domingo, janeiro 30, 2005

39. "Bica Escaldada" Alice Vieira
(ou recordações de outros tempos.)


Escola Secundária Nuno Alvares,
antigo Liceu Nun'Alvares em Castelo Branco



- Bom dia. Então o que vai ser? O costume...? – pergunta o senhor António, do outro lado do balcão, com o mesmo sorriso aberto e espontâneo de sempre.

Sorrio como quem confirma o que é tido como certo.

O costume a que se refere é o dos tempos de adolescente. Um outro tempo em que corria pelos largos corredores do liceu para ali, me sentar não mais que meia hora e tomar, finalmente, o pequeno almoço já fora de horas.

O hábito perdurou e hoje, quinze anos depois, sempre que retorno a Castelo Branco aproveito para "matar" saudades do pequeno café. Um dos palcos preferidos das muitas tropelias de então. O mesmo onde, se sucediam os encontros com o primeiro namorado, onde se debatiam os projectos para o futuro ou, tão somente, se marcava presença enquanto não eram horas de mais uma aula.

Recordo-me dos colegas de escola, de um ou outro livro lido... dos professores... e com uma definição precisa, surge-me na mente a imagem do professor de Português. Uma figura emblemática e idolatrada até ao presente!

Era uma pessoa aparentemente vulgar. Palavras simples. Sorriso perspicaz. Olhar atento mas que nos cativava com um encanto mágico!

Cada aula assemelhava-se a uma surpreendente viagem ao País das Maravilhas onde a descoberta e o humor imperavam. Mais que isso, com ele capturávamos a noção exacta que aprender poderia ser divertido.

Na altura não haviam peças de teatro, como a "Breve História da Lua", a ensinar-nos que o aborrecimento não será condição inerente ao processo de aprendizagem. Tínhamos um professor, simples e humilde, carismático e detentor de um dom sem igual! Isso bastava-nos para amar, incondicionalmente, as pequenitas letrinhas. Uma paixão que perdurou. Se hoje escrevo, como quem fuma um cigarro, ou leio como quem se detém horas a fio em frente de um televisor... a ele se deve!

Mário Feliciano, um nome anónimo para muitos, para outros... que no velho liceu desfrutaram daqueles que eram verdadeiros momentos de apreensão de conhecimento, será como um ídolo que recordamos e amamos!

Um alguém a quem os dias, há muito, roubaram o último fôlego mas que não conseguiram apagar da memória, a mágica lembrança do que é realmente ensinar e aprender!


(...e quem não se recordará deste ou daquele professor que nos marcou a adolescência de forma positiva?!)

sábado, janeiro 29, 2005

38. Consciente e Solidário!




A propósito de tudo e de nada
Deambulo por aqui e por ali.
Os olhos postos para lá do horizonte,
Os passos ritmados e serenos,
O coração convicto da sua condição apaixonada,

O dia que desponta,
A noite que se esconde,
A memória de emoções tonta,
Ou, simplesmente a vida em que alegria abonde...
Tudo lhe serve de mote!
Mesmo a tristeza dos que choram a morte,
A inércia dos que se mantêm indiferentes,
Ou a hipocrisia dos que se remetem à cegueira mental...
Lá estão, a marcar o compasso!

O vicio está nas palavras... no pensamento
E, afinal, no enfrentar da realidade!
Talvez seja, somente, o constatar atento...
Do que é assumir-se consciente e solidário!

Há seres a tremer de frio ao relento.
a quem a fome consome...
que erguem os olhos num ténue movimento
e, unicamente, encontram o voltar de um rosto...
um ignorar cortante...
uma retribuição ausente...
e a necessidade sempre presente!

Há agasalhos esquecidos sem destino definido...
meia dúzia de moedas sem fim aparente...
sentimentos e valores a recuperar...

Por onde começar?!
Basta que se permita olhar...

A mão, gasta e suja,
Carente e ansiosa... está mesmo ali...



Outros poemas:


Sina desgraçada...

"A Noite do Oráculo" Paul Auster

"O coração tem razões que a razão desconhece." Pascal

"The life and loves of a she devil" Fay Weldon