quarta-feira, janeiro 12, 2005

32. Leituras...



O terceiro dia, em casa, avança e num momento de puro tédio volto a folhear pela milésima vez o jornal, a revista e um velho livro. Entre dois ou três espirros, não consigo decidir-me por este ou aquele tema e é inevitável não desejar que a reclusão domiciliária seja logo levantada.

Certo é que, o Sol, do outro lado da vidraça, continua a brindar-nos com os seus magníficos raios. Relembra-nos uma outra estação em que pegamos num livro e procuramos uma esplanada para durante horas deixarmos a imaginação fluir.

O astro rei traz-nos afinal a ilusão... não mais que isso!! Basta olhar para as temperaturas marcadas pelos termómetros para não apetecer transpor a porta da rua.

Fecho os olhos e tento lembrar-me de dois títulos de livros a ler...

“Onde Melhor Canta Um Pássaro” Alejandro Jodorowsky

“Danças & Contradanças” Joanne Harris

...a ler, depois de vencido o esforço de chegar ao fim de “Bica Escaldada” de Alice Vieira!

Comprei este livro, impulsivamente, como tantos outros na vã expectativa de corresponder ao que imaginava. Reconheço as crónicas bem delineadas mas sem a magia necessária para me prender às suas páginas. Isso aborrece-me.

Como sou teimosa... sei que vou concluir a leitura frustrada e desgostosa. Talvez até volte a relê-lo numa persistente tentativa de conseguir antever uma pequenina faísca cintilante e especial. Provavelmente não a verei... nem a sentirei mas fica a tentativa e uma opinião contraditória àquela que é dada a conhecer pela menina dos meus olhos, “Os Meus Livros”.

Vivemos numa suposta democracia... e como opinar e discordar ainda não paga imposto, “cá me fico” com a minha ideiazita que os grandes escritores também se acomodam e têm momentos menos banhados pela sensibilidade da inspiração!

terça-feira, janeiro 11, 2005

31. Sentimentos errantes...



Não é um carrossel, nem um baloiço, nem um carrinho da feira. É um velho autocarro da carris que percorre as ruas labirínticas, aparentemente prestes a desintegrar-se. Os seus arrítmicos solavancos vão sacudindo o corpo frágil de Marta.

O trajecto é curto mas longo o suficiente para permitir que o pensamento vá, também, estremecendo e sublinhando, nos meandros mais profundos do ser, os episódios que nenhuma esponja poderá apagar ou esbater..

A nostalgia invade cada poro da pele no mesmo instante em que na alma apenas se dilui, com o leve dispersar, a música de uma vida absorvida pela inabalável força dos guerreiros. Mais que os mil personagens dos romances que lê, Marta revê-se a ela, nas páginas daquele que, prostrado sob o colo, tem sido o companheiro dos últimos dias. A mesma intensidade de sentimentos... a mesma fluidez de acontecimentos a beirar-lhe a rotina insípida e, mais que isso, a mesma capacidade para no temer... sonhar!

Ultimamente, o seu quotidiano divide-se entre o desgastante trabalho numa escola pública e as lides, ainda mais entediantes, da casa recém adquirida. Casualmente, uma fuga até à praia, um mirar compenetrado do écran do cinema ou um exultante bater de palmas àquela peça de teatro, tão badalada.

Em quarenta anos, o tempo não conseguira desvanecer-lhe o penetrante olhar nem vincar o rosto de traços definidos com o franzido natural da pele... Era, afinal, uma imagem viva daqueles seres que nos sugerem que a beleza não tem, realmente, idade.

É bonita! Sabe que o é… ainda que de tal não se aproveite para sobressair! Isso torna-a ainda mais bela e distinta! Assim pensa Duarte. Apercebera-se disso há muito e, desde então, não perde uma única oportunidade para a observar embevecido como que hipnotizado por tamanha sensualidade feminina.

A primeira vez que a trama dos seus passos se cruzara com a dela tinha 14 anos. Ela 25! Ele era o aluno. Ela a professora de geografia e nunca a actividade vulcânica lhe fizera tanto sentido.

Fora, afinal, uma paixão assolapada como todas o são, na adolescência. Daquelas que deixam marcas imutáveis vida fora e fomentam em cada reencontro um estado de espírito nada próximo da indiferença.

Revê-la devolvia-lhe imperativamente a mesma sensação. O estômago a contrair-se, o coração a acelerar e o brilho dos olhos a acentuar-se de tal forma que ofuscaria o sol! Só dos seus lábios não saia nenhuma palavra, exuberante, que o denunciasse!

Apesar de 15 anos decorridos, continuava a sentir-se como o aprendiz... ela a mestra...

Nos últimos anos, discretamente, seguira as suas passadas com fidelidade e secretismo. Para além de meia dúzia de inocentes palavras, trocadas a cada casual encontro, apenas se atrevera a enviar-lhe, anonimamente, um ramo de rosas nos seus aniversários.

Divertia-o imaginar como reagiria se descobrisse quem era o autor de semelhante empreendimento mas, mais que isso, deliciava-se quando nos momentos mais isolados do mundo, enquanto saboreava um ou outro café a fumegar, deixava o pensamento livre para tecer os enredos que a imaginação lhe ditasse... Como seria o sabor do seu beijo, o calor do seu abraço ou o cheiro da sua pele?

Sentado a alguns metros da musa dos seus sonhos, tão perto e tão longe, o sangue corria mais rápido nas veias. A excitação consumia-lhe a alma e num impulso desmedido, vencendo a barreira invisível que os separa, abordou-a:

- Olá professora! Então, como vai?

O sorriso tantas vezes apreciado e manifestamente desejado surgiu:

- Bem! E o menino?!

- O menino está bem como sempre!

- Não me tinha apercebido que vinha no autocarro...

- Também só reparei agora que estava aqui... há muito que não a via.

- Este ano as aulas são de manhã. Hoje é que fiquei até mais tarde... – desabafou Marta.

- E que tal são os meninos...?

- Acredita que me fazem ter saudades das suas lagartixas com laços cor de rosa...

Um tom escarlate cobriu inesperadamente a face de Afonso.

- As coisas que se fazem para atrair a atenção de uma professora bonita!

- Diga antes, as coisas que se fazem quando não se pensa...

A reprimenda camuflada pelo tom divertido relembrou Duarte que havia nela muitas outras características que o tempo não desvanecera... como o senso de humor.

A conversa decorreu durante momentos enumerando velhos tempos em que as suas vidas se cruzaram e nenhum dos dois se apercebera de que para Marta o percurso estava prestes a terminar. Quando isso sucedeu Duarte murmurou, impulsivamente, a tão desejada sugestão:

- Olhe... um dia destes telefono para...

Marta sorrira vagamente. Sentia-se culpada pela traição do coração que batia demasiado descompassado e da sua imaginação que, insistentemente, lhe sugeria demasiadas imagens...

...mas os dias sucederam-se sem que o encontro se consumasse! Naquele dia, véspera do seu aniversário, o destino espreitava-a à esquina, atento, mordaz e fatal.
Há minutos em que as tramas da vida nos afastam dos propósitos delineados... e nos arrastam para paragens inacessíveis... Fica na memória cada instante, simples e mágico, em que os olhares se partilham e os corações se incendeiam mas também permanece a frustrante sensação de que o sonho foi, indefinidamente, adiado pela vida... pela morte... pela assaz sina.

Registado fica também o momento tenebroso em que aquele coração feminino, condenado a um amor suposto impossível, nunca revelado... nunca vivido à luz da realidade, é atirado para a penumbra. Uma acto brutal consumado por um pequeno grupo de delinquentes que, na busca incansável de mais umas moedas para a dose diária, não se contentaram em saquear.

E assim principiara um inicio de noite... que prometia ser o começo do desabrochar do Amor e se revelara afinal num exímio e macabro assalto à vida!