sexta-feira, março 04, 2005

56. Momentos



O feminino cruzar de pernas captou a sua atenção quando, ao olhar o pequeno espaço do restaurante, a avistou a dois metros da mesa que ocupava. O queixo erguido, as costas direitas, o cabelo sedoso a envolver-lhe os contornos do rosto... A sensualidade brotava, de cada um dos poros, daquele corpo e, suscitava-lhe imagens que em nada seriam consideradas castas.

Sacudiu, levemente, a cabeça numa frustrada tentativa de se concentrar na tagarelice enfadonha do consultor imobiliário. Um homem atarracado, a beirar os 50 anos, que não primava pelo bom gosto, a julgar pelo comentário brejeiro que dedicara à empregada. A sua voz era fastidiosa.

Aborrecia-o a insistência com que elevava a mão macilenta ao nó seboso da gravata azul turquesa, como que, a certificar-se da constância do seu desarranjo.
Em nada o interessava o discurso incoerente com que era brindado. Mais ainda, porque a sua atenção era, a cada instante, atraída pelos contornos insinuantes da silhueta feminina.

Sentiu um inesperado calor percorrer-lhe o corpo quando os seus olhos se cruzaram. Era incrivelmente bonita.

Consciente de era necessário recuperar a compostura, aclarou a voz.

- Desculpe… dá-me licença, só um instante…?! – atalhou.

Ergueu-se, lentamente, da cadeira perdido, uma vez mais, em contemplações...

A água morna escorria pelo lavatório ao mesmo tempo que examinava o homem reflectido no espelho... Há quanto tempo não se sentia assim? Completamente envolto numa teia de ansiedade, excitação e uma subtil mas letal sedução...
Sorriu. Involuntariamente, suspirou... e, mesmo sem se voltar, pressentiu o vulto prostrado atrás de si...

Rodou sobre si mesmo.

Duas passadas determinadas anularam a distância... entre dois seres que no inesperado da situação se entregaram a um, espontâneo e mágico, momento.

Mesmo que quisesse, não conseguiria disfarçar o enigmático sorriso desenhado no seu rosto quando se acercou da mesa.

Aguardava-o, ainda, meia hora de uma conversa entediante e desprovida de qualquer nexo. No entanto, o enfado já o não fustigava… O inconfundível perfume feminino, absorvido pela sua pele, levou a imaginação a soltar-se, em mares tantas vezes navegados. Inconscientemente, deslizou os dedos pelos lábios ao mesmo tempo que se recordou do pequeno bilhete que ela lhe deixara. Discretamente, abriu-o... juntou as letras enquanto o palpitar do seu coração se acentuou...

Espero-te!
Quarto 212
Hotel Green Park


Envolvido pelo clima apaixonante, do mistério e da sedução, dominou-o um estado de espírito caracterizado, mais do que por prazeres carnais, por sentimentos renovados a cada segundo que passava.

Relembou a imagem gravada, a partir do último olhar que lhe lançou, ao vê-la entrar no carro, estacionado a pouco mais de dois metros da porta do restaurante...
Olhou, disfarçadamente, o relógio. Tinham passado 10 minutos e o penoso almoço chegara ao fim.

Pouco depois, não muito longe daquele restaurante, a porta impessoal, de um quarto onde milhares terão dormido, é aberta... lá dentro a luxúria do corpo feminino aguarda-o... saudosa... carente... ansiosa...

Uma voz, quente e doce, ecoa no silencio do quarto:

- Feliz aniversário!

Ri-se, deleitado com a surpresa:

- Conta-me lá... o que fizeste hoje ao meu filho?

Deixei-o com a minha mãe... Afinal, não é todos os dias que comemoramos 10 anos... de casamento!

Cessaram as palavras... o tempo era outro... em que falar era desnecessário!

quarta-feira, março 02, 2005

55. Outro ser



Natália tem 30 anos, uma vida de que gosta e meia dúzia de sonhos que lhe moldam a rotina dos dias.

Escreve como quem respira.

Nas palavras encontra o expoente máximo do seu ser e outra coisa não saberia fazer, quando as horas ditas mortas chegam. Instantes, em que não lhe é permitido evadir-se até à praia... ou por entre rochedos, aventurar-se na descoberta de novos percursos pedestres.

É apontada como solitária e, ainda assim, não lhe faltam amigos... O porte frágil e franzino, a voz calma e doce, e uma atitude simpática garantem-lhe a imagem de serenidade com que os amigos a vêem.

Gosta de se imaginar feliz porque, realmente, o é! Sem euforias desmedidas, alegrias repentinas mas, também, sem dúvidas ou mágoas demasiado enraizadas a valer-lhe ressentimentos negativos.

Os sonhos brotam, do mais íntimo da sua essência, fazendo-a almejar não um fútil reconhecimento público mas um outro... fomentado pelo cunho, pessoal e intenso, da sua mão ao deixar impresso nos relatos escritos que vai partilhando com os outros, um pouco de si.

Sentada, aqui e ali, saboreando o aroma, tão apreciado, do café enquanto um meio sorriso, distante e misterioso, se abeira dos seus lábios, vai escrutinando aquele destino que pretende como seu.

Natália tem 30 anos... e na escrita o expoente máximo do seu ser!


Pensamento solto
Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem ruído.
Marguerite Duras