domingo, dezembro 19, 2004

22. Viagem...



A música envolve o ambiente da pequena carruagem e abafa um ou outro ruído que o doce deslizar sob o carris vai provocando.
Anoiteceu há instantes e para lá da vidraça que me reflecte o rosto pouco é possível vislumbrar... É assim que, sentada no confortável assento do comboio que liga a Beira Baixa a Lisboa, não resisto a pegar uma vez mais na caneta e rabiscar meia dúzia de ideias para os próximos texto a editar.
Vez por outra, impulsionada, pela música inspiradora solto o olhar e contemplo-me como se me redescobrisse a cada instante mas... mais que a mirada, solto o corpo e ali mesmo, no pequeno espaço que ocupo, sinto-me dançar... rir... como se o mais profundo do meu ser se libertasse irreverentemente!
Claro está que para o comum dos passageiros sou apenas uma figura solitária, serena e distante... muito comedida... sempre envolta em blocos, livros, jornais e revistas!
Nenhum indício desta euforia interior trespassa... Nenhum traço oblíquo que denote a paixão que se acerca de mim a cada despontar da alvorada.
Discretamente, a linha dos lábios volta a curvar-se algo trocista... com o seu quê de ironia!
O tempo urge... o senhor do tempo não espera e a noite avança... na mesma medida em que os pensamentos voam...
Crio, este e aquele esboço para um pequena critica... uma opinião fundamentada em mil pesquisas ou simples contos reflexos de histórias de amor não vividas porque o recato, a sensatez ou a simples censura própria o não permite... e ainda assim pareço ter presenciado cada instante de luxúria.
A imaginação fluí... enquanto as primeiras estrelas salpicam o céu e me acerco de Lisboa.
Retorno a casa... ao meu pedacito de paraíso (quase!) perfeito, redescoberto a cada regresso! Inevitável não sorrir e não sentir o calor invadir-me o corpo... É bom reencontrar o abraço sereno da almofada companheira de sonhos e pesadelos, confidências banais ou segredos com a certeza de que amanhã o sol voltará a despontar no horizonte!

quinta-feira, dezembro 16, 2004

21. "À Procura da Terra do Nunca" Marc Foster



A imaginação prodigiosa de um ser altera rotinas, gera paixões, amores, frustrações, delírios esporádicos ou não, com a estampa da loucura a sobressair ou, simplesmente, uma vaga de atentados à integridade física e moral. Por vezes, também ambição, determinação ou evolução! É assim na ciência, na literatura, no cinema... na política ou tão somente na vida.
O mesmo dispersar da alma que pode levar a um voluptuoso êxtase, um clímax audacioso que não se limita ao amor carnal, místico ou ao platónico, que vai além do Homem-Mulher, permite-nos, todos os dias, deparar com novos elementos que o comprovam sob os mais distintos disfarces.
Leonardo Da Vinci, Napoleão Bonaparte, Celéstin Freinet, Albert Einstein, até nomes como Adolf Hitler, que nos atinge sob a forma de um punhal cravado no ventre desprotegido, são exemplos de Homens que movidos pela imaginação nos fazem inquirir aonde nos poderá levar a dispersão dos pensamentos.
Também o cinema abraça com eufórica motivação esta questão e prova disso é o filme "À Procura da Terra do Nunca", a estrear nas salas de cinema nacionais a 30 de Dezembro.
Inspirado em momentos da vida do escritor escocês James Mathew Barrie (1860-1937) e realizado por Marc Foster retracta o período decorrido entre a primeira inspiração do escritor até à première no Duke of York’s Theatre.
Finding Neverland, no seu título original, foi inspirado na peça de teatro The Man Who Was Peter Pan, escrita por Allen Knee e é afinal a história de um homem determinado que desafiando o meio que o circunda, se envolve com uma mulher jovem, bonita, viúva e com 4 filhos. É do lado desta família adoptiva que reúne as condições necessárias para que desde o mais profundo do seu ser lhe provenha a inspiração criadora do herói "ficcional" que todos conhecemos como Peter Pan.

"Finding Neverland", o nome original daquele que é considerado o Melhor Filme do Ano pela National Board Of Review. Johnny Deep, Kate Winslet, Julie Christie e Dustin Hoffman os rostos das personagens. Londres, o cenário. James Mathew Barrie, o mote que nos faz questionar uma vez mais:
Aonde nos irá levar a imaginação?
Provavelmente a uma sala de cinema onde por momentos deixaremos que a alma se abstraía da realidade?!

À Procura da Terra do Nunca