quarta-feira, maio 04, 2005

82. Enigma




Catarina contempla, da janela do seu quarto, o pôr-do-sol. Uma estranha nostalgia abate-se sobre ela enquanto se relembra dos últimos dias... Não compreende a insatisfação que a tem dominado.
Namora com João desde a adolescência mas há muito que a velha magia se esfumou. Talvez por isso tenha cedido à tentação e desfrute de forma tão intensa dos momentos que passa na companhia de Carlos. Na realidade, são eles que quebram a monotonia da sua vida. É urgente resolver o imbróglio dos seus sentimentos mas aquela situação afigura-se-lhe muito cómoda. Enfrentar a família e os amigos, terminar o namoro, é uma possibilidade que, para já, afasta.
A paixão terminara, acomodara-se! Mas quantos relacionamentos não sobrevivem à base de amizade?! Não fosse a desconfiança de Joana e tudo seria perfeito. Ás vezes surpreendia-se a duvidar da sua amizade. Carlos advertira-a, por mais do que uma vez, de que a posição que ocupava na empresa atraía muitas invejas e aproveitadores. Seria possível que Joana recorresse, de forma consciente, à amizade que as unia para obter regalias?!
Enfim!! De uma coisa estava certa... da sinceridade de João e da plena confiança que ele depositava nela. Se por um lado a enternecia saber disso por outro fazia com que se sentisse, ainda mais, culpada. Desabafara com Inês as suas preocupações e surpreendera-a a repreensão da amiga. Chamara-a de egoísta, fria, calculista. Era assim...?! Uma mulher demasiado convencida de si própria que conseguira sem esforço o que muitos não ousavam, sequer, almejar?! Ou seria que em Inês ainda existia o velho ressentimento de ter sido preterida por João?!
Abanou a cabeça como se procurasse afastar toda a insegurança e energia negativa que estava a tomar conta dela. Naquela noite iriam jantar juntos, ali em casa. O melhor que tinha a fazer era tomar um reconfortante banho, colocar o seu sorriso mais resplandecente e dar-se por feliz de ser quem era.

A música envolvia a atmosfera da sala, o jantar já se dera por terminado e a casa voltara a estar vazia. Por momentos, desejara que a noite se alongasse... Pela primeira vez em muitos meses, voltara a olhar para o namorado com adoração. Tinha sentido a frustração a tolher-lhe os sentidos quando, também ele, saíra sorrateiramente como se em casa o aguardasse algo mais emocionante que os seus murmúrios, habitualmente, desprovidos de emoção. A solidão da calada da noite atingiu-a com a ferocidade de um murro no estômago vazio.
Meia hora depois de terem saído recebera o primeiro telefonema...

- Eu sei de tudo... – a voz soara-lhe abafada e metálica.

Um calafrio percorreu-lhe a coluna quando o pensamento ganhou forma. A desconfiança minou-lhe a parca segurança e trémula dirigiu-se ao quarto. Abriu a gaveta adivinhando-a vazia... o diário desaparecera. Cinco pessoas estiveram naquela casa desde a última vez que ali o deixara. Se não tinha sido ela a dar-lhe sumiço restavam-lhe quatro hipóteses... João... Inês... Carlos... e Joana.
A dúvida instalou-se.

- Eu sei de tudo... como consegues?! – novo telefonema... a mesma voz.
- ...de tudo?! De tudo o quê?! – respondera-lhe aparentando uma calma que não sentia.
- De tudo! Como consegues?! – replicaram do outro lado.
- Não há nada para saber...
- Não?! Tens a certeza?! Tens tido noites muito animadas... tórridas, diria!
- Vai à... – gritou-lhe enquanto a chamada foi subitamente interrompida.

O que significava tudo aquilo?!

Recordou-se de João, da forma inesperada como alterara os planos e lhe dissera que não ficaria com ela aquela noite; de Carlos que um dia antes lhe pedira para ser frontal com o amigo e terminar a relação... e Inês, não a censurara?! Não lhe dissera que estava a ser vulgar, imoral e não merecia a pessoa que tinha do seu lado?! Restava Joana... a fútil colega de trabalho, a quem interessavam apenas belos penteados e trapinhos de última moda. A mesma... que naquela tarde lhe “exigira” que a promovesse a sua secretária. Claro, em nome da amizade que as unia.
Qual deles traíra a sua confiança e invadira o espaço intimo do seu quarto para lhe roubar o pequeno caderno... onde depositava os seus mais secretos devaneios?!

domingo, maio 01, 2005

81. Dia da Mãe



Acabei de falar contigo e não resisti a escrever-te uma dúzia de palavras. Porquê?! Porque se impõe que te diga novamente o quanto te amo.

Estou sentada na esplanada junto a casa... Fecho os olhos e abstraio-me de tudo quanto me envolve. Até do rio, dos pássaros, das crianças... de tudo! Recordo tantas coisas, mãe... A suavidade dos teus traços, o calor da tua voz carregada de alegria, o eco dos teus pensamentos ou o carinho que brota do teu coração...
Recuo no tempo, volto a ser pequenina e neste meu devaneio procuro novamente o aconchego do teu regaço. Separam-nos quilómetros, aproxima-nos o amor e a sensação de que a tua cálida mão está sempre aqui, a afagar-me carinhosamente o rosto.
Sabes...?! Sinto-me uma privilegiada por te ter como mãe e por me teres permitido crescer num ninho equilibrado, protegido da infelicidade que se abate sobre muitos lares. É verdade que nem sempre concordei contigo, nem sempre compreendi as tuas advertências... vezes houve que não as acatei mas, ainda assim, nunca duvidei do que te movia.
Há quem estranhe esta adoração que te dedico, a ti e ao pai... Há quem pense que não cresci e continuo a mesma menina de outrora... aquela a que acusavas ternamente de ser “melada”. Como poderia eu sentir-me diferente se sempre foram os meus melhores amigos?! Os eternos ídolos... os heróis de toda uma vida?! Por mais que diga ou que escreva ficará sempre algo por confessar. Sempre foste mais que a mulher que me deu à luz, mais que uma figura materna....
Tento encontrar as palavras certas para te dizer o que me vai na mente e no coração. Não as encontro. Talvez não existam. Ainda que seja insuficiente dizer-te que és a melhor mãe que alguém poderia desejar é isso que te digo... Terna, atenta, carinhosa, dedicada, presente, amiga...

Adoro-te! Muito, mãe!
Obrigada por tudo...