quinta-feira, maio 19, 2005

86. Sonhar e lutar...crescer!



Serena, ainda que exultante,
Percorro os meandros da mente
Numa busca constante,
Precisa e perspicaz, que me permita crescer!

Sorrio...
Há sorrisos de todas as cores, formas ou feitios,
Só a eterna sensação de paz perdura
Na profundidade do meu ser!

Exultante ainda que descontente,
Não me dou por vencida...
A vida é bela!

Cada dia é um capítulo por escrever,
Cada sonho um barco que navega
E a bom porto há que levar.

Rir, viver, amar... respeitar,
São alguns dos verbos que me assaltam...
Nesta hora imprecisa
De uma qualquer noite, mágica e mística!

Fala-se de amor...
Por mim... por ti... por nós... por vós...
Por quem luta diariamente, por vencer a dor,
E retirar de cada momento o melhor:
Aprender e evoluir!

Serena, ainda que exultante,
Exultante ainda que descontente,
A felicidade envolve-me e inebria-me
Fazendo-me acreditar
E sorrir ao relembrar
O importante que é lutar...
Pelos sonhos que nos movem!

sábado, maio 14, 2005

85. (Re)encontros



O dia finda quando Matilde se resolve a delinear as primeiras palavras... A carta é escrita ao sabor da emoção e, ainda que possa parecer fruto de um fugaz devaneio, o amor que a consome é eterno...

A ti...

Sentada na velha esplanada, de frente para o mar, sinto a voraz energia que dele emana... a mesma que flui através de mim e me envolve numa doce teia de deslumbre.
Inspiro. O cheiro salgado a algas entranha-se no meu corpo enquanto a leve brisa sacode os caracóis que me emolduram o rosto. Um ou outro fio castanho, mais atrevido, turva-me a vista enquanto te encaro. Descrevo-te o momento sem que me possa manter indiferente à tua presença. Fascinas-me. Inebrias-me com a sensualidade com que me brindas. Neste meu cantinho, que não passa de meio metro quadrado de paraíso, consinto-te a carícia! Surpreendes-te! Eu sei! Há quantos anos me recolhi nesta concha e me converti num bivalve racional?! Tantos que já não têm conto. E agora tu... só tu... recém reencontrado, consegues o milagre de me fazer sair das paredes que considero um confortável refúgio.
Tens razão em te admirar com o meu regresso... Quantas vezes nos teremos cruzado, no último ano e meio, que me tivesses assim... debaixo da tua mirada, exposta e feliz?! Uma, duas... não mais do que isso!
A força do teu olhar ilumina-me a alma e fazes com que volte a ter consciência da essência feminina e humana que me abraça.
De repente, voltaste a ser o amante que não tenho, o companheiro que não desejo... De repente, fazes que com que sorria estarrecida com esta sensação de plena liberdade.
Olho as pessoas que na praia jogam, conversam, lêem ou dormitam. Ainda que não percebas porquê diverte-me fazê-lo. Sentes-te traído. Amuas e nem sequer consegues admitir que deveria ser eu a sentir-me assim.
Rabisco numa folha os teus traços e, silenciosamente, prometo-te que pelo menos durante alguns meses te farei companhia. Não mais do que isso... Não quero?! Não... Tu não o permitirás.
Apercebo-me que um casal de idosos me olha de forma estranha, sem compreender porque entre dois ou três suspiros o sorriso de pura felicidade se alarga. Também eles são apanhados desprevenidos pois não te vêem como eu! Provavelmente, pensaram que me assaltam pensamentos menos puros ou dirigidos a alguém menos especial.
Lês o que escrevo... sorris e acusas-me de gostar de jogos de palavras. Será?! Provavelmente terás razão. Mas gosto mais de ti, do teu calor e da tua presença.
Espero que me saibas perdoar a ausência de tantos meses. Perdoas?! Eu sei que sim!
Prometo-te que de agora em diante me verás mais vezes com excepção daqueles dias em que te esconderás atrás das nuvens sem que por um ínfimo espaço de tempo me permitas ver o ar da tua graça.
Juntos iremos partilhar muitas manhãs, outras tantas tardes e, inclusive, haverá dias em que, momentos antes de desapareceres no horizonte, te permitirei beijar-me a fronte... mais uma vez.
Por hoje, despeço-me de ti. Deixo-te na companhia das dezenas que invadiram a praia... e do mar que acaricias, ternamente, enquanto te lanço um último olhar!

Até breve, querido!

Matilde


A pequena folha de papel ainda está depositada sobre a mesa quando o seu vulto deixa de se avistar e se encaminha para lá das dunas...

Gonçalo senta-se, estende a mão... a mente regista cada uma das emoções enquanto um arrepio lhe percorre o corpo. Ao ler aquelas palavras, sente-se como se estivesse a invadir a privacidade de dois amantes. Quem as escreveu era uma incógnita indecifrável, no entanto comprazeu-o compor a imagem feminina da sua autora. Por momentos, imaginou que aquela missiva lhe era dedicada... e quase sentiu a doçura daquele terno olhar.

Como é bom sonhar!