quinta-feira, abril 21, 2005

78. O livro de cabeceira



Solto os dedos sob o dicionário e com um olhar enlevado admiro as páginas amarelecidas deste companheiro de viagem. Se me perguntassem qual era o meu livro de cabeceira seria este velho e pesado aglomerado de folhas que nomearia, para espanto de quem o ouvisse. Quantas vezes o abri ao acaso e me quedei perdida no tempo numa emocionante descoberta como quem percorre os trilhos desconhecidos de uma qualquer expedição. Ao contrário do que seria credível foi desta forma que apreendi o significado de palavras como hipocrisia, maledicência, xenofobia, ou ainda, júbilo, fleuma, ventura...
Hoje, muitas horas depois de ter escrito aquele conto que ficará durante algum tempo a fermentar antes de ser lido por mais alguém, vi-me a braços com um dilema: o que vou escrever?! Olhei a capa vermelha do meu amigo e sorri-lhe com a certeza de que ele me ajudaria. Foi assim que, de página em página, o texto foi surgindo e voltei a relembrar os irreverentes tempos de adolescente.
Nunca gostei de calão, dificilmente virei a gostar, mas aos quinze anos era frequente “escapar-me” o vulgar “porra”. Recorria a ele para manifestar o enfado e valeu-me a repreensão da, então, professora de português. A timidez daquela vez não me impediu de ripostar e de referir que “porra” não era calão. A definição que constava no dicionário referia que o termo era sinónimo de moca, porro, porrete... quanto muito, irra. Quando concluí, sentada na velha cadeira de madeira, encolhi-me envergonhada. Responder ao professor não era bonito nem de boa educação. Esperei de rosto vermelho nova censura mas, ao invés disso, fui brindada com um sorriso.
- Tens razão, Maria! Mas por vezes as palavras têm outros significados e, aquilo que pronunciamos sem maldade poderá ser interpretado incorrectamente. A decisão é tua... mas de futuro preferia que não voltasses a dizer isso.
- Sim, senhora professora... – respondi, agora sim timidamente.
O episódio ficou na memória e contribuiu, em muito, para que tenha normalmente cuidado com as palavras. O português pode, por vezes, ser muito traiçoeiro!

terça-feira, abril 19, 2005

77. Perigo: Colisão em 2034?


"Asteróide pode colidir com a Terra em 2034"
in Diário de Notícias, 19 de Abril de 2005

O dia 1 de Abril já lá vai e assim não fosse poderiam os leitores do Diário de Notícias imaginar que a este título se seguiam meia dúzia de palavras desfasadas da realidade. Poder-se-ía até supor que era, afinal, o produto imaginativo de um jornalista empenhado em se dedicar à ficção científica. Talvez até fosse um simples fã do filme "Armageddon", em que Bruce Willis e uma equipa de perfuradores de petróleo, na qual depositava a sua maior confiança apesar de se nos afigurarem um “bando de lunáticos”, aterram num asteróide em rota de colisão com a Terra. Mas na verdade, hoje dia 19 de Abril, foi este um dos temas abordados na edição do referido jornal, relatando-nos o que ontem, no britânico The Times, foi noticiado.
O asteróide em causa, baptizado com o nome de “2004 MN4”, vai em 2029 e 2034 “andar” demasiado perto da Terra. Ainda que nos seja revelado que, este corpo celeste, “não tem dimensão suficiente para pôr em causa a sobrevivência do planeta e dos seus habitantes”, não se pode ignorar que poderá “atingir a Terra com o impacto de uma explosão de 1000 megatoneladas, espalhando a destruição numa escala regional, na área do seu embate.”
No passado fim-de-semana, o canal AXN transmitiu o filme anteriormente indicado. Resta desejar que os cientistas possam detectar a tempo o perigo e equacionar uma solução, por mais extravagante que possa parecer como o foi em “Armageddon”.

domingo, abril 17, 2005

76. "Fiel ou Infiel" TVI



Ser fiel ou infiel é um tema que tem sido muito abordado. Há pouco mais de um mês foi divulgado na revista "FOCUS" (N.º 282, semana de 9 a 15 de Março) que a infidelidade tem causas genéticas e que quando a mulher procura parceiros extraconjugais pretende, desta forma, garantir os melhores genes aos seus descendentes.
Sabe-se que a infidelidade sempre existiu, que não é um problema do século XXI, mas o facto é que cada vez mais se constata o número acentuado de casos que se têm vindo a manifestar na nossa sociedade.
Da leitura atenta do texto publicado na referida edição fica a ideia de que a fidelidade é “anti-natura”. Será isto possível?! Para os mais conservadores certamente que não.
Onde se começa a ser infiel?! Quando se contempla alguém e o pensamento discorre de forma pouco abonatória para quem tem um relacionamento “estável” ou quando se dá aquele passo que leva à sua concretização física?! Para uns a traição tem início com o primeiro devaneio, para outros com o primeiro beijo, ou como alguns defendem quando o envolvimento se transforma em sexual.
Um investigador britânico do Hospital St. Thomas denúncia: 20% das crianças de dois bairros ingleses são fruto de relacionamentos extraconjugais, não sendo filhos dos supostos pais. Os dados apresentados são chocantes e levam à pergunta: Como seriam os obtidos se em Portugal se levasse a cabo semelhante estudo. Seriam idênticos, inferiores ou superiores?! Fica a dúvida.

“A traição é um acto de egoísmo. Na altura, pesamos os prós e os contras. E se vamos em frente é porque não gostamos da pessoa que está ao nosso lado.” Assim o disse alguém que já traiu. Mas se não se ama porquê manter uma relação?!

As perguntas vão surgindo enquanto poucas respostas se vão encontrando.

“Fiel ou Infiel” é um novo programa da TVI, emitido á sexta-feira. A ideia original vem do Brasil pela mão do apresentador João Kleber, filho de pais portugueses, oriundos da região norte do país e emigrados há algumas décadas naquele país.
A polémica instalou-se. Acusações são feitas e apreciações surgem nos media. O certo é que não se sabe o que é mais deprimente... se o formato do programa, com péssimos actores, se recordar a elevada percentagem de casos de infidelidade em Portugal ou o facto de haver pessoas, ditas inteligentes, que expõem a sua vida privada daquela forma.
Neste programa da TVI, como já é um hábito deste canal televisivo, explora-se ao mais baixo nível a condição humana sem qualquer tipo de respeito. Um respeito que devia começar nas próprias pessoas que se propõem a participar no teste.
Ser ou não infiel, ser ou não traído... é tudo uma questão de respeito, diálogo e carácter. Ou se tem ou não! Causas genéticas?! Não será antes a perda de valores, o stress, o egoísmo e uma acentuada leviandade no tratamento do mais íntimo dos sentimentos?!
Prefere-se pensar que este programa é mais um reflexo medíocre da deficiente personalidade que alguns (poucos, pelo menos assim se espera!) têm!

sábado, abril 16, 2005

75. Inspiração



Fecho os olhos, inspiro o ar
E da brisa do mar fica-me a recordação
De tardes perdidas no curso dos dias...
Dos meus... dos teus... dos nossos!
Os anos que não me pesam, passam...
Trazem-me, mais que tristezas, alegrias
E do ontem recupero apenas o necessário,
O suficiente, o imprescindível,
Para não me esquecer...
Do que fui e do que sou!

Fecho os olhos, inspiro o ar...
Sinto o peito estremecer,
Numa tal comoção que por instantes...
Sinto-me desfalecer.
Amanhece ou anoitece.
Nasce-se ou morre-se.
Vive-se, sabendo que o amanhã...
Será mais um dia de esperança!

Fecho os olhos, inspiro o ar...
De mim para mim digo... sei-o!
Vivo um sonho!
O de ser eu própria a cada despertar,
Sem máscaras nem mentiras...
Assim... e assim... Enfim! Eu!

quinta-feira, abril 14, 2005

74. Crise...



O olhar queda-se imóvel sobre a encruzilhada de letras e linhas impressas no jornal, enquanto no seu íntimo a revolta ganha forma. Suspira e quase desiste de fixar os insolentes anúncios de emprego.
Há meses que abre o jornal expectante mas nada de novo é publicado naquelas cinzentas páginas. Ordenados base, altos lucros, condições aliciantes e possibilidade de carreira... a esses mal presta atenção. Para quê se são palavras escolhidas a dedo para esconder degradantes situações de trabalho precário?!
Afasta por fim os olhos esverdeados do papel salpicado de caracteres e observa os rostos sisudos dos que a rodeiam. Um casal discute baixinho... um senhor, de idade avançada, debruça-se sobre um livro de páginas amarelecidas e, mais além, dois jovens desabafam sobre a incompetência deste, a inércia daquele... Inês encolhe-se no desconforto da cadeira de madeira e, abstraindo-se da realidade dos dias que correm, imagina-se a trabalhar no departamento de formação de uma qualquer empresa. Ali fica, envolvida em sonhos, um quarto de hora quando sobressaltada se apercebe que lhe perguntam as horas. O interpelador era o leitor compenetrado daquele livro que já vira melhores dias...
13:50... Quase sem se aperceber o tempo passara. Tinha que regressar ao trabalho... sem a esperança de melhores dias!
Inês é uma, entre muitas, das pessoas que neste país se debatem com a insatisfação profissional, sem conseguir antever um rasgo de luz. Não fosse o reconfortante carinho de amigos e familiares a sua vida seria simplesmente frustrante. Assim... é no amor, na amizade, na verdade e na lealdade que encontra o mote dos seus dias! Talvez por isso se considere afortunada...
Diz-se que o país está em crise económica... mas a ela parece-lhe que a crise vai além disso. Foi acompanhada por este pensamento que alcançou a porta do prédio onde trabalha... e bem a tempo de ver o Dr. Carlos afastar o olhar de uma criança, suja e esfomeada, que se lhe dirigiu.
No seu silêncio descontente insurgiu-se perante semelhante atitude. Sem coragem de subir as escadas e, também ela, ignorar o tímido pedido da menina perguntou-lhe:
- Tens fome?
- Tenho... hoje só comi uma sopa que o senhor do “Tacho” me deu.
Entraram as duas no café que ficava ali mesmo ao lado. Era cliente habitual daquele pequenino estabelecimento e o Sr. João quando a viu sorriu...
- Não diga mais nada... que eu já sei o que me vai pedir.
- Obrigada, Sr. João. Eu ás seis pago-lhe.
- Vá descansada.
Um sorriso espontâneo abeirou-se dos seus lábios enquanto subiu apressadamente as escadas. Estava atrasada cinco minutos mas feliz...
A crise económica não explica a frigidez do coração nem o latente egoísmo de algumas, demasiadas, pessoas!

sábado, abril 09, 2005

73. "Só o amor é real"
Brian L. Weiss



A “primeira” vez que te vi foi no aeroporto de Lisboa. Faltavam trinta minutos para embarcar, rumo a um destino onde poderia finalmente descansar, e esquecer o projecto fracassado devido à incompetência do gestor de marketing.
Trazias contigo um pequeno volume, embrulhado num bonito papel com sorridentes ursinhos. A forma cuidadosa com que o seguravas enternecer-me. Na altura, recordo-me, imaginei-te no papel de pai. Inconscientemente, soube que serias, um daqueles, atento, amigo, carinhoso, paciente... dedicado! Simpatizei contigo.
Demasiado embrenhada nestas deambulações mentais não me apercebi que a diminuta carteira que trazia comigo escorregara colo para o chão. Recolheste-a. Encontrei o teu olhar e senti-me como se tivesse sofrido uma descarga eléctrica. Agradeci. Procurei sem querer uma aliança na tua mão esquerda, que não encontrei. Sorri e observei-te a caminhar em direcção ás portas de embarque.
Pensava que “nunca mais” te veria mas isso não me incomodava. Talvez soubesse que numa outra vida nos acabaríamos por encontrar. Não foi preciso esperar tanto. Quis o destino que o nosso avião fosse o mesmo e determinou a sorte que o teu lugar fosse junto ao meu. Foi deste modo que me foi possível saber que ias visitar a tua irmã. O Gonçalo tinha nascido há uma semana.
Como qualquer tio “babado” não resistiras a pedir alguns dias de férias. Confessaste-me que te pesava a consciência porque deixaras a meio um qualquer relatório.
A ansiedade dominava o teu espírito. Em breve irias conhecer o teu primeiro sobrinho. Ficarias “uma semana” em Nice. Eu também. Eu regressaria no Domingo e tu no Sábado. Não trocámos números de telefone e nada previa que nos voltássemos a cruzar. Qual não foi o meu espanto quando te vi, naquele Domingo, junto à zona de “check-in”. Tinhas adiado a tua viagem de regresso um dia e timidamente confessaste que tinha sido por mim.
O contacto manteve-se. Uma sólida amizade nasceu e quando nenhum dos dois conseguia já negar o inegável... dez meses depois da viagem a terras francófonas, pediste-me para casar contigo. Aceitei.
Hoje, doze anos depois, quatro desde que percebi a razão daquela intrigante sensação de sempre te ter conhecido, voltei a ler o livro que me permitiu compreender. “Só o amor é real”, escrito por Brian L. Weiss, recordas-te?! Não teria sido necessário lê-lo para saber que sempre estivemos destinados a partilhar a vida mas ajudou-me a decifrar o elo inquebrável que nos une.
Ás vezes, perguntas-me se sou feliz. Muito, respondo. Tanto que não existem palavras que possam descrever a dimensão desta felicidade.
Sabes... mais do que na vida, acredito no poder do amor e nos desígnios do destino.
Creio que nunca te disse, mas antes de te conhecer inúmeras vezes me questionava como seria amar alguém ou encontrar aquela que seria a minha alma gémea. Sentia-me como se estivesse, pacientemente, à espera... Conscientemente, não sabia do quê ou de quem. No entanto, algures nas entranhas do meu ser sei que era por ti que aguardava... O complemento mágico da minha essência estava em ti.
Porque te escrevo esta carta, querido?! Porque por mais que te repita que te amo nunca serão as vezes suficientes para retratar o amor que te tenho!

Amo-te! Hoje mais do que ontem... menos do que amanhã!

Com amor,

Ana


Ana tem hoje 44 anos, mais de metade da sua vida dedicou-a a estudar e trabalhar. Até conhecer João não tinha outra motivação que não fosse ter uma confortável estabilidade económica. Os dias eram incrivelmente vazios e desprovidos de emoção. Aos 31 anos apaixonou-se por ele, quatro anos mais velho e tão “workaholic” como ela. Juntos descobriram a magia e o poder do amor, delinearam um novo projecto de vida e descobriram que é possível ser-se, verdadeiramente, feliz.
O que é verdade?! O que é mentira!? Só o amor que os une é real!
Têm um filho de oito anos. Um menino a quem se dedicam com um amor infinito. Idealizam e concretizam cada dia como se fosse parte integrante de um sonho... e têm no livro de Brian L. Weiss a “prova” de que os seus passos estão eternamente unidos.
Ana e João ousaram ouvir a voz do coração!

quarta-feira, abril 06, 2005

72. Reflexão matutina




O funcionário camarário lava a rua e os passeios enquanto a empregada do pequeno quiosque vai servindo cafés aos matutinos clientes.
O céu está nublado e o ar húmido. Será Outono?! Não! O calendário não deixa margem para dúvidas. A Primavera sucedeu ao Inverno há cerca de duas semanas e faz-nos sonhar com o resplendor da natureza.
A música popular é emitida pelo pequeno rádio. A sorridente senhora que, entre simpáticos comentários, presenteia os clientes com os “bons-dias” sintonizou-o, há momentos, ao acaso.

O edifício imponente do pavilhão Atlântico assemelha-se a um cogumelo gigante e da enchente humana que assaltou o seu recinto não resta o menor indício. Os degraus de que o envolvem estão impecavelmente limpos.

Diariamente deparamo-nos com inúmeras notícias que retratam uma Lisboa suja, repleta de estradas com pavimento irregular e “esburacado”, passeios convertidos em parque de estacionamento ou casa de banho da espécie canina e ambientes tão decadentes que é com prazer que, nesta hora, se contempla o ambiente que nos rodeia.

Na esplanada as mesas estão dispostas de forma geométrica e algumas foram ocupadas por pessoas que trabalham nas imediações. As conversas são mantidas num tom controlado. Um ou outro veículo passa a baixa velocidade na estrada que nos separa da imponente construção, em tempos designada por pavilhão Multiusos.

Comparar este “recanto alfacinha” com outros da cidade é impossível, na medida em que seria injusto e tendencioso. Como confrontar o reboliço de Picoas, da baixa pombalina, ou até de Alvalade com o quotidiano semanal do espaço da antiga Expo 98?! É verdade que, durante o fim-de-semana, é assaltada por forasteiros. Incontestável que depois do pôr-do-sol, naquela hora em que o “lusco-fusco” antecipa a nostalgia da noite, muitos são os que aqui se refugiam. No entanto, nesta altura do ano e durante o dia (leia-se... desde a alvorada até ao anoitecer) a calma é uma constante.
Os tímidos raios solares que possam espreitar os nossos passos não são, ainda, suficientemente persuasivos para nos confrontarem com o aglomerado de pessoas que, por altura do Verão, já se tornou num frequentador assíduo.
A propósito destas deambulações pelo Parque das Nações, nada me apraz mais do que, nas manhãs de Sábado ou Domingo, de bicicleta em punho e pés nos pedais, percorrer os trilhos que por aqui foram construídos. Mas... Há sempre um “mas...”! Nada me parece mais vil do que ver pais a arrastar os filhos em berraria, pelos mesmos passeios, rumo ao “Vasco da Gama”, numa daquelas tardes em que o tempo que se impõe exige algo mais que centros comerciais. Pudesse eu sugerir um outro programa e decerto nomearia uma descontraída caminhada pela praia, um refrescante jardim e muitas brincadeiras à mistura.
Será falta de imaginação? Questiono... Terei sido a única a verificar que as crianças portuguesas já não sorriem como outrora?! Duvido!
Não será um comodismo egoísta o sujeitar dos mais pequeninos a um ambiente de stress e comida de “plástico”?

Coloco a hipótese das opções seguidas se basearem em factores económicos. Surge a questão: O custo de uma pequena viagem até à praia será maior do que aquele que está inerente à visita a um espaço onde proliferam os apelos ao consumismo?!

Poderei estar a analisar incorrectamente as motivações que determinam o comportamento das referidas famílias e a ser injusta. Quero acreditar que sim.
Talvez seja uma perspectiva baseada num reflexo da minha atitude pessoal. Não resisto a entrar no nomeado centro comercial sem realizar uma, exaustiva, expedição pelas lojas do costume... normalmente, as que comercializam jornais, livros, material informático, música e brinquedos. No entanto, tenho como “dito e certo” que um dia solarengo é sinónimo de um bela caminhada pedestre ou uma visita à praia. Acompanhada de uma garrafa de água, duas ou três barras de cereais e meia dúzia de euros tudo é possível. Despendioso?! Nem por isso, basta ser-se ponderado.

Releio a reflexão que aqui se apresenta. Confronto a minha tarde ideal com a daqueles seres que preferem o stress de uma multidão à descontracção da visão do mar... Mais uma vez, não me é possível compreender a opção!


Sugestão para os pais que por aqui passarem:

Se não são adeptos da praia ou o tempo não os seduzir, em Lisboa e não só, existem inúmeros jardins e parques infantis onde as crianças poderão dar azo ás suas brincadeiras sem estar sujeitas a ambientes pouco saudáveis.

A DECO divulgou, na edição de Abril da revista Proteste, um estudo sobre a segurança dos parques infantis que indica quais os locais a evitar e aqueles onde a segurança impera. Lamentavelmente, o estudo apenas está disponível online para associados.

Se desejar mais informações ou tornar-se sócio da DECO visitar o Site.


Ambientes e actividades saudáveis para as nossas crianças? Sempre!

sexta-feira, abril 01, 2005

71. Concurso Literário:
"Por um Portugal mais letrado"



O dia avança. A tarde é atirada para o passado e de entre “nenhures” chega a notícia. Solene, polémica, inserida a pretexto de nada, mas tão perspicaz como a selecção de Santana Lopes por Durão Barroso, quando imperava a necessidade de demonstrar, ao povo português, que havia quem pior governasse. Mas isso são águas passadas. O tempo é outro. Sócrates “encabeça” o governo e o estado de graça, ainda, é uma realidade.
Os media envolvem-se num assolapado unanimismo. Nada de novo. Tudo é previsível, monótono e deprimente. Com estupefacção, olhamos o jornal diário, prostrado em cima da velha mesa de carvalho. Em letras garrafais, é anunciada a última medida proposta pelo governo, no sentido de combater a iletracia.

O Ministério da Cultura promove até Maio um concurso literário sob o lema “Por um Portugal mais letrado”. A iniciativa está aberta a todos os portugueses, residentes ou não em território nacional, que tenham entre 16 e 35 anos. Os participantes terão que entregar os textos, sob a forma de conto e tema livre, até ao dia 31 de Maio.
Cinco mil é o limite máximo de palavras a utilizar. Cinquenta o número de textos a seleccionar para serem reunidos numa edição a distribuir gratuitamente pelo país.
O prémio, esse é meramente simbólico. Para os três primeiros lugares está previsto que não ultrapasse os 2500 euros.

Dirão os mais críticos que a iniciativa apenas contribuirá para gastar o dinheiro dos contribuintes. No entanto, para outros, talvez uma minoria, o empreendimento proposto poderá sensibilizar a população para a problemática envolvente à iletracia, e até motivá-la para a leitura e escrita.

...a ver vamos!

quarta-feira, março 30, 2005

70. Quatro meses de blogoesfera...



Quatro meses de blogoesfera permitiram o alargar dos horizontes e redescobrir o prazer de escrever assiduamente.
Todos os dias, quatro, cinco, seis horas são dedicadas a preparar textos, a ler a amiga “concorrência” e a deixar, aqui e ali, uma opinião que se pretende pessoal e intransmissível.

Da curta história do blogue Exercícios de Escrita poder-se-à revelar que teve uma primeira e breve edição alojada no blogs.sapo.pt, não divulgada nos motores de pesquisa e, portanto, tão anónima como o são os sonhos que não se ousam sonhar.

A 30 de Novembro de 2004, seis meses depois da primeira tentativa se ter revelado infrutífera e insatisfatória, surge online a versão actual, alojada no Blogger.
A determinação imperou, desta vez.
Das muitas leituras sobre linguagem HTML e edição de blogues adquiriram-se os saberes necessários para alterar um ou outro aspecto da template inicial e melhorar o formato.
Com formação na área do ensino, mais especificamente ao nível da educação visual e tecnológica, os conhecimentos de informática e programação eram manifestamente insuficientes.
Descobrir como inserir um link, um contador de visitas ou formatar o texto para que se aparecesse justificado ou centrado ilustrando-o uma imagem, foi uma aventura.

Em Dezembro, o primeiro link para o EE surgiu no Desordem Pública.
Outros se seguiram... Exacto, Nómadas Perdidos, Tá de Noite, Mug Music, A Bordo, Rua da Judiaria, Eelko Van Mulder, Tribulandia, Estradas Perdidas, Lobices, Escrita, O Culto da Ostra, Garfiar, George Cassiel, Os (In)separáveis, Palavra Imagem, Seita da Luz, Paz Kardo, Palavras Perdidas, Levithan, Graças a Deus Sou Ateu!, CarlosFranquinho.com, Pantalassa, Acrescenta Um Ponto, Eco da Minha Voz...

(Seria injusto não referir outros blogues onde o EE e a autora foram mencionados como foi o caso d' O Meu Caderno, do Sorumbático, ou ainda do Escrita Solta...)

Actualmente, a chegar aos nove mil acessos, começa a ser conhecido. O trabalho é muito mas como diz o povo português “quem corre por gosto não cansa”.

Da autora, muito pouco haverá a revelar. É uma das muitas figuras anónimas que nestas lides se movimentam. Registrada, no seu percurso, fica a incursão esporádica na pintura, ilustração e na escrita. Actividades desenvolvidas a título de hobbie com o sabor adocicado de algo mais do que isso.

O certo é que, dos prematuros meses de vida do seu cantinho da blogoesfera, muitos são os aspectos positivos que ficam impressos na memória: o divulgar dos textos que escreve, a perspectiva de vir a colaborar num jornal, o travar conhecimento com pessoas que admira e com outras que anónimas lhe merecem o mesmo destaque. Para além disso, fica a possibilidade de dar voz à alma e ao sonho... de escrever.

Tudo isto só tem sido possível porque desse lado, há alguém que dedica meia dúzia de minutos a ler o que aqui se vai publicando. Assim sendo, agradece-se a todos quantos visitaram o Exercícios de Escrita, tenham ou não revelado, através dos comentários, a sua opinião.

Até breve... até amanhã!

terça-feira, março 29, 2005

69. Passado ou presente?!


Luiz Carvalho, fotojornalista do semanário Expresso

"Histórias tristes de crianças abandonadas à porta das igrejas", é um título descritivo de uma realidade que se nos afigura representativa do que ocorria, em Portugal, no século XVI ou, mais tarde, no início do século XIX. Poderá induzir-nos em erro se a nossa análise do tema for baseada, apenas, na época em que na sociedade portuguesa existiam as chamadas Casa da Roda. Mas, na verdade, este é o alerta que há uma semana foi divulgado na primeira página do jornal A Capital. Em detrimento das lides políticas e económicas o destaque era este. Louvável, sem dúvida.
Num primeiro impacto recusamos admitir que, hoje, se mantenha tal prática. Aparentemente, longe vão os dias em que, sob o jugo da pobreza e valores morais distintos, havia quem a braços com uma criança (in)desejada a abandonasse a melhor sorte, à porta de uma igreja ou Casa da Roda. No entanto, através do que nos é dado a conhecer pela jornalista Susana Dutra, este tipo de ocorrência, ainda que não seja comum, faz parte dos tempos contemporâneos. Alguns exemplos aparecem retratados nas singelas páginas da referida edição

Da leitura atenta surge a necessidade de reflectir sobre o que está inerente a semelhante acto. Aponta-se, como o mais provável mote, a necessidade de, quem o pratica, saber que a criança será facilmente encontrada e encaminhada, quiçá, para uma família que a trate bem e lhe garanta um melhor futuro.
Uma atitude muito diferente daquela que leva a que outras sejam encontradas em caixotes do lixo, lixeiras, descampados, afogadas num qualquer ribeiro das redondezas, ou em qualquer outro local que de tão inóspito lhes dita a morte, num ínfimo espaço de tempo.

Outra informação revelada é o facto de que "o Estado quebra o elo com as pessoas que encontram as crianças, abrindo um processo para apurar as circunstâncias familiares e definir o projecto de vida". Muitos são os casos em que essas mesmas pessoas manifestam o desejo de adoptar as crianças. De um ponto de vista moral, deveria ser averiguada essa possibilidade.

Mais de 15500 crianças e jovens estão, actualmente, sob a alçada de centros de acolhimento. Cerca de 70 % não voltarão à família biológica, nem serão encaminhados para um lar de substituição. A polémica foi instaurada, há algumas semanas, pelos jornais nacionais e, de algum modo, leva-nos a questionar as políticas sociais que têm sido seguidas.

Há muitos anos, também, em Castelo Branco uma criança foi abandonada no Hospital Amato Lusitano. A consternação foi geral. Várias famílias locais manifestaram a intenção de perfilhar o bebé do sexo feminino. Curiosamente, o que é dado como impossível, foi possível. Um casal de enfermeiros conseguiu fazer valer a sua determinação. Adoptou a menina. Hoje, a jovem tem uma vida estável, num meio familiar onde o equilíbrio e o amor são uma constante. Dos contornos deste episódio da vida real pouco se recorda. O importante é que uma vida foi devidamente encaminhada, não para um centro de acolhimento mas para um lar onde conseguiu ter um real "projecto de vida". Foi-lhe assegurada a perspectiva de abraçar um "amanhã" distinto daquele que tantos (demasiados!) antevêem.

Deste apontamento d’A Capital fica, mais do que a referência a uma realidade que muitos (des)conhecem, a sensibilização para uma questão social que nos afecta a todos. Os níveis de pobreza, a iliteracia, os frágeis valores morais, o desemprego, o elevado custo de vida, os precários apoios do estado... e muitos outros factos traduzidos numa acentuada instabilidade política, económica e social, castram a população portuguesa e fomentam actos como este. Condenáveis. O reparo fica, assim, denunciado!

sexta-feira, março 25, 2005

68. Páscoa



Páscoa...

É tempo de regressar a "casa" e ao aconchego dos (a)braços familiares, de esquecer a labuta diária e ser apenas a filha, a neta, a sobrinha, a prima.
Relembro horas de outros anos, momentos guardados num qualquer recanto da mente e do coração, que me levam a reviver o passado.

Recupero a exuberância humilde das festas da aldeia, onde todos tinham entre si um qualquer elo. Recordo as romarias dos primos e tios que, de casa em casa, lá iam saboreando os petiscos e o vinho, produto da última colheita. Registada também está, a correria da pequenada que amontoava, nos bolsos, amêndoas e ovos de chocolate.

No largo do chafariz a animação era da responsabilidade de um acordionista, filho de uma povoação vizinha. Afinados ou não, os acordes da música popular inebriavam quem por ali passasse.
A um canto, junto ao bar improvisado com tábuas e bidões, lá estava a velhinha aparelhagem que reproduzia os lendários discos de vinil. A magia, daqueles instantes que duravam tantos dias quantos durasse a Páscoa, era palpável.
As ruas decoradas com bandeirinhas multicolores, de papel de seda, e lâmpadas que dias antes tinham sido pintadas para o efeito, criavam uma atmosfera que de tão alegre ninguém ousava um ar mais sisudo.
Vestiam-se os melhores fatos. Exibiam-se os novíssimos chapéus e na lapela do casaco não faltava a pequenina flor, cor-de-rosa, que um dos "festeiros" teria vendido.
O certo é que, não se falava de férias em paragens paradisíacas nem famílias separadas por milhares de quilómetros... era, afinal, mais um momento partilhado na companhia dos entes mais queridos.

Será para estes, outros, dias que me sentirei volver ao entrar no comboio, de regresso a "casa"!

Boa Páscoa!

quinta-feira, março 24, 2005

67. Hoje, os tempos são outros.




Há uns anos, se via um polícia sentia-me protegida, se olhava para o professor o respeito e a admiração imperavam... Ao esbarrar com alguém sucedia-se um pedido de desculpas, por vezes, até um sorriso... Se alguém por um azar caía na calçada, rapidamente, era ajudado por quem ali passasse. Impensável entrar num estabelecimento sem dizer bom dia.

Hoje, os tempos são outros.

Assassinam-se polícias, agridem-se professores, ignoram-se os semelhantes e até se esquece do que é, afinal, ter educação.

Como referi, hoje os tempos são outros... de dor e de revolta! Pelo menos para quem, ainda, mantém a sua genuína essência imune à indecência da perda total do respeito pelo próximo!

...e é com estas palavras que se assemelham a um grito surdo na calada da noite que deixo registado um apelo... singelo ou não, a que se procure ser mais que alguém... humano e justo! Se combata a ignorância, a maledicência, a hipocrisia e se contribua para um Portugal mais seguro.

Se para isso for necessário impedir a entrada de estrangeiros (imigrantes); ou reduzir as férias judiciais; ou aumentar impostos; ou rever leis; ou elevar o número de activos da polícia; ou adaptar no sistema de ensino novas componentes curriculares, até de estabelecer o décimo segundo ano como ensino obrigatório; ou por incrementar um plano de formação para mão-de-obra não especializada; ou criar políticas de incentivo às empresas para fomentar emprego; ou... pois que seja feito!!

terça-feira, março 22, 2005

66. As pegadas do Sonho




Na bruma da manhã
Enquanto caminho,
Nesta busca incerta do amanhã,
Encontro-te sentado na areia húmida.
Lanço-te um olhar perdido em carinho,
Um sorriso enlevado,
E murmuro-te a confissão de uma vida!

Quem és?!
A ironia de um retracto renegado,
Que carrego nas entranhas...
Sem te dar forma física...
Ou um rosto, um nome!

Ilusões tamanhas,
As que me fazem renascer,
A cada despertar da aurora,
E ter da vida fome!
Fome de mim, de ti...
De nós numa junção plena do ser.

As pegadas ficam desenhadas na praia.
Segues-me...
Persegues-me...
Enquanto me pergunto se não deveria ser eu a vigiar-te...

Afinal... sou eu a possuir o sonho...
Ou é o sonho que me possui?!

sábado, março 19, 2005

65. Pai!




Rodopio a caneta entre os dedos enquanto procuro as palavras adequadas.
Estou num café, em frente a casa, que a esta hora está quase vazio. A inércia do momento leva-me a abstrair da cidade, bela e sufocante, e a flutuar no tempo.

Em tempos idos, de menina, eras como os ídolos que os meus amigos tinham... actores, músicos, modelos.
Passaram tantos anos. A infância já lá vai. A adolescência também. A idade adulta há muito que a conheço e, ainda assim, continuo a reservar-te um cantinho especial no meu coração... como sempre o farei.

Há quatro anos e meio, numa ironia do destino, foi-te diagnosticada uma doença rara. Senti-te a fugir de mim. Foram os momentos mais difíceis e, aqueles, que me provocam uma comoção tal que se não sinto o calor das lágrimas a fustigar-me o rosto é porque te sei “tão bem quanto possível”.
Foi nessa altura que de ídolo te transformaste em herói. Travaste uma árdua batalha com a rainha das trevas e, ainda que não o admitas, sei que o fizeste por mim, pela mãe, pela mana, mais do que por ti.

A sensatez das tuas palavras, o carinho nelas contido, o amor que sinto desprender-se do teu olhar... tudo isto me atinge e faz dizer-te que não é preciso um dia demarcado no calendário para que, com amor, me recorde de ti.

Trinta primaveras se passaram desde que me permitiste vislumbrar a luz do sol. Quatro anos e meio decorreram desde o dia em que te vi consumido pela dor, no hospital. O mesmo, em que quis gritar e só o eco do silêncio brotou dos meus lábios. Foi naquele quarto impessoal, rodeado de máquinas que não identificava, de tubos que me agrediam os olhos, que uma só verdade dominava o meu ser: Gosto de mais de ti para te perder!

Rezei com fé. Chorei com desespero quando não vias e, desde então, cada dia em que te vejo caminhar, sorrir ou abraçar o teu neto, o meu sobrinho, é uma vitória... uma alegria sem fim!

Por tudo o que és. Por tudo o que me fizeste ser. Apenas te posso dizer: Obrigado, Pai!

sexta-feira, março 18, 2005

64. Máscaras da (in)diferença



No restaurante apinhado ouve-se um murmúrio abafado de vozes enquanto os teus dedos tremem. É tempo de confissões e revelações. Bebo as tuas palavras e estremeço ante a dor que delas trespassa.
A realidade cruel inerente à tua condição de ser diferente acerca-se de mim. Por ti e em ti procuro compreender, esvair-me da conservadora educação recebida, e abrir a mente.

Gosto da tua voz mansa, da doçura do teu olhar, do pensamento sincero e carregado de emoção e, na verdade, mais do que tudo isso, da amizade que nos une.

Respeito-te! Admiro a tua personalidade equilibrada e a forma distinta com que impões, discretamente, a tua presença afável.

Deixarás de ser quem és por seres diferente?! Será imerecida a consideração que te tenho só porque a vida te traçou um destino que não corresponde à norma?

Corta-me o coração ouvir-te dizer que manterás a máscara... quando te pergunto se terás coragem de te condicionar ao que não és e casar com a Marta.
Uma nova questão é formulada: Serás feliz? Não respondas! Eu sei a resposta que pronunciarás.

Chamas-lhe disfunção hormonal... Concordo contigo, envergonhada pela junção de ideias distorcidas a que recorre a sociedade para a explicar e, pior, para a marginalizar.

Respiras, amas... sentes como eu! O teu sangue também é vermelho e, também, o teu coração bate (des)compassado...

Nasci mulher. Tu, por um acaso da natureza, homem....

Olho o teu rosto bonito e pressinto o bloqueio que te impões... essa rejeição ao que és a corromper-te os dias e nada mais te posso pedir que não seja gostares de ti. Como eu gosto. Como os teus pais... como todos gostamos!

Na diversidade, igual a nós e a todos aqueles que subjugados ao preconceito se recusariam a reconhecer-te por detrás do artefacto castrador! Vejo-te para além dele. Aceito-te sob o jugo desta amizade sincera e inocente, como o são aquelas pueris que temos na infância.

Dir-te-ía mais. Anseio pelo dia em que te ames o suficiente para não chamar à tua individualidade anormalidade. Ou, por um outro em que, aqueles que te rodeiam, te compreendam o suficiente para te aceitarem.

Afirmar que és uma pessoa muito especial será pouco. Confessar-te o carinho que te dedico, sem te referir a amizade que me leva a desejar-te toda a felicidade do mundo, seja partilhada com a Marta ou com o João, também o seria.
Por tudo. Por nada. Pelo que és. Pelo que sou. Quero que sejas, apenas, Feliz!

Todas estas palavras que, agora, escrevo, no fim de uma tarde solarenga de Março, enquanto o comboio desliza sobre os carris escuros... tão escuros como a mente da sociedade... são a minha forma de apelar a valores mais altos... o amor e o respeito!

A homossexualidade poderá até ser atípica à condição da sexualidade humana... mas nem por isso terá que ser sinónimo de segregação, marginalização e total ausência de respeito.

Homossexual ou não... Alguém! Humano! Amigo!

A máscara da (in)diferença é um fardo injusto e pesado de mais...

Como te disse:
Nasci mulher. Tu, por um acaso da natureza, homem....
Por tudo. Por nada. Pelo que és. Pelo que sou. Quero que sejas, apenas, Feliz!

quarta-feira, março 16, 2005

63. Polémica
(do grego Polimiké)



Num qualquer dicionário, o substantivo feminino polémica é definido como discussão na imprensa; controvérsia; disputa amigável mas acalorada. A palavra tem origem na grega polemiké, que significa guerreiro.

Polémicas há muitas e para todos os gostos. Para uns será, o facto da Hepatite C matar mais do que a Sida, a recém questão da comercialização de fármacos brancos em pontos de venda não especializados, ou a elevada percentagem de crianças obesas em Portugal. Para outros será, a justiça não possuir provas contundentes para acusar a mãe de Joana, ou o elevado número de jornalistas que, em 2004, faleceram no exercício das suas funções. Cinquenta e seis, para se ser mais exacto.
Ainda haverá quem refira o regresso de Santana Lopes à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, as recentes acusações a Mourinho, que de ídolo passou a persona non grata, ou o iminente aumento da electricidade, a partir de Abril, prevendo-se que o preço seja incrementado entre 5,6% a 9,8%.
Certamente que, existem pessoas a mencionar, os ataques do Vaticano a Dan Brown e ao seu livro "O Código de Da Vinci", o massacre de focas no Canadá ou a ausência de neve no monte Quilimanjaro, nunca constatada nos últimos 11 mil anos.

Polémicas há muitas... e para todos os gostos. Mas a maior será, talvez, a situação de descontentamento, instabilidade e crise detectada em Portugal. É este o tema que domina a imprensa, gera debates acalorados nos cafés, jardins ou pátios e que leva o mais calmo dos portugueses a ficar apreensivo enquanto tenta prever o futuro.

Polémicas há muitas e para todos os gostos. Não fossem tantas e tão negativas que a palavra não teria uma conotação tão pejorativa. Diria mesmo... Tenebrosa!

Polémicas!

terça-feira, março 15, 2005

62. Percursos Pedestres:
Esta Lisboa que eu amo

Elevador da Bica

A meia dúzia de dias do início da Primavera, o sol convida-nos a sair de casa e a percorrer os trilhos de um qualquer percurso, citadino ou não. É altura de voltar a calçar as botas ou os, velhinhos e confortáveis, ténis.

O pedrestianismo, também conhecido por caminhadas ou percursos pedestres, é uma modalidade que conta, cada vez mais, com um número considerável de adeptos. Para o comprovar basta estar presente nas iniciativas promovidas pela “Rotas do Vento” ou pela “Sal”. Em média serão grupos superiores a 15 caminheiros.
A 25 de Abril de 2004 a Sal, empresa de ecoturismo e formação outdoor, dinamizou uma caminhada guiada em que participaram mais de 100 pessoas. Marmitas de Gigante, um percurso pela serra da Arrábida, foi o desafio lançado. Quem por lá “palmilhou”, os 16 quilómetros, subidas e descidas acentuadas, diz que a paisagem fascinante valeu o esforço. E valeu!

No próximo Sábado, dia 19 de Março, será a vez de Esta Lisboa que eu amo. A distância a percorrer será reduzida, 5 km, mas permitirá aos caminheiros voltar a redescobrir o Bairro Alto e a Bica, bairros antigos cujo esplendor não está perdido. Para o confirmar será suficiente olhar com olhos de ver e caminhar. A beleza de outrora está lá. Em cada ruela, beco ou calçada, nas ombreiras das portas, nos parapeitos das janelas, nas fachadas das casas, em que na azáfama dos dias não reparamos. Os jardins podem ter sido esquecidos pelos homens e ser apenas frequentados pelos pombos mas continuam à espera da nossa presença. A oportunidade surge agora, na forma de um passeio numa manhã de Sábado.

A sugestão fica...

Quem vier, será bem-vindo!

Organização: SAL
Data: Sábado, 19 de Março de 2005
Local: Lisboa (Bairro Alto e Bica)
Encontro: 10:00h, Avenida da Liberdade, junto ao elevador da Glória (Palácio Foz, Restauradores).
Duração: 3 horas
Distância: 5 Km
Subidas e descidas: Várias
Dificuldade: Média
Preço: 5 euros
Observações: Aconselha-se a levar uma garrafa de água. Barras de cereais também poderão ser úteis. O calçado e a roupa deverão ser confortáveis.

segunda-feira, março 14, 2005

61. Música de outros tempos



O som dos Beatles invade o café...
Pedro, de olhos semicerrados, é envolvido por uma nostalgia que não admite e não percebe. Aquela música, desde há muitos anos, que o recorda de Ana. Pouco importam os muitos dias que tenham decorrido, desde a última vez que a viu, a imagem dela continua demasiado presente para que a ignore. No entanto contam-se, pelos dedos da sua mão, as vezes que de facto a vira.

O passado ressurge... na forma abstracta de um relampejar da memória.

Os seus pais possuíam, na altura, um pequeno café na Sobreda da Caparica. Era frequente ir ajudá-los, depois das aulas ou nas férias.
No Verão longínquo de 1990, valiam-lhe as visitas dos amigos para animarem as suas tardes. A Sobreda, apesar de ficar perto da praia, não era assaltada pelos veraneantes e os clientes eram os de sempre. Até que num fim de tarde, quando o sol se preparava para dar lugar à lua, lá estava ela... sentada numa das mesas, acompanhada por outra rapariga. Talvez uma amiga. Supusera, naquele instante.

Pedro recorda-lhe a voz doce, o riso cristalino, os caracóis ondulantes, os gestos femininos... a graça de uma menina que começa a ser mulher. Cativara-o, a ele que, aos 17 anos, só pensava em futebol e praia.
A uma primeira troca de olhares sucederam-se outras. Os dias decorreram...
Soubera, entretanto, que a amiga era, afinal, a irmã. Disse-lho a mãe.

Sorri... perdido no enredo com que a mente o brinda.

Sempre que Ana se aproximava parecia que as palavras o abandonavam e isso incomodava-o. A verdade é que, gostaria de ter falado descontraidamente com ela, como a mãe... mas o bater descompassado do coração impedira-o.
Estava apaixonado. Essa era a realidade e tudo em si o havia denunciado. Perguntou-se se haveria alguém que não o tivesse percebido.
Os pais mal a viam chegar trocavam olhares cúmplices enquanto lhe diziam para ir ver o que as meninas queriam. Como se ele não soubesse... Dois cafés e uma água do Alardo. Nunca chegou a perceber porque tinha, ela, a fixação por aquela água... actualmente quase fora do mercado português, por causa de uma qualquer contaminação detectada há 6 ou 7 anos.

Passaram-se treze dias... Chegou o décimo quarto e aquele em que, finalmente, conseguiu reunir a coragem suficiente para pronunciar mais que duas palavras... Convidou-a para beber outro café, quando ele saísse...
Ana sorrira. O rosto levemente ruborizado denunciava que o convite dele a afectara de algum modo. Ao contrário do que esperava, recusou-o e murmurou, timidamente, um adeus quase inaudível.
Emoções tumultuosas assaltaram-no enquanto a observou a subir a rua, rumo a uma casa que ele não sabia onde ficava. Sentira-se ferido... rejeitado.

O pior estava para vir...

Os dias que se seguiram passou-os numa ansiedade tal que beirava a obsessão e, em vão tentara descobrir quem era Ana. Ela esfumara-se como se fosse um fantasma. Ou um sonho. Ou uma miragem...

Adeus... – o eco da sua voz ainda ressoava dentro dele.

Nunca mais a vira desde aquele dia em que, ao som de uma melodia dos Beatles, lhe lançara um último olhar... no entanto a imagem dela em nenhum momento o abandonou.

Continuar a recordar tudo isto... parece-lhe uma infantilidade. Passaram-se 15 anos. Provavelmente estará casada e terá, um ou dois, filhos.
Por vezes, tenta imaginá-la envelhecida e sem aquela aura que a tornava tão distinta e bela. O esforço é infrutífero. A sua mente apenas lhe devolve o desenho de traços suaves e um sorriso que...

Onde andará Ana?

Talvez tão perto dele que se o soubesse estremecesse...

Talvez.... a escassos quilómetros, a recordar-se dele, uma vez ou outra, no silêncio de uma casa que só ela habita. Quantas vezes se terá perguntado, como ele, porquê relembrar aqueles, breves, quinze dias de férias... Ou porquê continuar, a folhear as páginas amarelas de uma qualquer lista, à procura de um número de telefone que nunca marcaria... mas que gostava de conhecer... como se isso lhe provasse que aqueles momentos tinham sido realidade.
Que diria Pedro se soubesse que Ana voltou à Sobreda mas não teve coragem de procurar por ele... não fosse a magia daqueles instantes, inocentes e únicos, se desvanecer.
Na verdade... seria desconcertaste se descobrissem que, no mais profundo das suas essências, aquele quinhão do passado tinha sido bem mais do que uma troca de olhares, entre dois adolescentes.

Mas que sei eu...?! Ana e Pedro, são criações da imaginação enquanto ouço Beatles... sentada num dos aconchegantes cadeirões do Cup&Cino.
Saboreio um “Triestino” e o aroma do café recorda-me, com alguma nostalgia, um outro Pedro... ou João... ou Nuno...ou seja lá o nome que tiver! Um outro alguém, que terá cursado o rumo dos seus dias num efémero segundo da minha vida e, do qual há muito não sei o paradeiro... por nem sequer me recordar onde fica o café onde estarrecida contemplava o seu sorriso...

Pouso a caneta durante uma breve fracção de segundos... O empregado aproxima-se...

Será que têm água do Alardo?!

Sorrio...

sexta-feira, março 11, 2005

60. 11 de Março de 2004



Antonio Delgado tem 41 anos, é casado e tem um filho de onze. A passada com que percorre os trilhos da vida é serena, mas a alegria de outrora foi substituída pelo peso da lembrança.
Daquele dia recorda, com pesar e horror, o sangue e o infortúnio de todos aqueles que, inesperadamente, se viram na hora e lugar errados. Nada se esquece ou desvanece...

Um ano... Um, longo e curto, ano passou.

El Pozo del Tío Raimundo é mais que uma estação! É um monumento à memória de pessoas que, inocentemente, padeceram subjugadas à mão criminosa... assassina, de mentes perturbadas. Fanatismo atroz este, que leva a que se atente contra a vida.

António sobreviveu e, ainda que não tenha transformado os seus dias num inconsolável lamuriar, as recordações, as emoções e os sentimentos não se esbatem no tempo.
Este sevilhano de face sisuda foi uma das pessoas que se viu envolvida no tenebroso atentado, de 11 de Março de 2004, em Espanha... O maquinista de um dos fatídicos comboios.

"Olhando pelo espelho, pareciam bonecos e eram pessoas..." – recorda.

Hoje, não procura explicar o sucedido... apenas diz: "Esta gente alberga um fanatismo tão doente..."

Infâmia. Horror. Matança. Caos. Inferno. Terror. Barbárie. Doze meses depois, continuam a ser estas as palavras que definem um dos momentos mais chocantes da história de Espanha. E do mundo actual!

59. Bom fim-de-semana...



A meia-noite já lá vai...

Os textos escritos aguardam ansiosos a revisão que é adiada... Mas a disposição assim o exige e a constipação assim o dita.

A semana chega ao fim...

O regresso a Castelo Branco é programado enquanto furtivamente contemplo o livro aberto, depositado displicentemente em cima da cama. Tenho saudades. De escrever. De ler. De não me doer o corpo. De não espirrar a cada minuto que passa... E, é desta forma que, depois ter chegado a casa há horas, dormido uma ou duas, não resisti a escrevinhar meia dúzia de palavras... mais que não seja, para desejar um bom fim-de-semana a quem pelo meu cantinho possa passar.
Um beijinho e até breve!