terça-feira, março 22, 2005

66. As pegadas do Sonho




Na bruma da manhã
Enquanto caminho,
Nesta busca incerta do amanhã,
Encontro-te sentado na areia húmida.
Lanço-te um olhar perdido em carinho,
Um sorriso enlevado,
E murmuro-te a confissão de uma vida!

Quem és?!
A ironia de um retracto renegado,
Que carrego nas entranhas...
Sem te dar forma física...
Ou um rosto, um nome!

Ilusões tamanhas,
As que me fazem renascer,
A cada despertar da aurora,
E ter da vida fome!
Fome de mim, de ti...
De nós numa junção plena do ser.

As pegadas ficam desenhadas na praia.
Segues-me...
Persegues-me...
Enquanto me pergunto se não deveria ser eu a vigiar-te...

Afinal... sou eu a possuir o sonho...
Ou é o sonho que me possui?!

sábado, março 19, 2005

65. Pai!




Rodopio a caneta entre os dedos enquanto procuro as palavras adequadas.
Estou num café, em frente a casa, que a esta hora está quase vazio. A inércia do momento leva-me a abstrair da cidade, bela e sufocante, e a flutuar no tempo.

Em tempos idos, de menina, eras como os ídolos que os meus amigos tinham... actores, músicos, modelos.
Passaram tantos anos. A infância já lá vai. A adolescência também. A idade adulta há muito que a conheço e, ainda assim, continuo a reservar-te um cantinho especial no meu coração... como sempre o farei.

Há quatro anos e meio, numa ironia do destino, foi-te diagnosticada uma doença rara. Senti-te a fugir de mim. Foram os momentos mais difíceis e, aqueles, que me provocam uma comoção tal que se não sinto o calor das lágrimas a fustigar-me o rosto é porque te sei “tão bem quanto possível”.
Foi nessa altura que de ídolo te transformaste em herói. Travaste uma árdua batalha com a rainha das trevas e, ainda que não o admitas, sei que o fizeste por mim, pela mãe, pela mana, mais do que por ti.

A sensatez das tuas palavras, o carinho nelas contido, o amor que sinto desprender-se do teu olhar... tudo isto me atinge e faz dizer-te que não é preciso um dia demarcado no calendário para que, com amor, me recorde de ti.

Trinta primaveras se passaram desde que me permitiste vislumbrar a luz do sol. Quatro anos e meio decorreram desde o dia em que te vi consumido pela dor, no hospital. O mesmo, em que quis gritar e só o eco do silêncio brotou dos meus lábios. Foi naquele quarto impessoal, rodeado de máquinas que não identificava, de tubos que me agrediam os olhos, que uma só verdade dominava o meu ser: Gosto de mais de ti para te perder!

Rezei com fé. Chorei com desespero quando não vias e, desde então, cada dia em que te vejo caminhar, sorrir ou abraçar o teu neto, o meu sobrinho, é uma vitória... uma alegria sem fim!

Por tudo o que és. Por tudo o que me fizeste ser. Apenas te posso dizer: Obrigado, Pai!