quarta-feira, novembro 24, 2004

6. "Não chores porque já terminou, sorri porque aconteceu" Gabriel Garcia Márquez

Vivem-se os últimos dias de Primavera... as esplanadas estão repletas de turistas e o calor acentua-se com o meio da tarde.
Um vulto sentado numa das inúmeras mesas de um bar decorado ao delicioso estilo irish... suspira!! O sino ao fundo, junto ao balcão recolhido no seu silêncio... balança suavemente... e é o sotaque inglês, aqui e ali... que quebra a monotonia!
O dia a findar... e de pernas cruzadas, numa atitude displicente, olhar perdido no nada... lá estás tu! Sorriso no rosto, a imperial a meio, um cigarro entre os dedos compridos de uma mão que há muito se esqueceu das emoções despertadas no simples acto de tocar... Agarras as palavras que vão surgindo na conversa banal que manténs, sacodes as verdades e recordas, entre dois minutos, como foi respirar... acariciar... amar... e afinal... tão somente viver!!
Quase sem teres noção do que sucede ergues-te da cadeira e caminhas rumo ao rio... olhas as águas outrora límpidas, agora, tão somente, calmas... e num movimento quase imperceptível da tua cabeça negas a imensidão do que te faz sentir... porque para ti já nada faz sentido... pois não?! Terás esquecido que o dia apenas chega ao fim?! Julgarás, tu, que amanhã o sol não surgirá resplandecente no horizonte!?

O movimento dos ponteiros do relógio é-te indiferente... agora que finalmente avalias o seu movimento passado...
A tarde esvai-se... chega a noite...
As mãos nos bolsos…o passo firme... como se há muito tivesses traçado o teu trajecto... e os olhos?! Os olhos vagos... focando um ponto impreciso para lá do horizonte... Pensas... recordas... analisas e nesse momento, pleno de agonia e insatisfação, a lua... companheira... amiga... amante mágica das noites solitárias abraça-te... incendeia-te e faz brotar do mais fundo da tua essência aquele sorriso... de quem já viveu... de quem já morreu mas ao invés de lamentar os momentos passados... apenas os relembra com a candura e a sabedoria dos que adquiriram o dom de transformar os ditos pesadelos no mais doce dos sonhos!!!
Ergues o rosto... alargas o sorriso... e num rompante dás-te conta que, afinal, a teu lado caminham milhões... milhões de vultos... outrora corpos... Dás-te conta!!! Sim!! Morreste... não há que derramar lágrimas, viveste!!

Os minutos passaram por ti...
Na manhã seguinte o leito branco foi invadido pelos doces raios de sol... e entre pensamentos tardios mas precisos de quem já suspirou pela última vez... finalmente é-te possível... prosseguir a tua viagem… interminável... e contemplar alegremente o que de novo se avizinha na tua nova existência!!

Morreste para renascer...

5. "As Palavras que nunca te direi" Nicholas Sparks

A noite mal dormida... o levantar apressado... a ansiedade a queimar o ar que se respira... o murmúrio surdo das vozes circundantes, actuam sobre o corpo e alma de forma pouco condescendente!!

Sinto-me prisioneira de uma sina que não moldei...

Percorro com o olhar a paisagem para além da janela insípida do comboio que vai deslizando pelos negros e frios carris...

Sinto-lhe a força viva... o encanto e a magia... e entre emoções... sentimentos ou meios pensamentos desperto do torpor que me assolou desde a madrugada... As dúvidas renascem das cinzas, as inseguranças do ar e a desconfiança é uma realidade demasiado dura e incompatível com a calma que é imperativo conquistar!!

Os raios de sol invadem a carruagem... motivando breves comentários... eu recolhida no meu assento impessoal... que afinal é de milhões... reconheço que neste momento a água tépida de uma praia do sul seria uma oferenda dos deuses!!

Por fim... a memória recupera a lucidez...

Amanhã, pela mesma hora, estarei numa praia do sul... despertarei com a caricia extenuante da brisa na minha pele e pensarei nas... "palavras que nunca te direi"... e do teu lado... e ainda que o meu vulto esteja lá... não haverá mais que ninguém porque eu morri quando pensava nascer...

Durante anos a fio dir-te-ia com alguma incerteza que os grandes amores nunca vencem... hoje digo-o com a certeza da derrota!!!

Olho os rostos das pessoas e em silêncio questiono-as... já amaste?!

Sinto um leve tremor nos meus lábios... dor contida... lágrimas por chorar... gritos calados... eis-me no silêncio das trevas... sem confiança, esperança ou segurança!!

Eis-me no auge da idade a desejar que a velhice chegue em breve... e que em breve possa cerrar os meus olhos sem sentir este desespero!!

"As palavras que nunca te direi"... mais que o título de um livro... mais que um segredo oculto... são palavras caladas... cravadas no mais fundo do meu intimo, revelando-se a cada momento como a expressão viva da essência que me faz erguer o rosto... desafiar o infinito e revelar... nas páginas impessoais de um jornal... que os grandes amores são como a brisa do mar... nas madrugadas onde a Lua não vigia a Terra e as estrelas se esquecem de acordar!!!

(in Diário de Aveiro, Domingo, 15 de Junho de 2003)