que fui quando me tocaste...
Porque hoje sei...

Parece terem passado séculos
E foi ontem que o teu olhar,
O teu abraço senti envolver-me...
E se te deixei ir,
Sem deixar de sorrir,
Foi porque estava cego...
Tão cego!! Tão cego...
Talvez cego de amor e dúvida.

Refrão:
Já não sei,
Talvez nem queira saber
O que fui quando me tocaste...
Porque hoje sei...

Não há luar mais belo,
Nem praia mais linda,
Do que aqueles
Onde mora o meu sonho
Chamado… esperança.
Talvez os nossos caminhos,
As nossas vidas se cruzem…

Refrão:
Já não sei,
Talvez nem queira saber
O que fui quando me tocaste...
Porque hoje sei…

Sonhei… sei… não sei… Sonhei…

O desafio de escrever letras de músicas, lançado por um amigo deu alguns resultados, um deles aqui partilhado!

segunda-feira, maio 22, 2006

114. E pronto!!




A casa é amarela, se calhar até é branca encardida pelo tempo mas pronto… o céu está mais azul do que nunca e o sol mais forte que em qualquer outro dia. O que mais se poderia dizer do fim de tarde em que Marta se aventurou pela avenida, sem horário a cumprir nem destino definido?!

Marta tinha pouco mais de vinte anos, o cabelo longo, ondulado e castanho, os olhos amendoados e a tez escurecida pelas muitas horas passadas na praia da Baforeira, porque sim e porque é sempre “bem”. Vivia numa dos degradantes bairros da Reboleira mas quem a via, baseando-se na aparência com que se exibia diariamente, certamente que a imaginaria num dos condomínios privados da linha de Cascais ou até do centro de Lisboa. Jamais acreditaria que dividia o seu quarto com duas primas e a “casa” com os pais, os tios, os primos e os avós. O trabalho como secretária valia-lhe uma remuneração que sustentaria uma família mas isso não lhe chegava. Talvez por isso não era raro vê-la submergir nas ruas do Bairro Alto, meter conversa com os estrangeiros a quem calorosamente surripiava um par de notas a troco de calor humano. Talvez o fizesse por prazer ou talvez fosse uma forma de compensar o amor que nunca encontrara, a paixão que tardava. Marta era assim e pronto!! Explicar para quê?! Gostava do sexo descomprometido, do dinheiro que recebia, de frequentar os hotéis mais caros de Lisboa e os bares mais “In”. Se a família desconfiava do que se passava nas noites em que se ausentava também ninguém comentava e como poderia se a promiscuidade começava em casa

Desde cedo percebera que não tinha um lar dito “normal”.

Tinha 10 anos quando pela primeira vez soube o que era estar menstruada. Assustada recorreu à mãe que enigmaticamente lhe explicara que passara a ser uma mulher e que havia coisas que deveria aprender sobre homens e mulheres.
Uma semana depois de acordar com o sangue a escorrer-lhe pelas pernas estranhou quando o pai a chamou à sala. As crianças nunca entravam lá quando os adultos se reuniam depois do jantar. Iam dormir, não faziam perguntas e pronto… quanto muito ouviam os gemidos, as respirações alteradas, riam-se no silêncio do quarto e perguntavam umas às outras o que estariam a fazer os “crescidos”.

Nesse dia o tio sentou-a no colo e cada um dos presentes dedicou-lhe uma atenção especial. Sem compreender porquê explicaram-lhe o que significavam as alterações que o seu corpo tinha sofrido e que deveria preparar-se para descobrir um prazer diferente daquele que sentia quando brincava com as bonecas, ouvia música ou lia um livro.

Depois disso tudo tinha acontecido de forma surreal… Avaliaram o seu corpo como um pedaço de carne pendurado no talho, tocaram-lhe o peito pequeno e roliço e esfregaram os dedos grossos no seu sexo até ficar inchado. Só pareceram satisfeitos quando a ouviram soltar um pequeno gemido. Ao contrário do que pensaram não era de prazer mas de dor… uma dor que ia além do físico que atingiu o clímax quando o tio a penetrou lentamente, diante dos risos e olhares irónicos de cada um deles. Sentira vergonha, dela, do seu corpo e de pertencer àquela família.

Com o tempo habituara-se àqueles rituais e aprendera a ter e dar prazer mas perdera completamente a esperança de descobrir um amor como o dos livros e filmes românticos que lhe enchiam a mente de sonhos.

Cresceu e pronto!

Viciou-se em prazeres carnais, apurou a imagem e passou a viver uma vida dupla e excitante onde os valores morais não existiam.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

113. As cores da memória

A tela em branco entorpece o sono.
Solta-se o corpo e a mente.
O pincel desliza sobre o linho
Com destreza e carinho.
Suspiro consciente...
Do irresistível fascínio que me submete,
A esta sede de vencer a realidade
E retratar o sonho.

Amarelo,
Azul,
Vermelho...

Nasce o velho,
O corpo dobrado, contorcido sem dor,
Num movimento estático
De quem sabe ter vida e cor!

Verde,
Laranja,
Violeta...
Insinua-se o perfume,
Flui pelo ar...
Até inebriar cada recanto da redoma
E me hipnotizar como um mago.
Rolo... enrolo a espátula e dou-lhe textura...

Preto...
Negro como carvão,
O chão frio de xisto.

Estendo a mão,
Cerro os olhos...
Imagino que não existo
E que a única realidade é aquela...
Um quadro multicolor cheio de vida
quase sinto o calor
Das chamas que do chão brotam

Se a morte o tivesse poupado
E não me tivesse roubado esse ser tão amado.

domingo, janeiro 29, 2006

112. Vibrações


Descem os dedos esguios pelo rosto,
Chega a noite mansa e terna
E no ar a música flui como magia!
Poderá ser o último dia,
Ou o primeiro...
Quem saberá?!
Vibro ao ritmo dos acordes
Como se o corpo não fosse comandado pela mente
E dos olhos, janela aberta, espreita a emoção!

Rio. Rodopio. Mãos nas mãos.
Cálida como carícia, a respiração.
E nela me perco, sem me querer encontrar.
Esboço um tímido sorriso,
Ao mesmo tempo que quero ser,
Ao mesmo tempo que sou,
Voragem numa tarde de Outono
Vivaz e ansiosa...

Feliz aprendiz de feiticeira que não sou,
Abraço a vida com a fúria dos lutadores
E a calma pacata dos que têm o dom de saber aguardar...
E sorrio... desafio os segundos ou os minutos a passar,
Porque me aproximo,
E aprendi a acreditar... confiar,
Na onda que me devolve à praia,
Na voz secreta e misteriosa que me fala de ti!

terça-feira, janeiro 24, 2006

111. Saudade menina


A saudade é já menina
Quando os teus olhos brilham
E as palavras se quedam sufocadas
Nos lábios que insistem em sorrir.

Dentro de mim a doçura
Desprende-se da rebeldia do coração
E mesmo sem querer...
o carinho...
invade cada recanto da nossa essência e transborda...
num abraço que antecipa não a despedida mas o até já...
E se reparo que as mãos te tremem,
E se reparo que os traços do teu rosto
Procuram mascarar a emoção,
É porque os acordes que o silêncio nos devolve
são reflexo da sintonia do momento...

Inegável!

Inegável a empatia,
A partilha mágica do sorriso
ou o saber que por instantes
A única vibração palpável
Foi aquela que brotou,
Alheia a olhares indiscretos e incrédulos,
Sincera, suave e intensa,
Tão muda quanto gritante,
E que ecoou muito depois de teres ido...
Muito depois de ter acontecido...
Aquela que só é possível quando se pressente
a saudade, estando presente!

domingo, janeiro 15, 2006

110. Exposição de Pintura


A noite ou o dia descem sobre a cidade inalando a essência do que nos move enquanto humanos errantes e racionais.
Fascinam-nos os tons azuis, verdes, vermelhos... do que nos cerca e vibramos com os acordes desta ou daquela música.
É das cores primárias à total saturação da cor, que damos meia-dúzia de passos que associados à denúncia dos sentimentos, emoções e da própria visão que cada um tem da vida, trazem à luz do sol ou de qualquer foco as pinceladas mais ou menos definidas do que vai na alma.
Retrata-se a vida, o conflito, a saudade, a nostalgia, a alegria, a fusão, a euforia... com definição ou não, mas com a mesma intensa imagem do que nos enche o coração e transborda para a tela.
De repente insurge-se a imagem do mar, a imensidão azul que nos seduz e provoca. Quantas vezes não nos envolve um tumulto de emoções e é nele que procuramos refúgio seja Verão ou Inverno?!
Nem só quando o Sol nos queima a pele se percorre a praia e se aproveita o fim de tarde para escapar à azáfama da cidade. Quem não gostará de um momento assim?! É partindo desta ideia que o Angel’s Bar, mesmo fora da estação balenear, nos habituou periodicamente a eventos que certamente a muitos delicia.
Localizado na praia de Carcavelos, assume-se como um espaço onde reina o dinamismo e a alegria.
"Único Cybercafé situado numa praia em Portugal, dispõe de dois pisos, sendo o superior um terraço com vista panorâmica e uma zona de solário apoiados com um bar. Tem, também, uma escola de surf com cerca de 300 alunos, uma escola de "Beach Tennis" que está em fase de início mas já com alguns torneios efectuados." No seu currículum conta já com inumeráveis exposições de pintura e fotografia, música ao vivo, concursos de bandas de covers e originais, passagens de modelos, sessões fotográficas, publicitárias e de promoções, festas temáticas e muitas outras actividades de entretenimento e lazer.

Até dia 10 de Fevereiro apresenta não só as habituais actividades musicais, ao sábado, mas também uma Exposição de Pintura.
Os quadros de autoria de Tino Amaro e Maria Nunes são uma mostra de diferentes interpretações dos sentimentos e emoções que invadem o quotidiano de cada um.

Os dois amigos reuniram alguns dos trabalhos que têm vindo a realizar e conjuntamente com o Angel’s Bar agradecem a sua visita.

domingo, janeiro 08, 2006

109. Códigos


Ter ou não ter mais nada
Que sete vidas em cada seis segundos
sem esquecer que os sonhos são tão profundos...
Doces e abstractos, como o destino.

Ter ou não ter mais nada
Que oito, talvez quatro, porções mágicas
Daquele que é o cintilante elixir... da caminhada,
E que afasta do trilho o negrume cerrado,
Que à noite tudo envolve.

Ah!! Ter ou não ter... mais nada
Que oito, cinco ou três...
Ou um único momento de felicidade...
Aquele em que decifrada a charada
Se conquista a sublime sensação
E se escuta embevecido a voz...

Ter ou não ter?! Mais?! Nada?!

A voz! O toque! A descoberta... ou o código!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

108. Rio. Sorrio. Rodopio...


Rio, sorrio, rodopio,
E tal qual um navio,
navego ao sabor do vento,
apaixonada pela maresia,
amada pela cotovia.
Que venha a tormenta!
Não há onda que me detenha,
Nuvem que me abale!
Nada. Nada me sustenha!

A essência?! O Sol!

Rasgo a imensidão azul,
Bebo as gotas de orvalho e sinto-lhes o sal.
Embala-me o sonho,
Inebria-me o perfume a mar e continuo...
Rumo traçado, porto desafio,
crio, invento e num tresloucado delírio brinco.
Gozo as palavras que pronuncio...
E que guio por entre a sedutora bruma
Que vejo, que beijo... quando se impõe o silencio.

A alegria é plena, intensa e profunda
Neste segundo, neste minuto, nesta hora,
Em que já nada lembra do ano que findou...
E tudo é ânsia de viver o novo que chegou!

Rio, sorrio, rodopio...
E sem conseguir quebrar o encanto
Ergo a fronte
Estendo o olhar para lá do horizonte
Desenhando no ar o pronúncio anunciado...
do que é mais que vazio...
que chega tão manso e discreto,
Como a pena que acaricia a folha de papel
Ou aquele olhar,
Quieto,
Penetrante,
Feito de promessas e de mel,
Que tarda mas não foge!

Rio. Sorrio. Rodopio e acordo!
Como é bom estar aqui! E aí!





Este poema, escrito numa daquelas horas em que a noite já vai longa, é uma tentativa de vos desejar um Feliz 2006... cheio de sonhos, alegrias, força e muito sol a abrilhantar os dias! Espero de algum modo ter passado a mensagem.

Aproveito, ainda, este apontamento para vos comunicar que não desisti de escrever o romance "Os laços e as sombras", simplesmente não continuará a ser editado no blog. Se pretenderem ler os capítulos que se seguem agradeço que me comuniquem enviando um email para exerciciosdeescrita@sapo.pt. Periodicamente enviarei a continuação.

Obrigada a todos.

Um beijinho e até breve.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

107. Os laços e as sombras ( VII )

- Era só o que me faltava, mas a burra sou eu!! Escolho-os a dedo!! – o acre das palavras ecoou para lá dos lábios.

O coração batia descompassado quando o ar frio da noite lhe crivou o corpo de incómodos arrepios. Apetecia-lhe caminhar, perder-se pelos passeios e aventurar-se na noite. Em vez de se dirigir para casa sujeitou-se ao acaso pela calçada deserta. Precisava espairecer e acalmar-se.

- Quem me manda ser otária? – o velho hábito de falar sozinha voltara em força. – Há-os para todos os gostos, de todos os tipos, uns mais desprezíveis que outros, mas todos, do alto da sua presunção, se julgam os maiores.
O telemóvel vibrou no interior do bolso da gabardina.
- Idiotas!! Calham-me sempre os piores. – suspirou sarcástica - Cordeirinhos?! Qual quê?! Despem a pele e não passam de imbecis.

As mãos tremiam-lhe quando segurou o pequeno aparelho. Estava sem paciência para falar com quem quer que fosse mas ao ver que era a mãe foi a razão que prevaleceu. Preocupá-la era a última coisa que desejava.

- Sim, mãe!?
- Olá, filha. Por onde anda a minha menina?!
- Estive no café do tio mas não me apeteceu ir já para casa. Acho que vou jantar no D. Rodrigo.
- Está tudo bem, querida?
- Está. Não te preocupes. Só estou chateada porque o Afonso apareceu no café. – após uma breve pausa continuou. – Mãe, segunda-feira vou à câmara. Está na hora de voltar ao trabalho.
- Tu é que sabes. Só quero que sejas feliz mas pensa bem. Não te esqueças que ainda não recuperaste completamente.
- Os zumbidos e as dores de cabeça já quase desapareceram. O resto só com o tempo… portanto não vejo porquê adiar mais.
- Tu é que sabes. – a voz da mãe soava apreensiva. A filha estava a tentar encontrar uma desculpa para não pensar no Camboja, em Afonso e na Matilde. – Não venhas tarde, está bem?!
- Está. Um beijinho grande e… mãe, gosto muito de ti e do pai.
- Eu sei. Nós também gostamos muito de ti.
Aconchegou o cachecol ao pescoço e enfrentou o silêncio citando baixinho um velho poema que lera algures.

- O silêncio é pó!
Pó que se abeira dos dias,
Se infiltra no coração,
Que como o ódio o corrói!
Não há música,
Não há vida,
Não há sonho,
Só o negrume, cerrado e frio!

O silêncio é pó!
Pó que não se vê,
Se insinua subtilmente...
Quanto muito, se pressente,
Na ponta do pensamento,
Na onda do momento...
Que não se vive
Que não se desfruta,
Que não se imagina, sequer!
Só se ignora, intenso e revelador!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!


Já um sorriso se ensaiava no seu rosto quando o telemóvel voltou a perturbar-lhe os pensamentos. Catarina deteve-se de olhos esbugalhados a olhar para o pequeno écran, ao mesmo tempo que lutava contra o súbito pavor que a assaltara. O seu semblante estava branco como a cal.

- Isto não me está a acontecer!

Negou-se a ouvir aquela voz mas isso não impedia que o desconforto persistisse.
A noite afigurava-se cada vez mais sombria e nenhuma vivalma se avistava. Notou com estranheza que até o vento parecia ter cessado e sem forças para combater a sensação de estar a ser vigiada olhou em redor. Nada. Estava a ficar paranóica. Quase podia jurar que alguém a observava.

- Ohhhhh. – exclamou quando um gato vádio saltou do caixote de lixo.

Acelerou o passo, já faltava pouco para chegar.

- O silêncio é pó?!
Pó que te arrasta.
Pó que te afasta...
(Dos risos, da euforia, da magia...)
Que te transforma em fantasma
Como uma imagem irreal num plasma.
Pó!!

O silêncio é pó?!
Pó... que não tacteias
Mas que se infiltra nas tuas veias...
É ele que te reveste de um negro opressor,
Que te suga a essência e te aniquila!
Pó!!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!

Pó!!


Um carro passou a alta velocidade, no mesmo instante que ouviu a porta de um outro a ser fechada vigorosamente.
Passou-lhe despercebido o vulto que se aproximou por trás dela, por entre as árvores do parque de estacionamento, junto ao restaurante.
O negrume debruçou-se sobre ela sem que se lhe visse o rosto e tudo o que pode notar foi a sombra a descer sobre si.

(Continua...)

Capítulos anteriores:
I II III IV V VI

sexta-feira, dezembro 16, 2005

106. Os laços e as sombras ( VI )

A taça fumegante de chocolate tinha acabado de ser colocada em cima da velha mesa de carvalho quando, cativa do calor que emanava, deixou que os dedos esguios tacteassem o barro.

- Que bom!! – suspirou.

A humidade pairava no ar, não tão densa como aquela que a impedia de respirar quando, no fim da tarde, se sentava no alpendre do bungalow onde vivera durante dois meses. Imaginou que regressava a Siem Reap.
As recordações chegavam-lhe numa catadupa de imagens, que de tão sobrepostas a confundiam. Procurou aclarar a memória e, muito embora o esforço se tenha revelado infrutífero, comprazia-a a doce sensação de ter sido muito feliz Então, porque tinha regressado mais cedo?!

- Porquê?! – o tom era irónico e mordaz – Estafermo!!

Os pensamentos ainda se atropelavam quando o viu entrar.
À meia-luz do canto onde se encontrava quase se percebiam as chispas que iluminaram, repentinamente, os olhos amendoados. A longa melena escondia-lhe a expressão transtornada e os lábios comprimidos.
Contemplou-o enquanto se aproximava por entre as mesas geometricamente dispostas e, contrariada, teve que admitir que o bom gosto de Afonso não o tinha abandonado. Sempre admirara a sua preferência por roupa de corte simples e cores pouco chamativas. O blusão bege contrastava com o castanho das calças e a camisola verde seco deixava antever o branco da t-shirt que usava rente ao corpo; o que contrabalançado com o moreno da pele, o cabelo escuro e os olhos verdes como esmeraldas, a impediam de ignorar a sensualidade que transpirava. Respirou profundamente e inebriou-a um suave odor a lavanda, plantas aromáticas e a madeiras exóticas. Conhecia muito bem aquela fragrância e, mais ainda, a pessoa que habitualmente a usava.

A presença daquele homem insultava-a e exacerbava as emoções que prometera, em vão, controlar.

- Tu!! Como te atreves!?

Amargo e trocista, o riso ecoou no mais profundo das suas entranhas.

- E porque não?! O lugar é público. – disse-lhe enquanto arrastava a cadeira e se sentava. – Não pensaste que poderias fugir tão facilmente, pois não?!

A dor estampada no rosto de Catarina atingiu-o como se um punhal se cravasse na pele.

- Desculpa... Gostava de falar contigo e juntos tentarmos resolver isto.

A revolta mais que a surpresa dominou-a e quando conseguiu falar, o som era gutural como o ribombar dos trovões.

- Não tens nada, absolutamente nada, para falar comigo. – quase sem tomar fôlego continuou. – Se tivesses vergonha, nem sequer estavas aqui.
- Enganaste, minha cara! – a paciência chegara ao limite. - Há assuntos que temos que esclarecer... e não penses que a tua agressividade me assusta, muito pelo contrário, diverte-me. Ficas patética com esse ar de donzela ofendida.

O silêncio pairou sobre eles durante o que pareceu uma eternidade.

- Não te imaginava tão cobarde. – acrescentou.

Catarina ergueu-se de rompante denunciando a intenção de se retirar mas Afonso foi mais rápido e segurou-lhe o braço delicado.

- Senta-te e não me obrigues a fazer algo de que me arrependa! – o tom cortante produziu nela o efeito contrário ao pretendido e, sacudindo violentamente o braço, libertou-se.
- Tu, também não me metes medo!!

Afonso viu-a rodopiar sobre si própria e sair pela porta, altiva e furiosa, quase a correr como se fugisse do diabo em pessoa.
Mais tarde ou mais cedo teria de aceitar conversar com ele. Não poderia esconder-se a toda vida.

- Tem que ter paciência com a menina.
- Mais do que aquela que tenho tido, Sr. João?! – o desânimo e a indignação eram evidentes.
- Os últimos meses não foram pêra doce e ela ainda não se tinha recuperado do primeiro golpe já o segundo lhe era servido a frio e o terceiro estava na fornalha.
- Sabe... não nego que sou culpado mas não do que ela me acusa. Se tivesse um pingo de consciência admitiria que se continuasse no Camboja o pior poderia acontecer. – suspirou como que a ganhar alento. – Uma semana antes de voltar, só por sorte não ficou à mercê de uma quadrilha ligada ao tráfico humano.
- Ela contou-me mas acha que foi só um susto.
- Um susto?! – escarneceu.
- Sim.
- Então digo-lhe mais… Foi bem mais que isso: foi um aviso! Com aquela gente não se brinca. O miúdo que nos alertou foi assassinado como se fosse um cão vadio, sem dó nem piedade e, mesmo eu, vi-me obrigado a viver na sombra até concluir o trabalho. Ela não tem noção...
- Pode até ser, mas...
- ... mas?! Não. Não há explicação para não me querer ouvir.
- Não pense assim. Está magoada, é o que é! Já viu o que ela passou?! Sonhou tanto com a pesquisa e foi o que foi... Depois o acidente que não recorda e como se não bastasse sente-se responsável pela morte daquela mulher. Já para não falar de quando o Afonso se encantou pela Matilde.
- Quanto a isso pouco posso fazer. – encolheu os ombros. – Foi uma estupidez, eu sei, mas pode estar certo de que não sou como o Vasco.
- Oh!! Esse passou por aqui há duas semanas. Vá lá, parece ter tomado rumo. – perante o arquear de sobrancelhas de Afonso, concluiu. – Está outra vez com aquela moça com quem namorou há uns anos e a coisa parece que vai pegar de vez.
- Não lhe perguntou por ela?!
- Perguntou mas não quer dizer nada. – limpou as mãos e, sem saber o que dizer, acrescentou - Acho que nunca pretendeu magoá-la mas a vida dá tantas voltas. O diabo anda sempre à espreita. Mas não se preocupe que a menina gosta é de si.
- Acha?!
- Quer um conselho? Não desista!

Afonso voltou a encolher os ombros enquanto passava a mão pelo cabelo em desalinho.

- Espero que sim, espero que sim, sr. João.

Era em momentos como aquele que o pobre homem se sentia velho e cansado. Não havia modo de perceber os jovens. Antigamente com 30 anos, tinha-se um trabalho de sol a sol e uma família a quem proteger. Era verdade que o orçamento deixava a desejar mas era-se feliz. Catarina tinha 32 anos, Afonso mais dois, ambos tinham vingado na vida, um a dar aulas numa universidade e o outro a trabalhar na câmara. O que lhes faltava?! Se calhar, acreditar na vozita do coração e enfrentar com coragem as dificuldades?! Aprender a lutar pelo que queriam e a dialogar?! Enfim, sabia lá ele... ou eles!

(Continua...)

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I II III IV V VI

quinta-feira, dezembro 01, 2005

105. Os laços e as sombras ( V )

- Porcaria de trânsito! - o desabafo fundiu-se com a música vibrante que o rádio emitia e que em nada atenuava a ira que o consumia.

Os carros avançavam lentamente e os minutos não paravam de se acumular, irritando-o cada vez mais.

- Maldita seja! – explodiu.

Nas últimas vinte e quatro horas, o seu semblante adquirira um novo rasgo de arrogância, agressivo quase tenaz, que fazia com que os outros condutores não se atrevessem a mais que um fortuito olhar.

A mulher do carro ao lado observou-o. Tinha um perfil marcante: o nariz aquilino, o queixo bem desenhado e os olhos de uma tonalidade clara, talvez verdes, contrastantes com o cabelo negro. O resultado final revelava-se invulgarmente bonito. Só os lábios, contorcidos numa linha tão azeda como o fel, faziam com que qualquer pensamento mais romântico esmorecesse à semelhança de uma flor sem água ou oxigénio. A expressão daquele homem arrepiou-a. Parecia uma bomba-relógio.

O trânsito avançou, compassado, durante alguns quilómetros mas com o aproximar das portagens não tardou a que Afonso suspirasse com enfado. Detestava conduzir naquelas condições. Era impossível ficar indiferente àquele caos.

As másculas mãos crisparam-se, mais ainda, quando um Volvo se atravessou à sua frente e o obrigou a travar bruscamente.

- Otário, vê por onde andas. – gritara-lhe quase sem se dar por isso.

Com os nervos em franja olhou o relógio. Pouco passava das cinco horas e não chegaria se não, na melhor das hipóteses, dali a uma hora.

Regressara mais cedo que o previsto influenciado pelo telefonema, pouco amistoso, que recebera na véspera.
As palavras ainda ecoavam no interior do seu cérebro:

- És um traste. Como é que pude pensar que eras diferente…
- Deixa-me explicar-te. – pedira interrompendo-a.
- Explicar o quê?!?! Não há nada que justifique o que fizeste.
- Há!! Tu sabes disso, portanto não te armes em menina mimada e põe a mão na consciência.
- Como tu fazes...?! Não sejas hipócrita. Eu estava viva, não estava?!
- Estavas, mas todos pensámos...
- ... que nunca recuperaria!? Eu sei! O facto é que estou aqui e não quero mais chantagens psicológicas.
- Estás a ser ridícula...
- Isso é o que tu és quando me mandas flores, escreves bilhetinhos lamechas e pensas que me vais engrupir nos teus joguinhos sórdidos. Esquece. Esquece que eu existo... de uma vez por todas!

O telefone fora bruscamente desligado e Afonso ficara estático, assombrado com a descoberta de que, também ela, não era tão doce como imaginara.
O conflito que se gerara no seu íntimo levou a que cancelasse a palestra na universidade e regressasse a Portugal três dias antes do previsto.
Ali, impotente, cercado por uma imensidão de carros, arrependeu-se. Poderia ter adiado o confronto, ganhar tempo e permitir-lhe arrefecer as ideias. Mas não! Tivera que atravessar a fronteira debaixo de chuva cerrada, pisar no acelerador e esperar que quando chegasse ela estivesse no café do sr. João. Não se sentia com predisposição para lhe bater à porta de casa. Preferia conversar com ela num local minimamente neutro.

A ansiedade dominava-o quase tanto como o exasperava o trânsito, o descontrolo emocional que ela demonstrara e a sensação absurda de culpa.

A cancela foi levantada. Lisboa já se avistava no horizonte.

(Continua...)

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I II III IV V

terça-feira, novembro 29, 2005

104. Os laços e as sombras ( IV )


- Hoje ninguém sai de casa.
- Está um frio terrível, menina. É o que é! - exclamou o atarracado dono do café enquanto a servia - Só se está bem no quentinho. Tu é que és jovem e tens sangue na guelra... caso contrário também não estavas aqui.
- Obrigada, Sr. João. – disse enquanto aproximava a chávena. - Se calhar devia ter ficado em casa, mas desde que saí do hospital, só estou bem é na rua.

O homem, senhor dos seus sessenta anos, olhou-a carinhosamente.

- Sr. João?! Fui despromovido?!
- Desculpe... – Catarina sorriu – Tio João.

Ele e a esposa tinham nascido no seio de, pequenas e tradicionais, famílias de Trás-os-Montes e os parentes por lá continuavam. Quando vieram viver para Lisboa, os tempos eram outros. Tempos difíceis em que lhes valeu a amizade de um jovem casal, filho da terra que haviam deixado para trás: os pais de Catarina. Se não fossem eles, até fome teriam passado.
João da Rega, como era conhecido, nunca poderia esquecer o que lhes devia. Não era dinheiro mas um bem mais precioso.
O elo perdurara ao longo dos anos e, ainda hoje, eram indiscutivelmente as únicas pessoas, em Lisboa, a quem poderiam chamar amigos.
A pequenita nascera alguns anos depois da intempestiva e aventureira cruzada até à cidade, numa altura em que ele e a esposa já tinham aceitado o destino e o facto de não poderem ter filhos. A afeição que lhe dedicaram era de tal forma que, apesar de entre eles não existir qualquer vínculo sanguíneo, era inconcebível não a considerarem uma sobrinha muito querida.
Quando a vira há uns meses, entre a vida e morte, o coração comprimiu-se e muitas lágrimas derramou com Mariana, a esposa, junto ao leito do hospital.
Chocara-o saber que depois do acidente pouco se recordava da vida que tinha até então ou, até, das pessoas que conhecia.

A voz melodiosa interrompeu-lhe o curso dos pensamentos:

- Não ligue, tio. Esta minha cabeça ainda não voltou ao lugar mas há-de voltar. – piscou-lhe o olho bem-humorado.
- Claro que sim, querida. É só uma questão de tempo e paciência.

João da Rega afastou-se enquanto sorria. A esperança é a última a morrer.

(Continua...)

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I II III IV

quarta-feira, novembro 23, 2005

103. Nada de nada


Espreito a noite pela janela
E a estrela mais bela,
Enquanto cerco as palavras de fantasia
E dou asas ao pensamento.

Do outro lado da rua deserta,
O eco da alegria,
O vislumbre do vulto
E a antevisão do momento.

O culto oculto é o código
E o código, fruto da lógica ilógica,
Intensa e demorada,
registado em miradas, mais ou menos, profundas,
A verdade que não é denunciada.

O silêncio converte-se em riso
Quando confunde o enredo
E tudo é coragem... nada medo.

Anulo a distância,
Da janela à porta, meia dúzia de passos.
Corre a magia,
Espanta-se a nostalgia
E galopante é a hora, quando me acerco.

Esfuma-se a ilusão,
Instala-se a confusão
E do tumulto que assalta o coração...
Nada de nada transparece.

Criminosa, culpada mas também receosa,
O sorriso surge, por entre os fios dourados,
Sem que se perceba o seu destino...
Na camuflagem das sombras ousa-se,
Esbate-se a máscara
Mas, eis que se não quando, parte...
Parte O vulto...
Fica o vazio da calada da noite
E o regresso à janela...
de onde se contempla a... ruela.

Espero pelo novo dia,
Aquele em que o luar ou a mais singela luz,
Me revela, inebria e seduz...
Aquele em que, de olhos nos olhos,
Sem receios ousarei...
Ousarei abraçar o segundo, o minuto, a vida ou o amor
E murmurar-lhe docemente:

Não partas... Estou aqui!*


* Versos editados a 25 de Novembro, com o intuito de não defraudar quem mantém viva a fé no amor e gostaria que os vultos não partissem.

segunda-feira, novembro 21, 2005

102. Devaneios de uma noite...


A tarde avançava sem nada de extravagante suceder quando o convite surgiu. Uma ida ao Chiado, uma visita à Fnac, a apresentação de um novo livro, Lídia Jorge oradora e um par de horas envolvida pelo mundo mágico dos livros. Impossível resistir.

Desci a Alameda, como quem flutua sobre as águas calmas de um mar tão sereno como o sono de um bebé, e aproximei-me da Baixa já a rasar as 19 horas.
Apressei o passo, na ânsia pura e descomprometida de não perder um único segundo daquele momento que antevia como enriquecedor e aprazível.
Subi as escadas sem sequer fixar a mirada nas pessoas que por mim passavam e quando entrei no recinto sombrio mas acolhedor bebi... bebi as palavras que se desprenderam daquela voz bem colocada e dei asas ao sonho.

Será alguma vez me sentarei naquela cadeira e de mãos nervosas ajustarei o microfone à minha baixa estatura?! Ou me inclinarei sobre a mesa para me desviar da luz de um qualquer foco que me impede de ver os rostos à minha frente...?! Mas acima de tudo e o mais importante, será que algum dia deslizarei os dedos pela capa dura de um livro onde figurará o meu nome, sabendo que haverá alguém com quem partilhar o que, com tanto carinho, criei?! A incerteza estimula a mente e garante a força necessária para continuar a sonhar, que é como quem diz... lutar!

Quando por fim me atrevo a desviar o olhar do palco improvisado dou-me conta da presença de três dezenas de pessoas que, mais ou menos, atentamente seguem o cativante discurso.

Há uns anos tive uma página na internet... Também eu!

Já não a tenho, começou a dar muito trabalho… Eu ainda…

No início o parco conhecimento em linguagem html, javascript e afins limitou-me a criatividade e quase desisti. Muitas foram as horas dedicadas a adquirir os necessários conhecimentos para apresentar um "recanto" que pretendia personalizado.

O pequeno embrião cresceu e hoje assemelha-se a um pequenito que começa a gatinhar. É com orgulho mas também humildade que o digo. É o menino dos meus olhos!
Em formato de blog, na maior biblioteca que o mundo possui, lá está ele. Porque gosto de escrever! Porque gosto de partilhar as palavras, as frases, os contos, as crónicas, os poemas... os rabiscos das horas incertas!

Um ano depois, valeram a pena as muitas horas roubadas ao sono, aos passeios, aos amigos… e quase diria, se me atrevesse a tanto, à vida. Mas não atrevo… porque nenhum minuto foi em vão.
O prazer de saber que algures alguém lhe dedica meia-dúzia de minutos compensa o cansaço que se possa acumular e os momentos de puro lazer que, por ele, foram comprometidos.

Nunca pensei converter estes contos num livro.

Sorri. Sempre gostei de sorrir…e ali fiquei, de pés fatigados e olhos doridos pelas muitas horas em frente do computador. O coração palpitante, a mente aberta e os ouvidos atentos denunciavam o encanto que me envolvia quando, de mim para mim, tecia as mais diversas considerações sobre cada frase que escutava.

Já no fim da sessão comprei o livro, "O amor por entre os dedos", cujo autor /escritor define como sendo um livro de contos narrados num tom inverosímil, por vezes a roçar o non-sense..

Duas ou três horas depois, o livro pousado sobre a mesa de madeira, li atentamente as primeiras páginas e confesso-me culpada deste mau hábito de, mais que ler, analisar.

Se tivesse que elaborar uma recensão talvez focasse o humor e a ironia que sustinham os enredos. Mas, mea culpa, gosto dos floreados das grandes descrições que os clássicos nos apresentam; daquela linguagem ornamentada e rebuscada que ainda persiste nos livros de alguns, poucos, autores da actualidade e que bem era apresentada por Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Antero de Quental ou Júlio Diniz… para não me alongar nos sonantes nomes que poderiam ser mencionados a título de exemplo.

Ora, António Manuel Venda, o jovem escritor de quem falo, adopta as palavras simples, e num primeiro impacto, ao mais desatento e "quadrado" leitor, parecerá que lhes falta encanto. Errada conjuntura. Falta encanto a quem as ler impregnado de ideias pré-concebidas sobre literatura. Acuso-me de me ter encaixado nesse perfil mas, votado o estado de espírito menos aberto e tolerante ao descrédito, a verdade é que adorei… adorei aquele conjunto de textos romanceado e bem-humorado; a tal ponto que se voltasse a entrar naquela sala aplaudiria com mais convicção o escritor e o senhor escritor que me recordou que cada livro é um… Livro!

quarta-feira, novembro 16, 2005

101. Euforia


Danço na chuva,
Como quem evoca velhos deuses...
E acredita na estrela cadente
Que rasga o céu e se funde, no horizonte, com o mar.

Danço na chuva,
De olhos postos na chama ardente,
Que brilha para lá da vidraça
E me faz adivinhar os contornos do que é amar...

Ébrio é o momento,
Viva é a emoção,
Enquanto, subjugada ao ritmo, me movimento
E, acaricio a vida, bebendo-lhe os segundos.

Peço um desejo,
Construo um sonho,
E deixo-me levar pelo que antevejo
Ser tão real,
Ser tão intenso,
Ser tão mágico como o teu regresso!!

Danço na chuva...
Não há frio que castre a euforia,
Não há trovão que assuste,
Tudo é magia,
Tão intensa como esta sede de música e alegria!
Tão intensa como o teu sorriso,
Quando debaixo do mesmo céu te murmuro:

Acredita no sonho!!

domingo, novembro 13, 2005

100. São palavras...


São palavras...
E leva-as o vento, a brisa que se desprende da tua voz...

São palavras...
E desfazem-se na espuma branca da praia...

São palavras...
Às dúzias... às centenas...
Letrinhas agrupadas que procuras retratar sem êxito...

Palavras e mais palavras...

São palavras...
Falam de sonhos que são realidade,
De ódio que é amor,
De mentira que é verdade,
De tristeza que é alegria...
Gastas, efémeras, vagas, fruto de outros dias.

São palavras...
Que carregas dentro de ti sem se saber...
Porque cegos estão os olhos e o coração.
Deixa fluir a energia,
É preciso que seja o teu corpo a confessar...
E a por ti falar!
Verás então que não é dor mas fome...
Fome de emoção, de paz e de magia,
O que te vai na alma.

quinta-feira, novembro 03, 2005

99. Palavras soltas


Vida. Rumo.
Paz. Fumo.
Amizade. Felicidade.
Gato. Cão.
Fado. Ilusão.
Criança. Esperança
Silêncio. Brisa.
Mar. Amar…


Suspiro levado pelo vento
Nas horas que invento
Enredos, encantos tamanhos,
mágicos fragmentos da inspiração,
Que não possuo mas ouso denunciar!
Acreditar! Ver!
Sentir como se pressentir fosse a valer
E, afinal… sorrir, serena na leda madrugada
Em que mais que dormir, foi escrever
O verbo que se impôs, que se quis, que se embalou!

Vida. Rumo.
Paz. Fumo.
Amizade. Felicidade.
Gato. Cão.
Fado. Ilusão.
Criança. Esperança
Silêncio. Brisa.
Mar. Amar…


Assim são as palavras soltas…
Das noites de voltas e mais voltas…

Assim sou… Eu!!