sexta-feira, fevereiro 04, 2005

41. Canto e Castro: O senhor do Teatro


Canto e Castro, Ruy de Carvalho
Rei Lear

Há dias, Fevereiro chegou, quase no mesmo instante em que o coração se contorceu e a mente se esvaiu em mil lembranças... Décadas de afincada paixão! Mil percursos em prol da cultura, da poesia, do sonho...

Há dias, a Basílica vestiu-se de luto e nem o frio impediu o comovido adeus... enquanto se relembrava a doçura da voz rouca, a magia dos gestos, a determinação que lhe era inerente.

A saudade, na hora da despedida e a sensação de perda abraçaram quem acompanhou, mais ou menos atento, o trajecto digno de menção na cultura nacional

Inumeradas as peças que ficaram por ver, os episódios a que não se assistiu, as críticas por ler, visualiza-se mentalmente a emblemática figura do teatro português. Ficam os registos de mais de meio século na memória de uns... na de outros, o carinho sincero de quem, mais do que a máscara, viu o homem; mais do que a personagem... a sensibilidade real de quem a encarnava.

Há dias, a noite desceu sobre a manhã
E a madrugada sobre o entardecer...
Lágrimas brotaram dos olhos anónimos.
Soluços invadiram o peito de quem recorda...
O amigo... o conhecido... o actor,
Esse grande senhor!

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

40. Breve história de amor e de mar.

Os últimos dias de Inverno trazem consigo o calor de meia dúzia de raios solares que convidam a deambulações... passeios, caminhadas...
Ivone cede perante o irresistível apelo do mar e retorna à praia... a mesma que durante anos visitara, devotadamente, sempre que o trabalho o permitira
Sentada na areia húmida o pensamento perde-se para lá da rebentação das ondas... Inspira o ar fresco da manhã e, enquanto o vento lhe acaricia a nuca, fecha os olhos. A mente flutua. Recua no tempo. Por momentos, mais envolvida numa doce demência dos sentidos do que na própria recordação, volta a sentir a cálida mão tocar a sua... o fôlego, quente e ritmado, a acercar-se do rosto e a doçura dos lábios de encontro à sua pele.
Por breves instantes, a sua alma abandona o corpo e junta-se à dele partilhando os carinhos de que há muito tem saudades.
A manhã avança neste enredo de sentimentos telepaticamente revelados... de um mundo para o outro. No entanto, o olhar, aparentemente prostrado sobre o azul do mar, nada vê além dos contornos ternos daquele rosto masculino.
A intensidade do que a envolve é indescritível! Sustém a respiração... como se temesse que o leve movimento do seu peito fosse quebrar o encanto do momento.... e levar para longínquas paragens aquele ser tão amado.
O poder dos sentimentos aliado ao da imaginação assume proporções nunca previstas, jamais determinadas! A realidade, essa, está à espreita... preparada para a subtrair do mundo dos fantasmas, numa qualquer hora incerta em que a sua sanidade mental seja colocada em risco.
O sorriso que se desenha nos seus lábios vai-se desvanecendo quando a mente recupera aquela última tarde...
Quantos anos teria?!
Vinte e oito ou vinte e nove... Não mais que isso!
A escassos centímetros, lá estava ele! O sorriso franco e palavras espontâneas.
- Sabes... gosto de ti! – e, abrindo tanto os braços quanto lhe era possível, elevara o tom de voz – Assim!
Um amor puro e distinto abraçava-os com uma força sobrenatural. Mágica... criando um elo que os anos não haveriam de quebrar. A vida ou a morte, a alegria ou a tristeza... ou o que fosse, nunca seriam elementos suficientemente fortes para os afastar! Nem mesmo quando o mar, espectador atento de inúmeros momentos de partilha, modificasse o rumo das suas sinas e sugasse a Rodrigo o último sopro de vida.
Infelizmente, bastara uma fracção de segundos maquiavélicos... um desviar de olhos... um esvair de pensamentos momentâneo... para que fosse pelas águas traiçoeiras arrancado do mundo dos vivos...
Os momentos de outrora transformaram-se em fragmentos da memória mas o amor manteve-se omnipresente.
Ivone mesmo agora, ali sentada, continua a ouvir no silêncio da sua dor... o eco da confissão:

- Sabes...gosto de ti! Mãe...! Assim... MUITO!