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domingo, janeiro 29, 2006

112. Vibrações


Descem os dedos esguios pelo rosto,
Chega a noite mansa e terna
E no ar a música flui como magia!
Poderá ser o último dia,
Ou o primeiro...
Quem saberá?!
Vibro ao ritmo dos acordes
Como se o corpo não fosse comandado pela mente
E dos olhos, janela aberta, espreita a emoção!

Rio. Rodopio. Mãos nas mãos.
Cálida como carícia, a respiração.
E nela me perco, sem me querer encontrar.
Esboço um tímido sorriso,
Ao mesmo tempo que quero ser,
Ao mesmo tempo que sou,
Voragem numa tarde de Outono
Vivaz e ansiosa...

Feliz aprendiz de feiticeira que não sou,
Abraço a vida com a fúria dos lutadores
E a calma pacata dos que têm o dom de saber aguardar...
E sorrio... desafio os segundos ou os minutos a passar,
Porque me aproximo,
E aprendi a acreditar... confiar,
Na onda que me devolve à praia,
Na voz secreta e misteriosa que me fala de ti!

terça-feira, janeiro 24, 2006

111. Saudade menina


A saudade é já menina
Quando os teus olhos brilham
E as palavras se quedam sufocadas
Nos lábios que insistem em sorrir.

Dentro de mim a doçura
Desprende-se da rebeldia do coração
E mesmo sem querer...
o carinho...
invade cada recanto da nossa essência e transborda...
num abraço que antecipa não a despedida mas o até já...
E se reparo que as mãos te tremem,
E se reparo que os traços do teu rosto
Procuram mascarar a emoção,
É porque os acordes que o silêncio nos devolve
são reflexo da sintonia do momento...

Inegável!

Inegável a empatia,
A partilha mágica do sorriso
ou o saber que por instantes
A única vibração palpável
Foi aquela que brotou,
Alheia a olhares indiscretos e incrédulos,
Sincera, suave e intensa,
Tão muda quanto gritante,
E que ecoou muito depois de teres ido...
Muito depois de ter acontecido...
Aquela que só é possível quando se pressente
a saudade, estando presente!

domingo, janeiro 08, 2006

109. Códigos


Ter ou não ter mais nada
Que sete vidas em cada seis segundos
sem esquecer que os sonhos são tão profundos...
Doces e abstractos, como o destino.

Ter ou não ter mais nada
Que oito, talvez quatro, porções mágicas
Daquele que é o cintilante elixir... da caminhada,
E que afasta do trilho o negrume cerrado,
Que à noite tudo envolve.

Ah!! Ter ou não ter... mais nada
Que oito, cinco ou três...
Ou um único momento de felicidade...
Aquele em que decifrada a charada
Se conquista a sublime sensação
E se escuta embevecido a voz...

Ter ou não ter?! Mais?! Nada?!

A voz! O toque! A descoberta... ou o código!

quarta-feira, janeiro 04, 2006

108. Rio. Sorrio. Rodopio...


Rio, sorrio, rodopio,
E tal qual um navio,
navego ao sabor do vento,
apaixonada pela maresia,
amada pela cotovia.
Que venha a tormenta!
Não há onda que me detenha,
Nuvem que me abale!
Nada. Nada me sustenha!

A essência?! O Sol!

Rasgo a imensidão azul,
Bebo as gotas de orvalho e sinto-lhes o sal.
Embala-me o sonho,
Inebria-me o perfume a mar e continuo...
Rumo traçado, porto desafio,
crio, invento e num tresloucado delírio brinco.
Gozo as palavras que pronuncio...
E que guio por entre a sedutora bruma
Que vejo, que beijo... quando se impõe o silencio.

A alegria é plena, intensa e profunda
Neste segundo, neste minuto, nesta hora,
Em que já nada lembra do ano que findou...
E tudo é ânsia de viver o novo que chegou!

Rio, sorrio, rodopio...
E sem conseguir quebrar o encanto
Ergo a fronte
Estendo o olhar para lá do horizonte
Desenhando no ar o pronúncio anunciado...
do que é mais que vazio...
que chega tão manso e discreto,
Como a pena que acaricia a folha de papel
Ou aquele olhar,
Quieto,
Penetrante,
Feito de promessas e de mel,
Que tarda mas não foge!

Rio. Sorrio. Rodopio e acordo!
Como é bom estar aqui! E aí!





Este poema, escrito numa daquelas horas em que a noite já vai longa, é uma tentativa de vos desejar um Feliz 2006... cheio de sonhos, alegrias, força e muito sol a abrilhantar os dias! Espero de algum modo ter passado a mensagem.

Aproveito, ainda, este apontamento para vos comunicar que não desisti de escrever o romance "Os laços e as sombras", simplesmente não continuará a ser editado no blog. Se pretenderem ler os capítulos que se seguem agradeço que me comuniquem enviando um email para exerciciosdeescrita@sapo.pt. Periodicamente enviarei a continuação.

Obrigada a todos.

Um beijinho e até breve.

quarta-feira, novembro 23, 2005

103. Nada de nada


Espreito a noite pela janela
E a estrela mais bela,
Enquanto cerco as palavras de fantasia
E dou asas ao pensamento.

Do outro lado da rua deserta,
O eco da alegria,
O vislumbre do vulto
E a antevisão do momento.

O culto oculto é o código
E o código, fruto da lógica ilógica,
Intensa e demorada,
registado em miradas, mais ou menos, profundas,
A verdade que não é denunciada.

O silêncio converte-se em riso
Quando confunde o enredo
E tudo é coragem... nada medo.

Anulo a distância,
Da janela à porta, meia dúzia de passos.
Corre a magia,
Espanta-se a nostalgia
E galopante é a hora, quando me acerco.

Esfuma-se a ilusão,
Instala-se a confusão
E do tumulto que assalta o coração...
Nada de nada transparece.

Criminosa, culpada mas também receosa,
O sorriso surge, por entre os fios dourados,
Sem que se perceba o seu destino...
Na camuflagem das sombras ousa-se,
Esbate-se a máscara
Mas, eis que se não quando, parte...
Parte O vulto...
Fica o vazio da calada da noite
E o regresso à janela...
de onde se contempla a... ruela.

Espero pelo novo dia,
Aquele em que o luar ou a mais singela luz,
Me revela, inebria e seduz...
Aquele em que, de olhos nos olhos,
Sem receios ousarei...
Ousarei abraçar o segundo, o minuto, a vida ou o amor
E murmurar-lhe docemente:

Não partas... Estou aqui!*


* Versos editados a 25 de Novembro, com o intuito de não defraudar quem mantém viva a fé no amor e gostaria que os vultos não partissem.

quarta-feira, novembro 16, 2005

101. Euforia


Danço na chuva,
Como quem evoca velhos deuses...
E acredita na estrela cadente
Que rasga o céu e se funde, no horizonte, com o mar.

Danço na chuva,
De olhos postos na chama ardente,
Que brilha para lá da vidraça
E me faz adivinhar os contornos do que é amar...

Ébrio é o momento,
Viva é a emoção,
Enquanto, subjugada ao ritmo, me movimento
E, acaricio a vida, bebendo-lhe os segundos.

Peço um desejo,
Construo um sonho,
E deixo-me levar pelo que antevejo
Ser tão real,
Ser tão intenso,
Ser tão mágico como o teu regresso!!

Danço na chuva...
Não há frio que castre a euforia,
Não há trovão que assuste,
Tudo é magia,
Tão intensa como esta sede de música e alegria!
Tão intensa como o teu sorriso,
Quando debaixo do mesmo céu te murmuro:

Acredita no sonho!!

domingo, novembro 13, 2005

100. São palavras...


São palavras...
E leva-as o vento, a brisa que se desprende da tua voz...

São palavras...
E desfazem-se na espuma branca da praia...

São palavras...
Às dúzias... às centenas...
Letrinhas agrupadas que procuras retratar sem êxito...

Palavras e mais palavras...

São palavras...
Falam de sonhos que são realidade,
De ódio que é amor,
De mentira que é verdade,
De tristeza que é alegria...
Gastas, efémeras, vagas, fruto de outros dias.

São palavras...
Que carregas dentro de ti sem se saber...
Porque cegos estão os olhos e o coração.
Deixa fluir a energia,
É preciso que seja o teu corpo a confessar...
E a por ti falar!
Verás então que não é dor mas fome...
Fome de emoção, de paz e de magia,
O que te vai na alma.

quinta-feira, novembro 03, 2005

99. Palavras soltas


Vida. Rumo.
Paz. Fumo.
Amizade. Felicidade.
Gato. Cão.
Fado. Ilusão.
Criança. Esperança
Silêncio. Brisa.
Mar. Amar…


Suspiro levado pelo vento
Nas horas que invento
Enredos, encantos tamanhos,
mágicos fragmentos da inspiração,
Que não possuo mas ouso denunciar!
Acreditar! Ver!
Sentir como se pressentir fosse a valer
E, afinal… sorrir, serena na leda madrugada
Em que mais que dormir, foi escrever
O verbo que se impôs, que se quis, que se embalou!

Vida. Rumo.
Paz. Fumo.
Amizade. Felicidade.
Gato. Cão.
Fado. Ilusão.
Criança. Esperança
Silêncio. Brisa.
Mar. Amar…


Assim são as palavras soltas…
Das noites de voltas e mais voltas…

Assim sou… Eu!!

98. Inverno



O rigor do Inverno desce a rua
Abraça a árvore nua…
Sem sequer a fitar!


Revejo-te nela, quando sorris
E bebo o calor das tuas palavras,
Numa ânsia desmedida de recuperar o cálido fôlego.

Na verdade pura… crua…
És tu e só tu… quem desbrava a calçada,
Fustiga a intempérie,
E acarinhas um corpo frio, hirto…
A quem chamas Amor.

O sonho contorce-se à esquina.
Delira a ilusão.
Quem se aproxima é a dor…
Dor de saber gelado o coração.
Dor de conhecer o estado da alma.
Dor de pressentir distante o pensamento.

Inverno que é Verão,
Verão que é Inverno.
Brisa que não é vento,
Vento que não é brisa.
Velas que são trapos,
Trapos que são velas.
Eu e tu, numa viagem sem volta,
Onde nunca embarquei,
Onde não sentiste mais que revolta.

Sonho…
Invento…
Deliro…
Qual de nós o quente e o frio?!
O verdadeiro e o falso?!
O fiel e o traído?!
O seduzido e o sedutor?

Eu e tu, duas peças de um puzzle
Infame, irreal, obsoleto…
Onde nunca percebi pertencer.

Sorris, lábios contorcidos.
Sentimentos adormecidos, quiçá esquecidos
No momento em que te deixas abraçar
E te sabes não amado.

Quebra-se o encanto!

O rigor do Inverno desde a rua,
Abraça a árvore nua…
Sem sequer a fitar!


Desço-a…
O soluço paira já no ar,
Quando os meus olhos te confidenciam…
Não te posso amar.

terça-feira, agosto 30, 2005

94. Algo acontece...

Algo acontece quando nasce a manhã,
Quando desponta o sol
E do sorriso nasce a vida!


Quero voar,
Sentir e acreditar!!
No dia que é amanhã,
Na frenética energia…
Do sonho, que vai além da ilusão,
Serenamente saborear…
Infinita e etérea, a magia
Do doce despertar!

Algo acontece… quando nasce a manhã,
Te abraço e me deixo acarinhar…
Tal qual um amante faria!

Algo acontece… quando desponta o sol,
E os olhos brilham cintilantes!
Inesperadamente, nada resta do antes…
Tudo é volátil!
Tudo é fugaz!
No entanto, a excepção existe…
O sorriso de quem sabe…
Sabe como é o aroma!
Sabe como é o cheiro!
Sabe como é o toque!
Da força de ser mais que mortal… eterno!!

Do riso nasce a vida,
o sonho, o amor, a paixão,
o conto, o poema, a canção,
a alegria, o encanto e eu… Tu!

sexta-feira, agosto 05, 2005

93. Pó!!

O silêncio é pó!
Pó que se abeira dos dias,
Se infiltra no coração,
Que como o ódio o corrói!
Não há música,
Não há vida,
Não há sonho,
Só o negrume, cerrado e frio!

O silêncio é pó!
Pó que não se vê,
Se insinua subtilmente...
Quanto muito, se pressente,
Na ponta do pensamento,
Na onda do momento...
Que não se vive
Que não se desfruta,
Que não se imagina, sequer!
Só se ignora, intenso e revelador!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!

O silêncio é pó?!
Pó que te arrasta.
Pó que te afasta...
(Dos risos, da euforia, da magia...)
Que te transforma em fantasma
Como uma imagem irreal num plasma.
Pó!!

O silêncio é pó?!
Pó...mais que ínfimas partículas que não tacteias
Mas que se infiltram nas tuas veias...
É ele que te reveste de um negro opressor,
Que te suga a essência e te aniquila!
Pó!!

O silêncio é... pó!
Pó... Pó... Pó!! E mais pó!
Tanto... Tanto que dá dó!

Pó!!

sexta-feira, junho 24, 2005

90. Eugénio de Andrade



Como se vence o amor?, perguntavas
o sorriso brincando ao sol com as romãs.


Como se vence a morte?, questionavas
o olhar atirado à vida com nostalgia,
num excelso esforço de quem já pouco acredita...
num desaire desmedido de quem, ainda, ousa sonhar!
Mas veio a penumbra,
O negrume atroz não desejado!
Foi-se o sopro vital
Que te sustinha neste mundo mui amado!
Fica, agora, a memória...
Refúgio de mil lembranças desta tua existência.
Perdura a força das horas contadas...
Com vigor e paixão,
As letras agrupadas...
Num poema, num soneto, numa simples estrofe,
Algo de concreto,
De mágico e eterno!
É verdade! Nenhuma onda apagará a sua marca da praia.

Os anos hão-de passar
E, do grande livro que é a vida, há-de ficar...
O registo fiel de uma relação
Luminosa, sublime, intemporal,
Um acorde poético,
De palavras interditas ou não
Mas que algures brotaram da tua essência
Com a fúria de um fogo intenso...
Com a calmaria que sucede a tempestade.

Eu sei... Tu sabes...
Muito depois de teres partido
a tua voz continuará a ecoar dentro de nós:

Boa noite. Eu vou com as aves...
num voo rasante e lascivo
sobre esta terra que amo e deixo...
com saudade e sem vontade!
Até logo... Até amanhã... Até sempre!!


(Singela homenagem ao poeta e ao homem. 13 de Junho de 2005)

quinta-feira, maio 19, 2005

86. Sonhar e lutar...crescer!



Serena, ainda que exultante,
Percorro os meandros da mente
Numa busca constante,
Precisa e perspicaz, que me permita crescer!

Sorrio...
Há sorrisos de todas as cores, formas ou feitios,
Só a eterna sensação de paz perdura
Na profundidade do meu ser!

Exultante ainda que descontente,
Não me dou por vencida...
A vida é bela!

Cada dia é um capítulo por escrever,
Cada sonho um barco que navega
E a bom porto há que levar.

Rir, viver, amar... respeitar,
São alguns dos verbos que me assaltam...
Nesta hora imprecisa
De uma qualquer noite, mágica e mística!

Fala-se de amor...
Por mim... por ti... por nós... por vós...
Por quem luta diariamente, por vencer a dor,
E retirar de cada momento o melhor:
Aprender e evoluir!

Serena, ainda que exultante,
Exultante ainda que descontente,
A felicidade envolve-me e inebria-me
Fazendo-me acreditar
E sorrir ao relembrar
O importante que é lutar...
Pelos sonhos que nos movem!

sábado, abril 16, 2005

75. Inspiração



Fecho os olhos, inspiro o ar
E da brisa do mar fica-me a recordação
De tardes perdidas no curso dos dias...
Dos meus... dos teus... dos nossos!
Os anos que não me pesam, passam...
Trazem-me, mais que tristezas, alegrias
E do ontem recupero apenas o necessário,
O suficiente, o imprescindível,
Para não me esquecer...
Do que fui e do que sou!

Fecho os olhos, inspiro o ar...
Sinto o peito estremecer,
Numa tal comoção que por instantes...
Sinto-me desfalecer.
Amanhece ou anoitece.
Nasce-se ou morre-se.
Vive-se, sabendo que o amanhã...
Será mais um dia de esperança!

Fecho os olhos, inspiro o ar...
De mim para mim digo... sei-o!
Vivo um sonho!
O de ser eu própria a cada despertar,
Sem máscaras nem mentiras...
Assim... e assim... Enfim! Eu!

terça-feira, março 22, 2005

66. As pegadas do Sonho




Na bruma da manhã
Enquanto caminho,
Nesta busca incerta do amanhã,
Encontro-te sentado na areia húmida.
Lanço-te um olhar perdido em carinho,
Um sorriso enlevado,
E murmuro-te a confissão de uma vida!

Quem és?!
A ironia de um retracto renegado,
Que carrego nas entranhas...
Sem te dar forma física...
Ou um rosto, um nome!

Ilusões tamanhas,
As que me fazem renascer,
A cada despertar da aurora,
E ter da vida fome!
Fome de mim, de ti...
De nós numa junção plena do ser.

As pegadas ficam desenhadas na praia.
Segues-me...
Persegues-me...
Enquanto me pergunto se não deveria ser eu a vigiar-te...

Afinal... sou eu a possuir o sonho...
Ou é o sonho que me possui?!

domingo, fevereiro 20, 2005

49. Poesia de ontem e de hoje.


Almada Negreiros

A corrente inquebrável que nos une
Torna o meu sorriso mais brando
E o meu olhar mais sereno...
Enquanto no aconchego das paredes,
A que chamo minhas,
Vou apelando a uma doce reforma...
Dos hábitos... dos desejos... da ventura!
Há dias... e à insensibilidade da maledicência imune,
Recuperei das horas mortas
O sonho ido!
Por momentos... a infância retornou,
Volveu o agridoce sabor da aventura,
E através de ti, recuperei a esperança!
Nada se perde, tudo se transforma!
Das cinzas do lume extinto,
Renasce a emoção que outrora me abandonou.
Falo-te de verdades de outros tempos,
Sentimentos errantes, que há muito não sinto,
Mas que sei tão reais como este momento!
Não será somente desejo...
Muito menos paixão...
É, afinal... o amor à vida, que retorna!

(escrito a 14 de Junho de 2004)

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

43. "Amo-te, sinto-o sem saber..."
Maria Teresa Horta





"Amo-te, sinto-o sem saber à beira das ondas que à minha frente se desdobram, sobem por dentro do seu interior de ónix e em seguida se tecem e enovelam numa vertigem entontecida de sal e de esplendor, se dobram, se encurvam e estendem, vindo por fim desenrolarem-se bruscas a meus pés, espuma branca fazendo de algemas fechadas em torno dos meus tornozelos."

Maria Teresa Horta
In Contos de Verão, Diário de Noticias, 12 Agosto




Amo-te, sinto-o sem saber...
Talvez, sem ter como o reconhecer.
Porque os dias tardam a chegar.
Porque o sonho é menos que amar.
Porque a vida assim o quis!

Amo-te, sinto-o sem saber...
Quando à noite te relembro o rosto.
Sem te dar um nome.
Sem te conhecer o paradeiro.
Sem, sequer, te saber verdadeiro!

Amo-te, sinto-o sem saber...
Nos momentos em que perco o olhar,
Para lá das ondas do mar.
Para lá do horizonte...
Onde navega a essência do meu ser!

Amo-te, sinto-o sem saber...
Enquanto o emaranhado de emoções...
Me assalta a alma...
Me subtrai da realidade,
desnudando a aparente calma.


Mesmo agora em que quase te reconheço
O cheiro... a voz... o toque...
o carinho... o abraço... o beijo...
no doce embalo da madrugada, que não tarda,
continuo, persistente, a acreditar que...

Amo-te, sinto-o... sem saber!

sábado, janeiro 29, 2005

38. Consciente e Solidário!




A propósito de tudo e de nada
Deambulo por aqui e por ali.
Os olhos postos para lá do horizonte,
Os passos ritmados e serenos,
O coração convicto da sua condição apaixonada,

O dia que desponta,
A noite que se esconde,
A memória de emoções tonta,
Ou, simplesmente a vida em que alegria abonde...
Tudo lhe serve de mote!
Mesmo a tristeza dos que choram a morte,
A inércia dos que se mantêm indiferentes,
Ou a hipocrisia dos que se remetem à cegueira mental...
Lá estão, a marcar o compasso!

O vicio está nas palavras... no pensamento
E, afinal, no enfrentar da realidade!
Talvez seja, somente, o constatar atento...
Do que é assumir-se consciente e solidário!

Há seres a tremer de frio ao relento.
a quem a fome consome...
que erguem os olhos num ténue movimento
e, unicamente, encontram o voltar de um rosto...
um ignorar cortante...
uma retribuição ausente...
e a necessidade sempre presente!

Há agasalhos esquecidos sem destino definido...
meia dúzia de moedas sem fim aparente...
sentimentos e valores a recuperar...

Por onde começar?!
Basta que se permita olhar...

A mão, gasta e suja,
Carente e ansiosa... está mesmo ali...



Outros poemas:


Sina desgraçada...

"A Noite do Oráculo" Paul Auster

"O coração tem razões que a razão desconhece." Pascal

"The life and loves of a she devil" Fay Weldon

quinta-feira, janeiro 13, 2005

33. Um dia... jornalístico!




Promessas cabalísticas ou invocações pragmáticas da realidade,
Tragédias nefastas ou ferocidade da natureza,
Implacável mão de Deus prostrada sobre cada centímetro de solo?!
Notícias do mundo tratadas com imerecida leveza!
Políticos, lideres, desportistas, escritores, figuras anónimas
Da vida... do sonho... ou somente do pesadelo!
Todos juntos, todos isolados na mesma mentira...
Lutando pelos cinco minutos de fama efémera!
Teias, enredos, tramas do mesmo novelo...
Que nos deveriam fazer mais que pensar,
Sentir e agir... ainda assim apenas lhes dedicamos a indiferença...
De um pesar distante e quase hipócrita!
É assim, esta Terra perdida no meio do nada do Universo!
Há talvez mais do que uma voz que grita,
Mais do que um fatal verso
Deste poema que é a vida...
Mas que sabemos nos daquele que outras paragens habita?!
Um... dois... três segundos do seu horror?!
Quatro... cinco... seis imagens desfocadas do seu rosto?!
Sete... oito... nove palavras que na sua dor recita?!
Na verdade e em tudo NADA!
E assim, passa mais um dia... jornalístico!

quarta-feira, dezembro 22, 2004

23. Sina desgraçada...




Uma esquina que se dobra,
um avançar que se não logra!

Dedos despidos que não se sentem,
auguros que não se pressentem!

Luzes que se admiram,
sonhos que não se reconstruíram...

Amor que não se sente,
sentimento que não se consente!

Natal que se avizinha,
calor que não se adivinha...

Na imensidão da noite inóspita
há crianças que choram,
há velhos que tremem de frio...
há ceias que não se partilham,
solidão que não se atenua...
e o tempo não recua!

Percorres as ruas silenciosas,
durante um "breve" instante do teu caminhar...
Sabendo ter por tecto céu e estrelas...
que, afinal, não podes comtemplar!
Sina desgraçada,
A que te foi reservada!
Um pesadelo do qual não despertas
enquanto os pés descalços...
tacteiam as pedras da calçada
e te sabes tão sozinho no mundo
como um náufrago em ilhas desertas!

Nenhuma luz! Nenhuma esperança!
Apenas um contentamento descontente
de te saber vivo...
numa espera constante pelo negrume, que te abraça...
no momento em que o pensamento te ultrapassa!

Passo por ti, não te vejo!
Ou talvez não te queira ver...
tal como também tu não me desejas ter na tua mirada!
Ainda assim, sei que existes!
...que o teu coração, tal como o meu, bate descompassado!
Como eu usas máscaras...
e como eu... raras vezes abandonas a tua redoma!
Mas ao contrario de mim...
não terás uma família a olhar por ti
ou com quem partilhar o momento
e sorrir, ternamente, quando as doze horas badalarem!
A tua fogueira não terá chamas
e os teus presentes serão paralelos de granito!
A canção de natal que se acercará de ti
será tão somente o surdo grito...
da solidão... do frio... do abandono!
Nessa hora... não me lembrarei que existes algures...
mas numa outra... incerta no tempo a memória retornará!
E agora, que te digo isto,
sei-o!!
Haverá uma lágrima a espreitar o mundo,
uma revolta a crescer...
e uma culpa a ressentir-se
de anos a fio de alheamento profundo
desprezo absoluto...
desta consciência que tardou a renascer!

Procurarei por ti...
nas ruas despidas,
nos recantos mais escabrosos,
nas velhas casas rejeitadas até pelos fantasmas
ou, tão somente, no aconchego precário das pontes...
Espero encontrar-te!!
E poder, finalmente, dizer:

Não me esqueci de ti!