quarta-feira, março 30, 2005

70. Quatro meses de blogoesfera...



Quatro meses de blogoesfera permitiram o alargar dos horizontes e redescobrir o prazer de escrever assiduamente.
Todos os dias, quatro, cinco, seis horas são dedicadas a preparar textos, a ler a amiga “concorrência” e a deixar, aqui e ali, uma opinião que se pretende pessoal e intransmissível.

Da curta história do blogue Exercícios de Escrita poder-se-à revelar que teve uma primeira e breve edição alojada no blogs.sapo.pt, não divulgada nos motores de pesquisa e, portanto, tão anónima como o são os sonhos que não se ousam sonhar.

A 30 de Novembro de 2004, seis meses depois da primeira tentativa se ter revelado infrutífera e insatisfatória, surge online a versão actual, alojada no Blogger.
A determinação imperou, desta vez.
Das muitas leituras sobre linguagem HTML e edição de blogues adquiriram-se os saberes necessários para alterar um ou outro aspecto da template inicial e melhorar o formato.
Com formação na área do ensino, mais especificamente ao nível da educação visual e tecnológica, os conhecimentos de informática e programação eram manifestamente insuficientes.
Descobrir como inserir um link, um contador de visitas ou formatar o texto para que se aparecesse justificado ou centrado ilustrando-o uma imagem, foi uma aventura.

Em Dezembro, o primeiro link para o EE surgiu no Desordem Pública.
Outros se seguiram... Exacto, Nómadas Perdidos, Tá de Noite, Mug Music, A Bordo, Rua da Judiaria, Eelko Van Mulder, Tribulandia, Estradas Perdidas, Lobices, Escrita, O Culto da Ostra, Garfiar, George Cassiel, Os (In)separáveis, Palavra Imagem, Seita da Luz, Paz Kardo, Palavras Perdidas, Levithan, Graças a Deus Sou Ateu!, CarlosFranquinho.com, Pantalassa, Acrescenta Um Ponto, Eco da Minha Voz...

(Seria injusto não referir outros blogues onde o EE e a autora foram mencionados como foi o caso d' O Meu Caderno, do Sorumbático, ou ainda do Escrita Solta...)

Actualmente, a chegar aos nove mil acessos, começa a ser conhecido. O trabalho é muito mas como diz o povo português “quem corre por gosto não cansa”.

Da autora, muito pouco haverá a revelar. É uma das muitas figuras anónimas que nestas lides se movimentam. Registrada, no seu percurso, fica a incursão esporádica na pintura, ilustração e na escrita. Actividades desenvolvidas a título de hobbie com o sabor adocicado de algo mais do que isso.

O certo é que, dos prematuros meses de vida do seu cantinho da blogoesfera, muitos são os aspectos positivos que ficam impressos na memória: o divulgar dos textos que escreve, a perspectiva de vir a colaborar num jornal, o travar conhecimento com pessoas que admira e com outras que anónimas lhe merecem o mesmo destaque. Para além disso, fica a possibilidade de dar voz à alma e ao sonho... de escrever.

Tudo isto só tem sido possível porque desse lado, há alguém que dedica meia dúzia de minutos a ler o que aqui se vai publicando. Assim sendo, agradece-se a todos quantos visitaram o Exercícios de Escrita, tenham ou não revelado, através dos comentários, a sua opinião.

Até breve... até amanhã!

terça-feira, março 29, 2005

69. Passado ou presente?!


Luiz Carvalho, fotojornalista do semanário Expresso

"Histórias tristes de crianças abandonadas à porta das igrejas", é um título descritivo de uma realidade que se nos afigura representativa do que ocorria, em Portugal, no século XVI ou, mais tarde, no início do século XIX. Poderá induzir-nos em erro se a nossa análise do tema for baseada, apenas, na época em que na sociedade portuguesa existiam as chamadas Casa da Roda. Mas, na verdade, este é o alerta que há uma semana foi divulgado na primeira página do jornal A Capital. Em detrimento das lides políticas e económicas o destaque era este. Louvável, sem dúvida.
Num primeiro impacto recusamos admitir que, hoje, se mantenha tal prática. Aparentemente, longe vão os dias em que, sob o jugo da pobreza e valores morais distintos, havia quem a braços com uma criança (in)desejada a abandonasse a melhor sorte, à porta de uma igreja ou Casa da Roda. No entanto, através do que nos é dado a conhecer pela jornalista Susana Dutra, este tipo de ocorrência, ainda que não seja comum, faz parte dos tempos contemporâneos. Alguns exemplos aparecem retratados nas singelas páginas da referida edição

Da leitura atenta surge a necessidade de reflectir sobre o que está inerente a semelhante acto. Aponta-se, como o mais provável mote, a necessidade de, quem o pratica, saber que a criança será facilmente encontrada e encaminhada, quiçá, para uma família que a trate bem e lhe garanta um melhor futuro.
Uma atitude muito diferente daquela que leva a que outras sejam encontradas em caixotes do lixo, lixeiras, descampados, afogadas num qualquer ribeiro das redondezas, ou em qualquer outro local que de tão inóspito lhes dita a morte, num ínfimo espaço de tempo.

Outra informação revelada é o facto de que "o Estado quebra o elo com as pessoas que encontram as crianças, abrindo um processo para apurar as circunstâncias familiares e definir o projecto de vida". Muitos são os casos em que essas mesmas pessoas manifestam o desejo de adoptar as crianças. De um ponto de vista moral, deveria ser averiguada essa possibilidade.

Mais de 15500 crianças e jovens estão, actualmente, sob a alçada de centros de acolhimento. Cerca de 70 % não voltarão à família biológica, nem serão encaminhados para um lar de substituição. A polémica foi instaurada, há algumas semanas, pelos jornais nacionais e, de algum modo, leva-nos a questionar as políticas sociais que têm sido seguidas.

Há muitos anos, também, em Castelo Branco uma criança foi abandonada no Hospital Amato Lusitano. A consternação foi geral. Várias famílias locais manifestaram a intenção de perfilhar o bebé do sexo feminino. Curiosamente, o que é dado como impossível, foi possível. Um casal de enfermeiros conseguiu fazer valer a sua determinação. Adoptou a menina. Hoje, a jovem tem uma vida estável, num meio familiar onde o equilíbrio e o amor são uma constante. Dos contornos deste episódio da vida real pouco se recorda. O importante é que uma vida foi devidamente encaminhada, não para um centro de acolhimento mas para um lar onde conseguiu ter um real "projecto de vida". Foi-lhe assegurada a perspectiva de abraçar um "amanhã" distinto daquele que tantos (demasiados!) antevêem.

Deste apontamento d’A Capital fica, mais do que a referência a uma realidade que muitos (des)conhecem, a sensibilização para uma questão social que nos afecta a todos. Os níveis de pobreza, a iliteracia, os frágeis valores morais, o desemprego, o elevado custo de vida, os precários apoios do estado... e muitos outros factos traduzidos numa acentuada instabilidade política, económica e social, castram a população portuguesa e fomentam actos como este. Condenáveis. O reparo fica, assim, denunciado!